segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Agro Agora
Dólar PTAX · BRBrasilR$ 5,1859 +0,43%Soja · SCChapecóR$ 138,00 +1,32%Milho · GORio VerdeR$ 53,40 0,00%Milho · MTCáceresR$ 52,80 0,00%Milho · MSCampo GrandeR$ 73,80 0,00%Milho · SPAvaréR$ 61,80 0,00%

Coluna · Coluna Política e Agro

Crise no STF pode agravar um problema que o agro já não consegue ignorar: a insegurança jurídica

Instabilidade institucional adiciona risco a um agro que já enfrenta crédito mais restrito, endividamento e avanço das recuperações judiciais.

Crise no STF pode agravar um problema que o agro já não consegue ignorar: a insegurança jurídica
Divulgação

O produtor rural está acostumado a administrar riscos que não controla. Planta sem saber exatamente quanto vai chover, qual será o preço da commodity na colheita, quanto o dólar vai valer, se o fertilizante vai encarecer ou se uma barreira sanitária fechará um mercado importante. Faz parte da atividade. O problema começa quando, além de administrar clima, mercado e custos, o setor precisa colocar na conta a imprevisibilidade das próprias instituições brasileiras.

É por isso que a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal merece atenção do agronegócio para além da disputa política em Brasília. Não porque uma crise no STF seja responsável pelos problemas financeiros do campo, nem porque seja possível atribuir a ela, isoladamente, a redução do crédito ou o avanço das recuperações judiciais. Mas porque ela acrescenta incerteza justamente quando o setor menos precisa de uma nova camada de risco.

O agro chega a esse momento financeiramente pressionado. Segundo dados apresentados pela CNN, as emissões mensais de Certificados de Recebíveis do Agronegócio, os CRAs, caíram de R$ 5,3 bilhões no segundo semestre de 2025 para R$ 1,2 bilhão no primeiro semestre de 2026. É uma redução de 77% em uma das fontes privadas que ganharam importância no financiamento do setor.

Ao mesmo tempo, as recuperações judiciais avançaram. O número de empresas do agro nessa situação passou de 313, em março de 2023, para 1.336 em agosto deste ano. Em 12 meses, o crescimento foi de 66%, enquanto no conjunto da economia o avanço foi de 21%.

Esses números não foram provocados pelo STF. É importante deixar isso claro. O campo já vinha enfrentando juros elevados, margens menores em diferentes atividades, problemas climáticos acumulados, endividamento e dificuldade de acesso a crédito. A questão é outra: o que acontece quando um setor que já está fragilizado financeiramente encontra também um ambiente institucional mais incerto?

Crédito não olha apenas para a capacidade de pagar

Quando falamos de crédito rural, normalmente a discussão fica concentrada na taxa de juros. Mas quem coloca dinheiro no agro também calcula a qualidade das garantias, a possibilidade de execução dessas garantias, o comportamento das recuperações judiciais, a validade dos contratos e quanto tempo uma disputa pode permanecer no Judiciário.

Isso vale para banco, fundo, investidor, CRA, CPR ou qualquer outra estrutura privada de financiamento.

Quanto maior a dúvida sobre a capacidade de recuperar um crédito, maior tende a ser a cautela de quem empresta. E cautela, no mercado financeiro, normalmente aparece de três formas: dinheiro mais caro, exigência maior de garantias ou simplesmente menos dinheiro disponível.

É por isso que segurança jurídica não é uma discussão abstrata para o agronegócio. Ela pode chegar à fazenda na forma do custo do capital.

E isso ganha importância justamente quando estamos pedindo que o mercado privado assuma uma parcela cada vez maior do financiamento da produção. Se queremos mais Fiagros, CRAs, CPRs e investidores financiando o campo, precisamos entender que esse capital exige previsibilidade.

O Supremo está mais perto da fazenda do que parece

Há ainda outro aspecto que muitas vezes passa despercebido. Algumas das discussões mais importantes para o futuro do agro terminam, cedo ou tarde, no Supremo.

Questões relacionadas à propriedade, terras indígenas, meio ambiente, relações trabalhistas, tributação, contratos, garantias e recuperação judicial podem chegar à Corte. Em diferentes momentos, decisões tomadas em Brasília alteram diretamente a interpretação de regras que afetam patrimônio, produção e investimento no campo.

Por isso, independentemente da posição política de cada produtor sobre os integrantes do STF ou sobre o governo, existe um interesse econômico do agronegócio em instituições previsíveis.

O produtor pode discordar de uma decisão judicial. Entidades podem recorrer. O Congresso pode alterar uma lei dentro de suas competências. Faz parte do funcionamento institucional. O problema para quem investe é não conseguir prever minimamente quais regras estarão valendo amanhã.

Uma lavoura dura meses. Uma granja ou uma agroindústria exige anos de investimento. Uma ferrovia, um terminal portuário ou uma fábrica de fertilizantes pode levar uma década para se pagar. Terra é um patrimônio pensado por gerações.

O capital que financia tudo isso não trabalha bem com mudanças constantes de regra.

O risco é o investimento entrar em espera

Esse talvez seja um dos efeitos menos visíveis da instabilidade.

Nem todo impacto econômico aparece imediatamente numa planilha. Às vezes, ele aparece na decisão que deixou de ser tomada.

Uma empresa posterga a ampliação de uma unidade. Um investidor espera antes de entrar em um fundo. Um produtor adia uma expansão. Uma instituição financeira aumenta as garantias exigidas. Um projeto fica alguns meses parado até que o cenário fique mais claro.

Separadamente, essas decisões parecem pequenas. Somadas, reduzem investimento.

E há uma conexão interessante com outra discussão que temos acompanhado no Política e Agro. Recentemente mostramos investidores brasileiros olhando para terras e projetos no Uruguai, atraídos não apenas por preço ou rentabilidade, mas também por estabilidade e previsibilidade.

Não significa que o capital esteja abandonando o Brasil. O nosso país continua oferecendo uma escala produtiva e oportunidades que o Uruguai não consegue reproduzir. Mas a comparação serve de alerta: capital de longo prazo não escolhe apenas onde existe maior potencial de produção. Ele também compara onde consegue enxergar as regras dos próximos anos.

Até o câmbio produz ganhadores e perdedores

A instabilidade institucional também pode chegar ao campo pelo câmbio, embora essa relação nunca seja linear e dependa de muitos outros fatores.

Quando a percepção de risco aumenta, o real pode sofrer pressão. Para parte do agro exportador, um dólar mais alto aumenta a receita convertida em reais. Mas o mesmo movimento encarece fertilizantes, defensivos, máquinas, peças e outros componentes dolarizados.

Por isso, nem mesmo o velho argumento de que dólar alto é necessariamente bom para o agro se sustenta para todas as cadeias.

O setor é complexo demais para respostas simples.

Segurança jurídica também é política agrícola

Talvez seja esse o ponto que Brasília precise compreender melhor.

Normalmente tratamos política agrícola como Plano Safra, crédito rural, seguro, renegociação de dívidas, preço mínimo e orçamento. Tudo isso é fundamental. Mas existe uma política agrícola que não aparece nas linhas tradicionais do orçamento: a qualidade das instituições.

Um país que quer atrair capital para financiar produção, armazenagem, infraestrutura, agroindústria e inovação precisa oferecer regras minimamente previsíveis.

Não se trata de defender que o Judiciário decida sempre a favor do produtor, muito menos de transformar uma discussão institucional em alinhamento político. Segurança jurídica não significa vitória permanente de um lado. Significa saber quais são as regras, como elas serão interpretadas e quais caminhos existem quando houver conflito.

O agro brasileiro já administra clima, preços, câmbio, sanidade, logística e geopolítica. Neste momento, administra também uma crise de crédito e um processo preocupante de endividamento.

Adicionar insegurança institucional a essa lista tem custo.

E talvez seja justamente por isso que a discussão sobre o STF interessa tanto ao campo. Não pelo barulho político que produz em Brasília, mas pelo silêncio de uma consequência econômica muito mais difícil de medir: o investimento que não veio, o crédito que ficou mais caro e a decisão que foi adiada porque ninguém conseguiu enxergar com segurança quais seriam as regras do jogo alguns anos à frente.

Atualização contínua

Outras colunas