O produtor brasileiro está comprando menos fertilizante importado em 2026, mas pagando mais por ele.
Entre janeiro e julho, o Brasil importou 22,4 milhões de toneladas, redução de 7,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mesmo com menos produto entrando, o desembolso aumentou 7,3%, alcançando US$ 8,8 bilhões. Em junho, o preço médio do fertilizante importado ficou 26,1% acima daquele registrado no mesmo mês de 2025.
É uma combinação que chega diretamente ao planejamento da próxima safra. Fertilizante mais caro significa maior necessidade de capital antes mesmo de colocar a semente no solo, piora a relação de troca com grãos e comprime uma margem que já sofre com juros, crédito mais restrito e preços de algumas commodities abaixo dos melhores momentos dos últimos anos.
Mas existe um problema ainda maior por trás dessa conta.
O Brasil construiu uma das maiores agriculturas do mundo dependendo do exterior para fornecer mais de 80% dos fertilizantes que utiliza. Em 2025, as importações chegaram ao recorde de 45,5 milhões de toneladas.
Isso significa que uma guerra, uma sanção, uma restrição de exportação, um problema numa rota marítima ou uma disparada do preço internacional de matérias-primas pode atravessar o oceano e aparecer rapidamente dentro da planilha do produtor brasileiro.
Foi justamente para tentar mudar parte dessa estrutura que o Congresso aprovou o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes, o Profert.
Só que o programa não deve ser confundido com uma solução de curto prazo para baixar o preço do adubo da próxima safra.
A discussão é muito maior.
Fertilizante caro não reduz só a margem, aumenta o risco
Fertilizante não é um item que o produtor simplesmente deixa de utilizar sem consequência.
Nitrogênio, fósforo e potássio estão diretamente relacionados ao potencial produtivo das lavouras e ganham importância ainda maior num país que desenvolveu boa parte de sua agricultura em solos que exigem correção e nutrição.
Quando o preço sobe, o produtor tem algumas alternativas, antecipar a compra, trocar fornecedor, financiar mais, reduzir aplicação ou tentar otimizar o uso.
Nenhuma delas é neutra.
Antecipar exige caixa. Financiar aumenta custo financeiro. Reduzir dose pode comprometer produtividade quando a decisão não está amparada tecnicamente.
Por isso, a alta do fertilizante não pesa apenas no custo por hectare, aumenta também o risco da decisão.
O cenário de 2026 reforçou esse problema. Ureia e MAP tiveram redução nas importações durante o primeiro semestre, enquanto diferentes nutrientes responderam de maneira distinta ao preço, à oferta internacional e à relação de troca com as culturas.
Para uma agricultura que precisa planejar meses antes da colheita, previsibilidade deixou de significar apenas saber quanto vai custar.
Significa saber se haverá produto, de onde ele virá, em que prazo e a qual exposição cambial e geopolítica o produtor estará submetido.
O Brasil tem um plano desde 2022, mas a dependência continua
A preocupação não surgiu agora.
O governo federal criou o Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050, o PNF, justamente para tentar reduzir a vulnerabilidade brasileira.
O plano prevê modernização e reativação de fábricas, atração de investimentos, pesquisa e inovação, melhoria da logística e desenvolvimento de novas fontes de nutrientes. A versão revisada pelo Conselho Nacional de Fertilizantes estabelece como horizonte chegar a 2050 com produção doméstica capaz de atender entre 45% e 50% da demanda brasileira.
Não significa autossuficiência.
E talvez esse nem deva ser o objetivo.
Um país integrado ao comércio internacional continuará comprando fertilizantes de outros mercados quando isso for economicamente vantajoso. A questão estratégica é outra, até que ponto é saudável produzir alimentos para o mundo dependendo de outros países para mais de 80% de um dos principais insumos utilizados para produzi-los?
A guerra entre Rússia e Ucrânia mostrou o tamanho dessa vulnerabilidade, os conflitos posteriores no Oriente Médio voltaram a pressionar matérias-primas e logística.
E, enquanto o Brasil discute como ampliar a produção, algumas plantas domésticas caminharam no sentido contrário.
Grandes unidades reduziram produção dentro do Brasil
A contradição aparece dentro da própria indústria.
Em abril de 2026, a Mosaic anunciou o processo de paralisação e desmobilização do Complexo Mineroquímico de Araxá, além da paralisação de atividades de mineração relacionadas ao complexo de Patrocínio, em Minas Gerais.
A própria companhia estimou que as medidas reduziriam sua produção anual de fosfato em aproximadamente 1 milhão de toneladas.
A situação se agravou com a disparada do enxofre, matéria-prima fundamental para a produção de fertilizantes fosfatados.
Em julho, a Mosaic ampliou os ajustes. Houve paralisações ou reduções envolvendo Tapira, Catalão, Candeias, Palmeirante e Sorriso, além da previsão de colocar gradualmente o complexo de Uberaba em regime de hibernação a partir de setembro.
A Yara já havia tomado decisão semelhante em 2025, hibernando a produção de fertilizantes fosfatados e ácido sulfúrico em unidades de Cubatão e Paulínia. Levantamento do Observatório Nacional de Transporte e Logística estima que a medida retirou cerca de 1,5 milhão de toneladas anuais de matérias-primas para fertilizantes da capacidade nacional.
Não significa que o Brasil ficou sem fertilizante.
Essas empresas continuam participando do mercado, inclusive com produção em outras unidades, mistura, importação ou fornecimento por terceiros.
Mas os episódios deixam uma mensagem importante.
Reduzir a dependência externa não é apenas inaugurar novas fábricas. É também criar condições econômicas para que produzir fertilizante no Brasil continue fazendo sentido.
É nesse cenário que entra o Profert
O Projeto de Lei 699/2023, do senador Laércio Oliveira, foi aprovado definitivamente pelo Senado em 11 de agosto e remetido à Presidência da República no dia 17. O prazo constitucional para sanção ou veto vai até 4 de setembro.
O texto cria o Profert para estimular a produção nacional de fertilizantes e matérias-primas sintéticas, minerais e orgânicas.
E amplia a política para uma área especialmente importante para o futuro do setor, remineralizadores, bioinsumos e biofertilizantes também estão expressamente incluídos entre os potenciais beneficiários.
Os objetivos escritos no projeto são claros: reduzir a dependência externa, garantir segurança de abastecimento, diminuir custos da cadeia agropecuária e fortalecer a segurança alimentar.
Mas o desenho que chegou à Presidência é diferente daquele que ganhou destaque quando passou pela Câmara.
Os R$ 10 bilhões ficaram pelo caminho
Esse é um ponto importante para entender exatamente o que o Congresso aprovou.
Quando passou pela Câmara dos Deputados, o Profert chegou a prever até R$ 10 bilhões em créditos fiscais entre 2027 e 2031, com limite de R$ 2 bilhões por ano. Também criava um Fundo de Estímulo à Produção Nacional de Fertilizantes.
Esses dois instrumentos não permaneceram no texto final enviado à sanção.
No Senado, a relatora Tereza Cristina retirou a criação do fundo por entender que havia vício de iniciativa, já que um projeto parlamentar não poderia instituir, naquele formato, um fundo orçamentário gerido pelo Executivo.
Os dispositivos que estabeleciam os créditos fiscais também foram excluídos. A relatora argumentou que a matéria fiscal poderia ser tratada de forma mais adequada em outro projeto complementar negociado com o governo.
Portanto, dizer simplesmente que o Profert aprovado prevê R$ 10 bilhões em créditos fiscais já não corresponde ao autógrafo que está atualmente na mesa do presidente da República.
A política sobreviveu.
Mas mudou.
Então o que o Profert aprovado realmente faz?
O primeiro movimento é criar formalmente uma política voltada à indústria nacional de fertilizantes, incluindo fontes tradicionais e alternativas.
O segundo é permitir que a União, desde que haja disponibilidade orçamentária e financeira, destine recursos para linhas de financiamento reembolsável voltadas à produção nacional.
Esses recursos serão repassados ao BNDES, que poderá operar diretamente ou por meio de instituições financeiras habilitadas.
O financiamento poderá apoiar modernização, reativação e ampliação de plantas industriais, pesquisa, desenvolvimento e inovação, infraestrutura logística e novos empreendimentos.
Também poderá financiar mecanismos de mitigação de risco e estabilização de preços por contratos por diferença.
Em outras palavras, o Profert tenta atacar um problema que ficou evidente com as paralisações recentes, produzir fertilizante dentro do Brasil precisa ser economicamente viável também quando o mercado internacional muda.
O ponto mais polêmico está na mistura obrigatória
O projeto traz ainda uma medida que mexe diretamente com o mercado. O Confert deverá definir percentual obrigatório de fertilizantes nacionais sintéticos e minerais dentro dos fertilizantes comercializados no Brasil.
O texto estabelece 2% a partir de 1º de julho de 2027 e 10% até janeiro de 2037, podendo o percentual avançar posteriormente entre 10% e 30%, conforme avaliação técnica.
É uma tentativa de garantir demanda mínima para a produção doméstica.
Mas o próprio texto reconhece o risco econômico da medida, ao exigir análise sobre disponibilidade, capacidade industrial, preço, qualidade e impacto sobre a competitividade do agro.
Esse cuidado é fundamental.
Não faria sentido criar uma política para reduzir custos do produtor e terminar obrigando a compra de um produto nacional significativamente mais caro apenas para sustentar determinada fábrica.
A produção brasileira precisa crescer.
Mas precisa crescer competitiva.
Remineralizadores podem ganhar uma janela maior
Aqui aparece uma oportunidade que merece atenção.
O Plano Nacional de Fertilizantes já estabelecia uma meta de chegar a 100 plantas de beneficiamento capazes de produzir 2 milhões de toneladas anuais de remineralizadores até 2030, avançando para 9 milhões em 2040 e 18 milhões em 2050.
O Profert coloca esses produtos dentro da política de financiamento.
Isso não significa que remineralizadores substituirão ureia, MAP ou cloreto de potássio.
Não são produtos equivalentes e a recomendação depende da necessidade agronômica, do solo, da cultura e da composição de cada material.
Mas ampliar a diversidade de fontes disponíveis pode reduzir parte da vulnerabilidade, principalmente quando combinada com bioinsumos, melhor eficiência do uso de nutrientes, reciclagem de resíduos e novas tecnologias.
A solução para uma dependência superior a 80% dificilmente virá de uma única mina ou de uma única fábrica.
Ela provavelmente virá de várias frentes ao mesmo tempo.
O preço da próxima safra não vai cair porque o Profert foi aprovado
Esse talvez seja o principal cuidado na leitura política da proposta.
O produtor que está fechando a safra 2026/27 não deve esperar que a aprovação do Profert provoque uma redução imediata no preço dos fertilizantes.
Construir uma fábrica exige investimento, licenciamento, matéria-prima, energia, gás, logística e anos de implantação.
Reativar plantas também leva tempo.
E mesmo depois de tudo isso, a indústria nacional continua disputando mercado com grandes produtores internacionais.
A própria Tereza Cristina reconheceu no Senado que a efetividade do programa dependerá de regulamentação, ambiente regulatório estável, competitividade do gás natural, infraestrutura e coordenação entre diferentes órgãos do governo.
Ou seja, aprovar o Profert foi uma etapa.
Fazer o Profert funcionar será outra.
Produzir fertilizante no Brasil precisa fechar a conta
Essa talvez seja a principal lição das paralisações recentes. O Brasil pode ter minério, pode ter mercado consumidor, pode ter produtores dispostos a comprar. Mas uma fábrica só continua operando se conseguir transformar matéria-prima em fertilizante a um custo competitivo.
No caso dos nitrogenados, o preço do gás é decisivo. Nos fosfatados, a disponibilidade e o custo de matérias-primas como enxofre pesam fortemente. Há ainda energia, logística, licenciamento, tributação e volume de investimento. Por isso, política industrial não pode ser reduzida a uma frase sobre soberania nacional.
Se o Brasil quiser produzir mais fertilizante, terá de criar um ambiente em que o investimento privado enxergue retorno de longo prazo.
O Profert tenta entrar exatamente nesse ponto.
A dependência nunca pesou tanto na planilha
Em 2026, o produtor brasileiro recebeu uma demonstração bastante concreta dessa vulnerabilidade. O país importou menos e gastou mais, mas o preço médio avançou. Grandes unidades domésticas reduziram produção. Conflitos internacionais voltaram a interferir no custo das matérias-primas.
E o Brasil entrou em mais uma safra dependendo de outros países para fornecer mais de quatro quintos do fertilizante que utiliza. O Profert não resolve essa conta amanhã.
Também não substitui o Plano Nacional de Fertilizantes, não elimina importações e não garante sozinho que uma nova fábrica seja construída.
Mas cria uma estrutura que o país demorou décadas para colocar de pé, uma política voltada especificamente para financiar, estimular e acompanhar a expansão da produção doméstica.
Agora, o teste será descobrir se ela conseguirá produzir resultado concreto.
E, principalmente, quanto dessa política chegará na forma de maior previsibilidade e menor vulnerabilidade para quem compra fertilizante antes de cada safra?
Porque soberania em fertilizantes não será medida pelo número de programas lançados em Brasília.
Será medida no dia em que uma crise internacional deixar de decidir, sozinha, quanto custa adubar uma lavoura brasileira.








