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Crédito

Banco do Brasil abre renegociação para 113 mil clientes rurais

Banco do Brasil inicia renegociação de dívidas rurais pela MP 1.376/2026. Até 113 mil clientes e R$ 100 bilhões podem ser enquadrados.

Banco do Brasil abre renegociação para 113 mil clientes rurais
Divulgação

Instituição identificou até R$ 100 bilhões em operações potencialmente enquadráveis na MP 1.376/2026; Sul concentra o maior número de clientes e soja lidera o volume por atividade

Depois de semanas de expectativa e da regulamentação das novas regras para o endividamento rural, o Banco do Brasil iniciou na quarta-feira, 26 de agosto, a contratação das operações previstas na Medida Provisória 1.376/2026. A medida criou linhas especiais para produtores rurais e cooperativas que acumulam dívidas após sucessivas perdas climáticas ou de mercado.

A carteira do banco reúne cerca de 113 mil clientes com operações potencialmente elegíveis, somando até R$ 100 bilhões. O número, porém, não significa que todo esse montante será renegociado. O enquadramento depende do cumprimento dos critérios previstos na medida, da documentação apresentada e da análise de crédito da instituição.

Do volume identificado pelo Banco do Brasil, 36% correspondem a operações inadimplentes. Os demais contratos estão em dia, mas já passaram por prorrogações ou renegociações, inclusive em programas anteriores.

A abertura das contratações transforma uma discussão que vinha se arrastando desde julho em uma possibilidade concreta para parte dos produtores endividados. Agora, entretanto, começa outra etapa: comprovar que a operação atende às regras e conseguir efetivamente fechar a renegociação.

Quem pode acessar a renegociação de dívidas rurais

A MP 1.376 foi publicada em 15 de julho e permite a criação de linhas destinadas à composição de dívidas rurais de produtores e cooperativas afetados por eventos climáticos adversos e outras situações previstas na legislação.

Entre os beneficiários estão agricultores familiares enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf, produtores atendidos pelo Pronamp e demais produtores rurais. A medida alcança determinadas operações de crédito rural de custeio, comercialização e industrialização, além de Cédulas de Produto Rural, conforme as condições estabelecidas para cada modalidade.

Um dos pontos centrais é a comprovação das perdas. A legislação considera produtores atingidos em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, dentro das condições estabelecidas para acesso às linhas.

Por isso, estar entre os 113 mil clientes mapeados pelo Banco do Brasil não representa aprovação automática.

Juros variam conforme o perfil e a situação do produtor

As condições da renegociação variam conforme o enquadramento do produtor e a modalidade da operação.

A MP estabelece taxas que podem ficar entre 5% e 12% ao ano, com condições mais favoráveis para agricultores familiares e produtores enquadrados nas situações mais severas previstas pela legislação.

Em determinadas linhas, o prazo para pagamento pode chegar a dez anos, com a primeira parcela de amortização do principal prevista para dois anos depois da contratação. Durante o período de carência, permanecem os pagamentos dos juros.

Os limites também mudam conforme o beneficiário e a linha acessada. A legislação prevê tetos diferenciados para Pronaf, Pronamp e demais produtores.

O prazo previsto na medida para contratação das novas operações vai até 12 de novembro de 2026.

Agricultura empresarial concentra maior parcela

O levantamento do Banco do Brasil mostra que a maior parte da carteira potencialmente enquadrável está na agricultura empresarial.

Do total identificado, 65,2% correspondem à agricultura empresarial, enquanto 30,5% estão relacionados a médios produtores e 4,3% ao Pronaf.

A soja concentra a maior parcela do volume potencial, com 38,8%, seguida pela pecuária, com 35,6%, e pelo milho, com 8,6%. Outras culturas representam os 17% restantes.

Os dados mostram que a dificuldade financeira não está restrita a um único segmento. Ela alcança tanto atividades agrícolas quanto pecuárias e diferentes perfis de produtores.

Sul tem mais clientes; Centro-Oeste lidera em valor

Regionalmente, o Sul concentra o maior número de clientes potencialmente elegíveis. São aproximadamente 40,2 mil produtores, com R$ 22,9 bilhões em operações identificadas pelo Banco do Brasil.

O Centro-Oeste aparece com menos clientes, 18,4 mil, mas reúne o maior volume financeiro, R$ 33,9 bilhões.

No Sudeste, são 25,9 mil clientes e R$ 23,6 bilhões. O Nordeste reúne 17,5 mil produtores e R$ 10,4 bilhões, enquanto o Norte soma 11,3 mil clientes e R$ 9,3 bilhões.

A concentração no Sul reforça a dimensão do impacto acumulado por sucessivas safras afetadas por estiagens, excesso de chuva e outros eventos adversos nos últimos anos.

Renegociação não significa dinheiro novo na conta

Um dos pontos mais importantes para o produtor é entender o funcionamento da medida.

A renegociação não representa, necessariamente, a liberação automática de recursos novos para custear a próxima safra. A linha cria uma nova operação destinada à liquidação ou amortização de dívidas já existentes, reorganizando os pagamentos dentro das condições previstas.

Na prática, o objetivo é aliviar o comprometimento financeiro acumulado e permitir que produtores com capacidade produtiva, mas pressionados por dívidas anteriores, consigam reorganizar sua situação.

O Banco do Brasil também tem interesse na recuperação da carteira. A inadimplência acima de 90 dias no agronegócio chegou a 6,27% no segundo trimestre de 2026, contra 3,16% no mesmo período do ano anterior.

A deterioração do crédito rural tem pressionado os resultados do banco e ampliado as provisões para perdas.

Agora começa a etapa mais importante para o produtor

Com as contratações abertas, o desafio deixa de estar apenas na publicação das regras e passa para a execução.

O produtor interessado precisa procurar sua instituição financeira, verificar se suas operações podem ser enquadradas, organizar a documentação necessária e comprovar as perdas que justificam a renegociação.

Ainda haverá análise de risco e aplicação das políticas internas de crédito de cada instituição.

Isso significa que os R$ 100 bilhões identificados pelo Banco do Brasil representam um universo potencial, e não um volume já aprovado.

Para milhares de produtores que acumularam dívidas após safras prejudicadas, contudo, a abertura das operações representa uma etapa aguardada há meses.

A questão agora é saber quantos dos 113 mil clientes identificados conseguirão efetivamente acessar a linha em tempo de reorganizar as contas e preservar a capacidade de continuar produzindo.

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