Ruanda veio ao Brasil procurando tecnologia, fornecedores e conhecimento para produzir mais e agregar valor dentro do próprio país. E uma das paradas escolhidas foi Santa Catarina.
Uma delegação oficial formada pelo embaixador de Ruanda no Brasil, Lawrence Manzi, sete autoridades governamentais e 26 empresários ruandeses percorreu o Estado nesta semana em busca de parceiros nas áreas de mecanização agrícola, agroprocessamento, pecuária, proteína animal, tecnologia, energia, indústria e infraestrutura.
A visita pode parecer pequena diante dos grandes mercados que normalmente aparecem no radar das exportações brasileiras, como China, Estados Unidos ou União Europeia.
Mas conta uma história que merece atenção.
O comércio de Santa Catarina com Ruanda ainda movimenta menos de US$ 500 mil por ano. O que os ruandeses vieram buscar, porém, não é apenas alimento.
Vieram olhar como Santa Catarina produz.
Ruanda quer tecnologia para modernizar o agro
A agricultura é uma das bases da economia ruandesa.
Em 2025, o setor respondeu por cerca de 20% do Produto Interno Bruto do país e cresceu 7%. A economia de Ruanda como um todo avançou 9,4% no período. Já no primeiro trimestre de 2026, o PIB voltou a crescer 10%, enquanto a agricultura avançou 8%.
O desafio agora é aumentar produtividade e industrialização. O plano estratégico agrícola de Ruanda para 2024 a 2029 coloca entre as prioridades justamente mecanização, inovação, resiliência climática, segurança alimentar e transformação dos sistemas agroalimentares.
É aí que Santa Catarina entra na conversa.
“Ruanda busca tecnologia e know-how para modernizar sua produção agrícola e industrial, e Santa Catarina tem exatamente isso a oferecer”, afirmou o embaixador Lawrence Manzi durante a missão.
A lista de interesses inclui máquinas agrícolas, equipamentos, processamento de alimentos, pecuária, proteína animal, energia renovável e tecnologia da informação.
Ou seja, existe espaço tanto para vender produtos quanto para vender conhecimento e soluções.
Missão passou da sala de reunião para dentro das empresas
A agenda começou no Sapiens Parque, em Florianópolis, com a apresentação do ecossistema de inovação catarinense.
Depois, houve encontro com representantes do governo estadual e de entidades empresariais. Uma rodada de negócios reuniu cerca de 40 empresários catarinenses e a delegação de Ruanda em 15 mesas de reuniões.
A missão também percorreu Jaraguá do Sul, Blumenau e Chapecó, com visitas técnicas programadas a empresas como WEG, Hering, Aurora Alimentos e BRF.
Para o agro, Chapecó é uma das etapas mais simbólicas. Ali, os visitantes encontram uma região construída sobre integração entre pequenas propriedades, cooperativismo, agroindústria, sanidade, assistência técnica e processamento de proteína animal.
Não é apenas o produto final que interessa. É o modelo.
Relação começou a ser construída meses atrás
A viagem não surgiu do nada. Em março, o próprio embaixador Lawrence Manzi já havia visitado Santa Catarina para conhecer o modelo público de desenvolvimento agropecuário.
Na ocasião, Secretaria da Agricultura, Epagri e Cidasc apresentaram o funcionamento da pesquisa, extensão rural, defesa sanitária e políticas destinadas à agricultura familiar.
O diplomata destacou naquele encontro que Ruanda precisava ampliar a produção de leite e agregar valor à produção agropecuária.
Santa Catarina, por sua vez, apresentou uma estrutura com 183.066 estabelecimentos agropecuários, predominância de propriedades menores e forte integração entre produção e agroindústria.
A aproximação continuou. Em 2026, Brasil e Ruanda realizaram em Kigali um Fórum de Cooperação Econômica e firmaram entendimentos envolvendo promoção comercial, facilitação de investimentos e missões empresariais.
Agora, os empresários vieram ver de perto o que pode virar negócio.
Comércio quase triplicou, mas ainda é pequeno
Os números deixam claro que essa relação comercial está apenas começando. Santa Catarina exportou US$ 165,73 mil para Ruanda em 2024. Em 2025, foram US$ 475,61 mil. Na prática, o valor quase triplicou em um ano. Mas a pauta ainda é extremamente concentrada.
Mais de 80% das exportações catarinenses para Ruanda são compostas por farinhas de carnes, peixes e miudezas. Papel Kraft representa outros 18,89%.
É justamente essa fotografia que a missão tenta mudar.
Máquinas para o campo, tecnologia para processamento, equipamentos, genética, conhecimento em produção animal e soluções para agroindústrias podem ampliar uma relação hoje baseada em poucos produtos.
Para Santa Catarina, a oportunidade está menos no tamanho atual do mercado e mais no que pode ser construído a partir dele.
Um mercado pequeno pode abrir uma porta maior na África?
Essa é talvez a pergunta mais interessante. Ruanda não será amanhã uma nova China para o agro catarinense. Os números não permitem esse tipo de comparação.
Mas o país vem tentando se posicionar como ambiente de negócios, inovação e serviços no continente africano. O próprio governo catarinense vê Ruanda como um possível ponto de aproximação com outros mercados africanos.
Há também uma mudança nas relações entre Brasil e Ruanda. Os dois países mantêm relações diplomáticas desde 1981, mas decidiram abrir embaixadas residentes em Brasília e Kigali a partir de 2023, num movimento de aprofundamento das relações bilaterais.
O comércio entre os dois países ainda é modesto. Em 2024, movimentou aproximadamente US$ 3,1 milhões, com forte superávit brasileiro. Entre os produtos enviados pelo Brasil naquele ano estavam máquinas agrícolas.
Isso mostra que a mecanização não apareceu por acaso na agenda catarinense. Já existe demanda.
Do frango à máquina que ajuda a produzi-lo
Para o agro catarinense, existe uma mudança interessante de perspectiva. Santa Catarina construiu sua presença internacional principalmente vendendo alimentos. Frango, carne suína, produtos florestais, grãos e diferentes produtos agroindustriais.
A aproximação com Ruanda coloca outra possibilidade sobre a mesa: exportar também o sistema que existe por trás dessa produção. Como máquinas, tecnologia, genética, equipamentos para processamento, sistemas de gestão, defesa sanitária, assistência técnica, conhecimento em cooperativismo e integração produtiva.
É uma exportação mais difícil de medir em toneladas, mas que pode gerar contratos, investimentos e relações comerciais de longo prazo.
Carta assinada. Agora precisa virar negócio
Durante a missão, a Fecomércio-SC assinou uma carta de intenções com a Embaixada de Ruanda para ampliar a cooperação em comércio, turismo e formação profissional. É um passo. Mas ainda é só um passo.
Visita oficial não significa contrato assinado. Rodada de negócios não significa exportação embarcada. Carta de intenções não significa investimento confirmado. O teste começa depois que a comitiva volta para casa.
Será preciso acompanhar quantas conversas viram contratos, quais empresas catarinenses conseguem entrar naquele mercado e se a aproximação com Ruanda realmente abre outras portas no continente africano.
Hoje, os números comerciais ainda são pequenos. Mas a pergunta que fica não é apenas quanto Santa Catarina já vende para Ruanda.
É quanto poderá vender se, além dos alimentos que produz, começar a exportar também a tecnologia que ajudou o Estado a se tornar uma potência agroindustrial.
Ruanda veio a Santa Catarina atrás disso.
Agora falta descobrir quanto dessa visita vai sair da diplomacia e entrar, de fato, na balança comercial.







