sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Agro Agora
Dólar PTAX · BRBrasilR$ 5,1859 +0,43%Soja · SCChapecóR$ 138,00 +1,32%Milho · GORio VerdeR$ 53,40 0,00%Milho · MTCáceresR$ 52,80 0,00%Milho · MSCampo GrandeR$ 73,80 0,00%Milho · SPAvaréR$ 61,80 0,00%

Proteína Animal

Tecnologia resolve a crise da suinocultura? Chapecó mostra os limites

IA, nutrição e manejo ajudam a reduzir perdas e melhorar produtividade, mas preço abaixo do custo continua limitando o resultado do produtor.

Simpósio em Chapecó debate tecnologia e eficiência enquanto suinocultura enfrenta excesso de oferta, preços baixos e risco de alta nos custos.
Divulgação

A suinocultura brasileira nunca teve tanta tecnologia disponível para produzir melhor.

Automação, genética, nutrição de precisão, diagnóstico, equipamentos e ferramentas de gestão avançam dentro das granjas.

Mesmo assim, nenhuma dessas soluções consegue resolver sozinha o problema que hoje mais preocupa o produtor: o suíno sendo vendido abaixo do custo de produção.

Essa contradição ficou evidente em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, durante o 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura.

Realizado entre 11 e 13 de agosto, o encontro reuniu especialistas, empresas, produtores e profissionais da cadeia justamente num momento em que o mercado enfrenta excesso de oferta, pressão sobre os preços e deterioração das margens.

Chapecó voltou ao centro da suinocultura

Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas, o Nucleovet, o simpósio colocou na pauta alguns dos principais desafios técnicos da produção.

A programação abordou sanidade, biosseguridade, nutrição, longevidade das matrizes, ambiência, sucessão familiar, escassez de mão de obra, gestão e tecnologia.

Paralelamente, a 17ª Brasil Sul Pig Fair reuniu mais de 50 empresas com soluções voltadas a automação, genética, diagnóstico, nutrição de precisão, equipamentos e manejo.

O local do debate tem peso.

Chapecó está no coração de uma das regiões mais importantes da produção brasileira de suínos e dentro de Santa Catarina, maior produtor e exportador nacional da proteína.

É também no Estado que a pressão atual do mercado se transforma rapidamente em preocupação econômica para cooperativas, agroindústrias e milhares de propriedades rurais.

Eficiência ajuda, mas não corrige preço

A modernização da granja tem impacto direto no resultado. Tecnologia pode reduzir desperdícios, melhorar conversão alimentar, diminuir mortalidade, facilitar o monitoramento dos animais e permitir decisões mais rápidas.

Tudo isso reduz custos e aumenta produtividade. Mas existe um limite. Se o preço recebido pelo suíno permanece abaixo do custo, produzir com mais eficiência apenas reduz o tamanho da perda. Não resolve o desequilíbrio de mercado.

Hoje, o principal problema está no excesso de oferta. A produção cresceu mais rapidamente do que a capacidade de absorção do mercado. Com mais carne disponível, os preços recuaram. É uma crise diferente daquela provocada por milho e farelo de soja caros.

Desta vez, o problema começa na quantidade produzida e na dificuldade de encontrar demanda suficiente para sustentar as cotações.

Menos abates podem aliviar pressão

O Agro Mensal de agosto, da Consultoria Agro do Itaú BBA, identificou sinais preliminares de redução no ritmo dos abates em julho. Se esse movimento continuar, a menor produção pode ajudar gradualmente a reduzir a quantidade de carne disponível e aliviar a pressão sobre os preços.

Mas não existe garantia. O resultado dependerá também do desempenho das exportações e da capacidade de reação do consumo doméstico. Se os embarques perderem força, parte do ajuste pode desaparecer com mais carne permanecendo no mercado brasileiro.

A recuperação, portanto, depende de várias peças funcionando ao mesmo tempo. Produção mais equilibrada, vendas externas firmes e consumo interno capaz de acompanhar a oferta.

Próximo risco pode estar no milho

Hoje, os insumos não são o principal vilão da suinocultura. Mas isso pode mudar. Existe preocupação com os possíveis impactos do El Niño sobre a safra 2026/27. Se o fenômeno afetar a produção de milho, a consequência poderá aparecer no custo da ração em 2027.

E milho e farelo de soja têm participação decisiva na estrutura de custos das granjas. Nesse cenário, a suinocultura poderia enfrentar um problema ainda mais complexo: continuar pressionada pelo preço recebido e, ao mesmo tempo, voltar a conviver com alimentação mais cara.

Por isso, manter eficiência dentro da propriedade continua sendo fundamental, mesmo que ela não seja suficiente para resolver a crise atual.

Tecnologia é parte da resposta

O debate de Chapecó mostra que a suinocultura brasileira continua investindo e tentando se preparar para um ambiente mais competitivo.

Produzir melhor será cada vez mais necessário. A escassez de mão de obra aumenta a demanda por automação. A pressão por custos exige precisão. Sanidade e biosseguridade continuam fundamentais para preservar mercados.

Gestão ganha espaço porque decisões erradas ficam ainda mais caras quando a margem desaparece. Mas a discussão econômica precisa caminhar junto. Uma granja altamente tecnológica não deixa de ter problema se o preço de venda permanece abaixo do custo.

O setor pode melhorar produtividade, reduzir perdas e usar dados para tomar decisões melhores. Ainda assim, a rentabilidade depende de uma conta que vai muito além da porteira.

Chapecó mostrou como produzir. O mercado precisa responder quanto vai pagar

A realização do Simpósio Brasil Sul de Suinocultura em meio à crise de margens ajuda a resumir o momento da cadeia. De um lado, uma atividade cada vez mais sofisticada, tecnológica e eficiente. Do outro, um mercado que precisa encontrar equilíbrio entre produção e demanda.

Não existe contradição em investir em tecnologia durante uma crise. Pelo contrário. É justamente quando a margem aperta que eficiência se torna ainda mais necessária. O risco está em imaginar que a tecnologia resolverá sozinha um problema provocado pelo mercado.

Ela pode ajudar a produzir melhor, pode reduzir perdas, pode melhorar a gestão. Mas não cria consumidor, não abre mercado externo sozinha e não determina o preço recebido pelo produtor.

Chapecó discutiu durante três dias como fazer uma suinocultura mais eficiente. Agora, a conta que precisa fechar é outra.

O setor já sabe produzir cada vez melhor. O desafio é fazer o mercado voltar a remunerar quem produz.

Afinidade de tema

Continue lendo

Atualização contínua

Últimas notícias