sexta-feira, 28 de agosto de 2026
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Política

Fim da escala 6×1 chega ao agro: quem paga a conta de uma jornada menor?

PEC reduz jornada para 40 horas e dois dias de descanso; agro alerta para custos e falta de mão de obra, enquanto governo aposta em produtividade.

Fim da escala 6×1 chega ao agro: quem paga a conta de uma jornada menor?
Divulgação

PEC aprovada pela Câmara reduz jornada para 40 horas e garante dois dias de descanso; agro calcula bilhões em custos para manter frigoríficos, usinas e outras operações, enquanto governo e pesquisadores defendem que ganhos de produtividade podem absorver parte do impacto

A galinha continua botando ovo no sábado. A vaca precisa ser ordenhada no domingo. O suíno precisa ser alimentado todos os dias. Uma usina não interrompe a moagem no meio da safra porque começou o fim de semana, e um armazém não pode mandar os caminhões embora quando dezenas de produtores chegam ao mesmo tempo para entregar soja ou milho.

É a partir dessa realidade que o agronegócio tenta entrar em uma das discussões trabalhistas mais importantes de 2026.

A PEC 221/2019, que acaba com a escala 6×1, já foi aprovada pela Câmara dos Deputados e está agora na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, sob relatoria do senador Omar Aziz (PSD-AM). O texto reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, estabelece cinco dias de trabalho e dois de descanso e proíbe redução salarial.

O debate ganhou urgência porque o Senado voltou a movimentar a proposta às vésperas do esforço concentrado previsto para a semana de 31 de agosto a 4 de setembro. Aziz afirmou que pretende apresentar seu parecer ainda nesta semana e disse enxergar maioria para aprovação.

Para o trabalhador, a discussão passa por qualidade de vida, descanso, saúde e mais tempo fora do emprego.

Para o agro, aparece outra pergunta: como reduzir a jornada de quem trabalha sem reduzir as horas em que animais, lavouras, frigoríficos, usinas e estruturas de armazenagem precisam continuar funcionando?

É aí que começa uma conta que pode chegar a bilhões.

Antes de falar em impacto, é preciso entender o que realmente foi aprovado

O texto que saiu da Câmara é diferente das propostas que dominaram o debate quando a discussão sobre o fim da escala 6×1 começou.

A PEC original de Reginaldo Lopes previa chegar a 36 horas semanais. A proposta de Erika Hilton também defendia 36 horas, distribuídas em quatro dias.

O substitutivo aprovado pela Câmara foi mais moderado.

Pelo texto atual, 60 dias depois da eventual promulgação, a jornada cairia de 44 para 42 horas e já passariam a valer dois dias de descanso remunerado por semana. Um ano depois dessa primeira etapa, portanto 14 meses após a promulgação, o limite chegaria às 40 horas semanais.

O salário não poderia ser reduzido.

Durante a transição, acordos e convenções coletivas poderiam ajustar a duração diária do trabalho para acomodar as 42 horas. O texto também permite que leis estabeleçam regimes diferenciados para algumas atividades e admite mecanismos de compensação por negociação coletiva em operações específicas, desde que os parâmetros constitucionais sejam respeitados.

Essa distinção é importante.

A PEC não determina que um frigorífico, uma granja ou uma usina opere apenas cinco dias por semana.

Ela muda a jornada do trabalhador.

Para uma operação funcionar sete dias, a empresa poderá precisar reorganizar turnos, contratar mais pessoas, ampliar automação ou utilizar os mecanismos de negociação previstos em lei e em instrumentos coletivos.

É exatamente aí que o custo pode aparecer.

Agro tem 27,8 milhões de pessoas ocupadas, mas nem todas seriam atingidas da mesma forma

O tamanho do mercado de trabalho ajuda a dimensionar a discussão.

No primeiro trimestre de 2026, o agronegócio brasileiro reunia 27,79 milhões de pessoas ocupadas, segundo levantamento do Cepea em parceria com a CNA. O conceito inclui produção dentro da porteira, agroindústria, insumos e agrosserviços.

Mas há um cuidado necessário.

Esse número não representa 27,79 milhões de trabalhadores sujeitos à escala 6×1. A metodologia inclui empregados, produtores, empreendedores, trabalhadores por conta própria e até pessoas dedicadas à produção para autoconsumo.

Portanto, quando entidades afirmam que uma mudança trabalhista pode atingir quase 30 milhões de pessoas no agro, estão dimensionando o tamanho econômico da cadeia, não dizendo que todos esses trabalhadores terão suas jornadas alteradas.

E mesmo dentro do emprego formal, o efeito será muito diferente de uma atividade para outra.

Uma fazenda de grãos altamente mecanizada tem uma estrutura de trabalho.

Uma propriedade leiteira tem outra.

Um frigorífico com milhares de funcionários tem outra.

E uma pequena granja familiar pode praticamente não ter empregados contratados.

Por isso, qualquer cifra nacional sobre o custo do fim da 6×1 precisa ser tratada com cuidado.

Governo calcula impacto maior no agro do que na média

Um estudo preliminar apresentado pelo Ministério do Trabalho durante a discussão da PEC na Câmara já indicava que a mudança não teria o mesmo custo em todos os setores.

Segundo dados levados ao Congresso, a redução de 44 para 40 horas poderia representar um impacto médio equivalente a 4,7% da massa de rendimentos da economia.

Na agropecuária, construção e comércio, o impacto estimado ficaria entre 7,8% e 8,6%. Na indústria de alimentos e no transporte aquaviário, poderia chegar perto de 10,5%. O próprio Ministério ressaltou que o estudo ainda era preliminar e não incorporava todas as contratações necessárias para manter o nível de produção.

Outro cálculo apresentado no Congresso chegou a um resultado diferente.

O pesquisador Felipe Vella Pateo, do Ipea, estimou que o custo operacional da agropecuária poderia aumentar aproximadamente 3% com a redução da jornada.

Não significa necessariamente que um estudo esteja certo e o outro errado.

Eles medem coisas diferentes e trabalham com metodologias distintas.

Isso também mostra por que frases como “o fim da 6×1 vai custar X bilhões ao agro” precisam vir acompanhadas de uma explicação sobre quem calculou, qual cenário foi considerado e o que exatamente entrou na conta.

Proteína animal pode ter uma das contas mais pesadas

Se existe uma cadeia em que o dilema fica evidente, é a proteína animal.

A produção não começa no frigorífico.

Há granjas, alimentação, manejo, carregamento, transporte, recepção de animais, abate, processamento, refrigeração e expedição.

Aves e suínos possuem ciclos biológicos contínuos. O animal não deixa de precisar de água, alimento ou controle ambiental porque o empregado completou sua jornada semanal.

Durante audiência da Câmara, a Associação Brasileira de Proteína Animal levou justamente essa preocupação ao debate. O setor argumentou que frangos, suínos e ovos exigem atividade ao longo dos sete dias da semana e que uma mudança uniforme poderia exigir regimes diferenciados ou reorganização profunda dos turnos.

Estimativas apresentadas pela Frente Parlamentar da Agropecuária e posteriormente citadas pela Sociedade Rural Brasileira apontam que, para manter o nível atual de produção, o impacto adicional na cadeia de suínos e aves poderia chegar a R$ 9 bilhões.

É uma estimativa setorial, não uma projeção oficial de impacto econômico confirmado.

Mas ajuda a mostrar onde está a preocupação.

Se uma linha industrial precisa continuar operando pelo mesmo número de horas e cada funcionário passa a trabalhar menos horas na semana, alguém terá de preencher esse intervalo.

Pode ser outro trabalhador.

Pode ser hora adicional dentro das regras permitidas.

Pode ser automação.

Pode ser reorganização de turno.

Em qualquer uma dessas alternativas existe uma conta.

Etanol: a safra não termina na sexta-feira

As usinas sucroenergéticas aparecem como outro exemplo.

Durante a safra, moagem e processamento trabalham com elevado grau de continuidade. Parar uma planta industrial por causa da organização semanal do trabalho não é uma decisão simples, principalmente porque a matéria-prima chega em fluxo constante e existe investimento pesado em estrutura industrial.

As estimativas apresentadas pela FPA indicam que a redução de 44 para 40 horas poderia acrescentar entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões aos custos da cadeia de etanol, principalmente pela necessidade de recompor equipes.

A SRB também passou a usar essa projeção nas discussões sobre a PEC.

Mais uma vez, a cifra deve ser tratada como estimativa do setor, não como consequência automática da aprovação.

Mas o etanol ajuda a mostrar outra dimensão da pauta.

O Brasil está estimulando a expansão dos biocombustíveis, elevando misturas obrigatórias e tentando ampliar sua posição na transição energética. Se a estrutura de custos das usinas mudar ao mesmo tempo, competitividade trabalhista e política energética passam a fazer parte da mesma discussão.

Na colheita, o relógio é do clima

Existe ainda uma diferença entre o campo e boa parte da economia urbana: em determinadas épocas, a natureza define a jornada operacional.

Uma janela de colheita pode ser curta.

Uma chuva prevista para o dia seguinte pode fazer o produtor correr para retirar grãos.

Frutas e hortaliças possuem momento específico de colheita.

Um armazém pode passar semanas com movimento relativamente normal e, durante o pico da safra, receber caminhões praticamente sem interrupção.

É por isso que CNA e SRB insistem na sazonalidade como uma particularidade da agropecuária.

A CNA afirmou no Senado que eventuais mudanças precisam considerar características como safra, sazonalidade e diferentes formas de organização do trabalho rural.

A SRB também argumenta que uma redução rígida da escala poderia aumentar dificuldades em colheita, transporte e manejo e, se não houver mão de obra suficiente para compensar as horas reduzidas, eventualmente afetar a oferta.

Mas aqui também cabe uma distinção.

Risco de pressão sobre o abastecimento não significa que haverá desabastecimento.

Esse é um cenário levantado pelas entidades caso a redução de jornada provoque perda de capacidade operacional sem reposição suficiente de trabalhadores.

O problema é contratar, mas onde estão os trabalhadores?

O argumento empresarial ganha força em regiões onde o agro já relata dificuldade para encontrar mão de obra.

A questão não é simplesmente saber quanto custa contratar mais um funcionário.

É saber se ele está disponível.

Em cadeias mais tecnificadas, parte das vagas exige operador de máquinas, técnico, eletricista, mecânico, trabalhador treinado para frigorífico ou profissional capaz de lidar com automação.

Em atividades mais intensivas, há também dificuldades de atração e retenção dos trabalhadores.

A SRB argumenta que essa escassez pode fazer com que algumas propriedades e empresas não consigam simplesmente aumentar o quadro para compensar a redução da jornada.

O problema tende a pesar mais para operações pequenas.

Uma grande agroindústria consegue montar diferentes turnos e diluir parte dos custos.

Um produtor de leite que possui apenas um empregado encontra uma equação muito diferente.

Se precisar contratar uma segunda pessoa para preencher algumas horas que ficaram descobertas, o aumento percentual da folha pode ser muito maior.

É por isso que a discussão sobre a 6×1 também pode acabar virando uma discussão sobre concentração produtiva.

Se o custo adicional for mais facilmente absorvido por grandes empresas do que por pequenos negócios, parte do setor teme que a mudança acelere a saída de produtores menores.

Paraná calculou R$ 4,1 bilhões, mas há uma diferença importante

Um dos estudos mais citados pelo agro foi produzido pelo Sistema FAEP.

O levantamento calculou que uma redução de jornada exigiria 107 mil novas contratações no Paraná e poderia acrescentar R$ 4,1 bilhões por ano aos custos da agropecuária estadual.

Na avicultura e suinocultura, a conta chegaria a R$ 1,72 bilhão. Nos grãos, a R$ 900 milhões.

Mas existe uma ressalva fundamental.

Esse levantamento considerou a redução da jornada de 44 para 36 horas semanais.

Não é esse o texto que a Câmara aprovou.

A versão hoje no Senado estabelece 40 horas.

Portanto, os R$ 4,1 bilhões não podem ser usados como uma estimativa direta do custo da PEC atualmente em votação. Servem para mostrar como uma redução mais profunda da jornada poderia afetar um estado fortemente dependente do agro, mas não representam exatamente a regra que está na mesa dos senadores.

A mesma cautela vale para alguns levantamentos divulgados em Santa Catarina no início do ano, elaborados quando o debate ainda estava concentrado nas propostas de 36 horas.

E a indústria de alimentos fala em outros R$ 23 bilhões

A discussão não termina dentro da porteira.

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos estima que uma redução da jornada pode adicionar R$ 23 bilhões aos custos de produção do setor industrial de alimentos e sustenta que parte dessa conta poderia ser repassada aos preços.

Não se deve somar simplesmente esse número aos R$ 9 bilhões das proteínas, aos R$ 5 bilhões do etanol ou a outras estimativas.

Há risco de sobreposição entre elos, trabalhadores e metodologias.

Mas o número mostra por que o assunto interessa também ao consumidor.

Uma alteração trabalhista que comece no campo pode chegar ao frigorífico, à indústria, ao transporte, à distribuição e finalmente à gôndola.

A pergunta é quanto dessa pressão seria absorvida por produtividade, margem empresarial ou automação e quanto terminaria incorporado ao preço.

Hoje, ninguém tem uma resposta definitiva.

O outro lado da conta: trabalhar menos pode produzir melhor?

A argumentação contrária ao setor empresarial é que olhar apenas para o número de horas retiradas da jornada ignora possíveis ganhos de produtividade.

O governo federal defende a mudança.

Durante audiência na Câmara, o então ministro da Fazenda Dario Durigan afirmou que entre 60% e 90% das empresas de setores intensivos em mão de obra, incluindo o agronegócio, já adotariam algum modelo de cinco dias trabalhados e dois de descanso. O argumento é que a PEC atingiria principalmente trabalhadores que continuam nas jornadas mais longas.

O Ipea também chamou atenção para o perfil desses trabalhadores. Segundo dados apresentados na Câmara, quem cumpre 44 horas semanais e seis dias de trabalho está concentrado em faixas de menor renda, menor escolaridade e maior rotatividade.

Defensores da redução sustentam ainda que jornadas menores podem reduzir faltas, afastamentos e rotatividade e melhorar produtividade.

O professor José Dari Krein, da Unicamp, citou no Congresso experiências internacionais nas quais reduções de jornada foram acompanhadas por ganho de produtividade e queda do absenteísmo.

É o contraponto que precisa estar dentro da conta.

Contratar mais trabalhadores custa dinheiro.

Mas perder funcionários, treinar substitutos, conviver com afastamentos, acidentes e alta rotatividade também custa.

O desafio é saber como essa relação se comporta nas cadeias do agro brasileiro, onde trabalho industrial, atividade rural, operações familiares e sazonalidade convivem dentro do mesmo setor.

40 horas não significam fechar a granja no sábado

Talvez esse seja o maior risco de simplificação dessa discussão.

O fim da escala 6×1 não significa que supermercados, hospitais, frigoríficos, usinas ou propriedades rurais precisarão fechar dois dias por semana.

O que muda é a organização do trabalho.

Uma granja pode continuar funcionando sete dias.

O problema será montar equipes capazes de garantir essa continuidade dentro dos novos limites.

O mesmo vale para frigoríficos, armazéns e usinas.

E é exatamente por isso que as entidades do agro estão pedindo flexibilidade, transição maior e espaço para negociação coletiva.

A PEC aprovada já abriu alguma margem para regimes diferenciados e mecanismos de compensação, mas mantém como referência máxima as 40 horas e os dois dias de repouso.

O Senado poderá mexer nesse desenho.

Se alterar o mérito, porém, a proposta terá de voltar para a Câmara, o que dificulta a intenção política de concluir a votação antes das eleições.

Uma pauta trabalhista virou pauta de competitividade do agro

O fim da 6×1 nasceu como uma discussão sobre o tempo do trabalhador.

No agro, virou também uma discussão sobre custo de produção, produtividade, mecanização, escala, mão de obra, inflação de alimentos e competitividade internacional.

E nenhum dos dois lados pode ser retirado da equação.

É legítimo discutir se um trabalhador deveria ter mais tempo de descanso e convívio familiar.

Também é legítimo perguntar como uma regra nacional se encaixa numa granja que funciona todos os dias, numa ordenha que acontece duas ou três vezes por dia ou numa colheita que precisa aproveitar uma janela de poucas horas antes da chuva.

Os números existentes ainda não permitem afirmar que a mudança provocará determinado aumento nos alimentos ou uma perda específica de produção. Grande parte das projeções vem de entidades empresariais e trabalha com hipóteses sobre contratação, produtividade e funcionamento das operações.

Ao mesmo tempo, também não existe base para assumir que os ganhos de produtividade compensarão automaticamente todo o aumento do custo em todas as cadeias.

É justamente isso que o Senado terá de decidir agora.

O debate não deveria ser resumido à pergunta se o trabalhador merece ou não dois dias de descanso.

A questão para o agronegócio é outra: como garantir esse descanso sem descobrir, depois da mudança, que faltaram trabalhadores justamente onde a produção não pode parar?

E, se houver uma conta adicional, quem ficará com ela?

O produtor, a indústria ou o consumidor?

Essa é a parte da escala 6×1 que ainda precisa ser respondida antes da votação.

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