Cenário internacional para os principais produtos do Brasil
Nos próximos dez anos, o Brasil deverá ampliar sua presença como fornecedor de alimentos, fibras, energia renovável e produtos florestais. A expansão, porém, será diferente daquela que marcou as últimas duas décadas. O crescimento continuará, mas num ambiente de demanda mundial mais lenta, preços reais pressionados pela produtividade, maior instabilidade climática e exigências muito mais rigorosas de origem, sanidade, carbono e desmatamento.
A tese central deste artigo é direta: o mercado internacional continuará oferecendo espaço relevante ao Brasil, especialmente em soja, milho, carnes, açúcar, algodão, café, celulose e bioenergia. Entretanto, a competitividade deixará de depender apenas de custo e escala. Até 2035, vender exigirá comprovar como, onde e em quais condições ambientais e sanitárias cada produto foi produzido. Nesse cenário, rastreabilidade, logística, defesa agropecuária e inteligência comercial passam a ser tão estratégicas quanto produtividade.
O ponto de partida do Brasil
Em 2025, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram o recorde de US$ 169,2 bilhões, equivalentes a 48,5% de todas as exportações do país. O superávit setorial foi de US$ 149,1 bilhões. China, União Europeia e Estados Unidos absorveram, respectivamente, 32,7%, 14,9% e 6,7% das vendas externas do agro. Apenas cinco grupos, complexo soja, carnes, produtos florestais, café e complexo sucroalcooleiro, responderam por 78,3% do valor exportado.
Esses dados mostram simultaneamente força e vulnerabilidade. O Brasil dispõe de escala, diversidade de climas, tecnologia tropical, duas ou até três safras em algumas regiões e cadeias empresariais capazes de atender grandes mercados. Ao mesmo tempo, existe concentração em poucos produtos e elevada dependência da China. A diversificação deve ser entendida em três dimensões: mais países compradores, maior variedade de produtos e maior proporção de itens processados e diferenciados.
A demanda mundial mudará de endereço
A OCDE e a FAO projetam aumento de 12,5% no valor do consumo mundial de produtos agrícolas e pesqueiros entre 2026 e 2035. Quase todo o avanço virá de países de renda média e baixa. Índia e Sudeste Asiático deverão responder por 39% do crescimento global do consumo, enquanto a contribuição da China cairá para 13%, em razão do amadurecimento do consumo per capita e da redução populacional.
A mudança não significa perda da importância chinesa. A China continuará sendo o maior comprador individual de vários produtos brasileiros, mas não repetirá automaticamente o ritmo de expansão das duas últimas décadas. Para o Brasil, a consequência estratégica é clara: preservar o mercado chinês e, paralelamente, ganhar participação na Índia, Indonésia, Vietnã, Filipinas, Bangladesh, Oriente Médio e África.
A África Subsaariana deverá ampliar em 55% suas importações líquidas de alimentos básicos até 2035, e o Norte da África e o Oriente Médio, em 34%. O crescimento populacional, a urbanização e as limitações de terra e água tornam essas regiões estruturalmente dependentes do comércio. Para o Brasil, elas oferecem perspectivas para milho, açúcar, carne de frango, carne bovina, feijões, lácteos específicos e alimentos processados, desde que haja financiamento, logística marítima competitiva, certificação halal e presença comercial permanente.
Projeções para os principais produtos
Soja e milho
A soja seguirá como principal produto exportador. O MAPA projeta 206,5 milhões de toneladas produzidas e 137,2 milhões exportadas em 2034/35. A OCDE e a FAO, com metodologia diferente, estimam crescimento mais moderado da produção brasileira, de 0,7% ao ano, mas confirmam a liderança nacional. O desafio será reduzir a dependência da exportação do grão e aumentar o processamento em farelo, óleo, biodiesel, proteínas e ingredientes de maior valor.
O milho deve alcançar 155,6 milhões de toneladas, com exportações de 43,8 milhões. A segunda safra continuará sustentando a competitividade, mas enfrentará janelas climáticas mais estreitas. A expansão do etanol de milho cria mercado doméstico, reduz a exposição às cotações externas e gera coprodutos para alimentação animal. Ao mesmo tempo, disputa parte do excedente que iria aos portos. O resultado será uma cadeia mais industrializada, porém mais sensível a decisões de mistura de biocombustíveis e à infraestrutura de armazenagem.
Carnes
As proteínas animais estão entre as maiores oportunidades do Brasil. O crescimento da renda em países emergentes favorecerá principalmente o frango, por seu preço, ciclo curto, aceitação cultural e menor intensidade de emissões por quilo em comparação à carne bovina.
O MAPA estima que as exportações brasileiras de frango possam atingir 6,89 milhões de toneladas em 2035; as de carne bovina, 4,97 milhões; e as de carne suína, 1,54 milhão.
A competitividade dependerá de sanidade e acesso contínuo. Influenza aviária, peste suína africana, febre aftosa e outras enfermidades podem interromper mercados de um dia para o outro. Vigilância epidemiológica, biossegurança, regionalização sanitária, rastreabilidade e acordos de equivalência serão investimentos de mercado, não apenas obrigações públicas. Na carne bovina, a prova de origem sem desmatamento tende a definir o acesso aos clientes mais exigentes.
Açúcar, café e suco de laranja
No açúcar, o Brasil deverá permanecer dominante. A OCDE e a FAO estimam participação brasileira de 55% nas exportações mundiais em 2035; o MAPA projeta 43,1 milhões de toneladas exportadas. A flexibilidade das usinas para alternar açúcar e etanol continuará sendo vantagem e fonte de volatilidade. Ásia e África concentrarão a demanda adicional, enquanto políticas de saúde podem limitar o consumo per capita em mercados maduros.
O café combina liderança com risco climático. O MAPA projeta produção de 65 milhões e exportação de 37 milhões de sacas em 2035, considerando a bianualidade. Temperaturas elevadas, secas e eventos extremos pressionarão o arábica, enquanto o robusta ou conilon ganha importância por sua maior tolerância ao calor. O futuro mais promissor não estará apenas no volume de café verde, mas em cafés especiais, solúveis, torrados, com indicação geográfica e comprovação de baixa pegada ambiental.
Na citricultura, a projeção é mais cautelosa: queda de 3% na produção de laranja e alta de 7,2% nas exportações de suco até 2035. Greening, clima e mudanças nos hábitos de consumo limitam a expansão. A liderança brasileira continuará expressiva, mas dependerá de pesquisa fitossanitária, renovação de pomares, novas regiões produtoras e produtos com maior valor agregado.
Algodão e produtos florestais
O algodão é uma das cadeias com melhor perspectiva relativa. O MAPA projeta exportações de 4,02 milhões de toneladas, e a OCDE e a FAO chegam a 4,6 milhões em 2035. Pelo cenário internacional mais recente, o Brasil poderá responder por 39% das exportações mundiais, à frente dos Estados Unidos. Qualidade da fibra, certificação socioambiental, logística e relacionamento com as indústrias têxteis asiáticas serão decisivos diante da concorrência das fibras sintéticas e recicladas.
A celulose deverá crescer 30% nas exportações, chegando a aproximadamente 25,1 milhões de toneladas. O Brasil possui vantagem em produtividade florestal, escala e custo. A oportunidade futura inclui celulose, papel, embalagens renováveis, biomateriais, lignina, bioquímicos e energia a partir de resíduos. O desafio será comprovar origem, conservar biodiversidade e ampliar a industrialização no país.
Bioenergia e novas cadeias
A bioenergia aproximará ainda mais agricultura, indústria e política climática. A OCDE e a FAO projetam crescimento de 2,9% ao ano na produção e no consumo brasileiro de etanol até 2035. O etanol de milho, que produziu cerca de 8,2 bilhões de litros em 2025 na base internacional, poderá chegar a 14,5 bilhões em 2035. A projeção nacional do MAPA é mais elevada, cerca de 21,7 bilhões de litros, mostrando que o ritmo efetivo dependerá de investimento, preço dos grãos, política de mistura e demanda por combustíveis.
Além do etanol e do biodiesel, haverá espaço para biometano, combustível sustentável de aviação, hidrogênio de baixo carbono, biofertilizantes e aproveitamento de resíduos. Essas cadeias podem transformar o agro de exportador de matéria-prima em fornecedor de energia e soluções de descarbonização. Contudo, os padrões internacionais tenderão a avaliar emissões em todo o ciclo de vida, inclusive mudança do uso da terra.
A nova fronteira comercial é a comprovação
A União Europeia ilustra a mudança regulatória. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento abrange soja, bovinos, café, cacau, borracha, madeira e óleo de palma, além de derivados. A aplicação das principais obrigações está prevista para 30 de dezembro de 2026 para operadores grandes e médios e, em regra, 30 de junho de 2027 para pequenos e microoperadores. A exigência inclui diligência devida, geolocalização e demonstração de que o produto não está associado a desmatamento após a data de corte da norma.
Mesmo quando uma legislação estrangeira alcançar parcela pequena das vendas, seu padrão poderá se difundir por bancos, seguradoras, grandes redes varejistas e indústrias globais. Por isso, a rastreabilidade deve ser tratada como passaporte comercial. O custo existe, especialmente para pequenos e médios produtores, mas a ausência de informação verificável poderá excluir fornecedores ou empurrá-los para mercados de menor remuneração.
O Brasil possui ativos importantes: Cadastro Ambiental Rural, sistemas de inspeção, georreferenciamento, monitoramento por satélite, plataformas sanitárias e experiência em certificação. Falta integrar bases públicas e privadas, definir governança de dados, garantir proteção e qualidade da informação e oferecer assistência técnica para que agricultores familiares e cooperativas não sejam deixados fora dos mercados mais exigentes.
Os cinco riscos centrais até 2035
• Clima: secas, ondas de calor, enchentes e mudanças nas janelas de plantio podem reduzir produtividade e elevar a volatilidade.
• Geopolítica: conflitos, sanções, tarifas e interrupções marítimas afetam fertilizantes, energia, fretes e acesso a mercados.
• Concentração: a dependência de poucos produtos e compradores aumenta a exposição do país a decisões comerciais externas.
• Sanidade: surtos animais e vegetais podem suspender exportações e exigir anos para recuperar a confiança.
• Competitividade interna: juros, seguro insuficiente, armazenagem, portos, ferrovias, conectividade e assistência técnica podem limitar o potencial projetado.
Uma agenda brasileira para transformar volume em valor
O cenário recomenda uma política internacional do agro organizada em sete prioridades:
• Diversificar destinos, com presença comercial permanente na Índia, no Sudeste Asiático, na África e no Oriente Médio, sem abandonar China, União Europeia e Estados Unidos.
• Agregar valor no Brasil, ampliando farelos, óleos, carnes processadas, cafés especiais e solúveis, alimentos prontos, biomateriais e bioenergia.
• Construir rastreabilidade interoperável e acessível, capaz de conectar propriedade, produto, conformidade ambiental, sanidade e logística.
• Acelerar adaptação climática por meio de zoneamento agroclimático dinâmico, irrigação eficiente, manejo do solo, genética tolerante, seguro e assistência técnica digital.
• Reforçar a defesa agropecuária, com vigilância, laboratórios, planos de contingência e acordos internacionais de regionalização sanitária.
• Reduzir o custo logístico com armazenagem, ferrovias, hidrovias, portos e corredores resilientes a eventos extremos.
• Incluir cooperativas e agricultura familiar em certificação, qualidade, indicação geográfica e exportação, evitando que a nova economia de dados aprofunde desigualdades.
Conclusão
Até 2035, o Brasil continuará sendo um dos poucos países capazes de ampliar simultaneamente a oferta de alimentos, fibras, energia renovável e produtos florestais. As projeções apontam crescimento expressivo da soja, do milho, das carnes, do algodão, do açúcar e da celulose. Mas o mercado que comprará esses produtos será mais fragmentado, regulado e sensível a riscos ambientais e sanitários.
A oportunidade brasileira não se resume a produzir mais. Ela está em produzir com maior estabilidade climática, transformar mais dentro do país, acessar novos consumidores e demonstrar, com dados confiáveis, a origem e a qualidade do que se vende. A próxima década poderá consolidar o Brasil como potência agroalimentar e bioenergética. Para isso, produtividade terá de caminhar junto com rastreabilidade, sustentabilidade, diplomacia comercial e agregação de valor.







