Oito entidades definiram uma agenda comum para os futuros deputados estaduais e federais, com foco em infraestrutura, competitividade, sustentabilidade e desburocratização
O agronegócio catarinense decidiu chegar às eleições de 2026 com uma pauta unificada e uma cobrança objetiva aos candidatos que disputarão vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Oito entidades representativas do setor consolidaram uma agenda de prioridades para o ciclo legislativo de 2027 a 2031, reunindo demandas consideradas estratégicas para manter a competitividade do agro no Estado.
O documento está organizado em quatro grandes eixos: infraestrutura, manutenção da capacidade competitiva, sustentabilidade e meio ambiente e desburocratização. A proposta é transformar problemas recorrentes de produtores, cooperativas e agroindústrias em uma agenda política comum, capaz de orientar o debate eleitoral e, depois, servir como referência para a atuação dos parlamentares eleitos.
Participam da articulação a Associação Catarinense de Avicultura (ACAV), a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC), a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado de Santa Catarina (FECOAGRO), a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santa Catarina (FETAESC), a Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC), o Sicoob, o Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Santa Catarina (SINDICARNE) e o Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados de Santa Catarina (SINDILEITE).
Agro quer transformar problemas recorrentes em agenda política
Segundo o diretor-superintendente da OCESC, Ricardo Miotto, a construção da pauta partiu de dificuldades compartilhadas por diferentes elos da cadeia agropecuária catarinense.
“Construímos uma pauta comum a partir de problemas que afetam diretamente quem produz, industrializa e comercializa em Santa Catarina. São entidades com diferentes áreas de atuação, mas que compartilham desafios estruturais”, afirmou.
A agenda reúne temas que dependem tanto de decisões do governo estadual quanto do governo federal. Por isso, será direcionada aos candidatos a deputado estadual e federal, com a intenção de oferecer subsídios para o debate durante a campanha e estabelecer compromissos que possam ser acompanhados ao longo da próxima legislatura.
A articulação também reforça uma estratégia já adotada por entidades do setor: reduzir a dispersão de reivindicações e apresentar prioridades comuns antes da eleição, quando candidatos e partidos começam a definir compromissos regionais e setoriais.
Infraestrutura continua entre os principais gargalos
O primeiro eixo da agenda é a infraestrutura, um tema diretamente ligado ao perfil produtivo de Santa Catarina.
O Estado possui cadeias intensivas em movimentação de insumos, animais e alimentos processados, especialmente nos setores de suínos, aves, leite e grãos. A competitividade dessas atividades depende de rodovias, portos, energia, armazenagem e estruturas capazes de acompanhar o crescimento da produção.
Esse peso também aparece na movimentação logística. Em 2025, produtos ligados ao agronegócio representaram quase 80% do volume movimentado pelos portos catarinenses, segundo os dados divulgados pelas entidades.
Na prática, gargalos logísticos não afetam apenas a saída das exportações. Eles interferem no custo de chegada de milho, farelo, fertilizantes e outros insumos, além do transporte diário entre propriedades, cooperativas e agroindústrias.
Competitividade ganha peso diante do aumento dos custos
Outro eixo central é a manutenção da capacidade competitiva.
Santa Catarina construiu parte relevante de sua força agropecuária sobre cadeias altamente integradas, produção familiar, cooperativismo e agroindústrias exportadoras. Esse modelo, porém, convive com pressão crescente de custos, necessidade de investimento tecnológico, exigências sanitárias e ambientais e concorrência no mercado internacional.
É nesse contexto que a agenda pretende colocar diante dos candidatos temas capazes de afetar diretamente a capacidade do produtor e da indústria de continuar investindo.
A dimensão econômica ajuda a explicar a pressão política. Em 2025, o agronegócio respondeu por 66,1% das exportações catarinenses, movimentando US$ 7,94 bilhões.
No mesmo período, o Valor da Produção Agropecuária de Santa Catarina atingiu o recorde de R$ 74,9 bilhões, com crescimento real de 12,1% em relação ao ano anterior.
Carnes têm peso decisivo nas exportações catarinenses
A pauta também nasce de um agro fortemente dependente do comércio exterior.
Santa Catarina respondeu, em 2025, por 50,9% das exportações brasileiras de carne suína e por 25,64% das vendas externas de carne de frango. O Estado também concentrou 36,9% das exportações nacionais de madeira e suas obras.
Isso significa que decisões tomadas em Brasília sobre tributação, comércio exterior, sanidade, infraestrutura, meio ambiente e competitividade podem produzir efeitos diretos sobre uma parcela importante da economia catarinense.
Ao mesmo tempo, parte relevante das decisões que afetam o dia a dia da propriedade depende do Estado, especialmente em licenciamento, infraestrutura regional, serviços públicos e regulamentações locais.
Por isso, a agenda foi desenhada para atuar nas duas esferas.
Sustentabilidade e menos burocracia entram na mesma cobrança
Os outros dois eixos definidos pelas entidades tratam de sustentabilidade e meio ambiente e de desburocratização.
A inclusão simultânea dessas duas frentes mostra um dos desafios centrais do setor para a próxima legislatura: conciliar exigências ambientais e sanitárias cada vez maiores com regras que ofereçam previsibilidade e segurança jurídica para quem precisa investir.
Para produtores e agroindústrias, o problema não está necessariamente na existência de controles, mas no excesso de etapas, sobreposição de exigências, demora em procedimentos e dificuldade de interpretar normas que podem variar entre diferentes órgãos.
Nesse cenário, desburocratização não significa ausência de fiscalização. Significa buscar processos mais claros, previsíveis e compatíveis com a velocidade das decisões econômicas no campo.
Setor tenta trocar promessa por compromisso acompanhável
A principal mudança de postura está na tentativa de chegar à campanha eleitoral com uma pauta previamente organizada.
Em vez de esperar que cada candidato apresente propostas genéricas para o agronegócio, as entidades pretendem colocar sobre a mesa problemas considerados prioritários pelo próprio setor.
Esse movimento permite também uma cobrança posterior.
Se as propostas forem formalmente apresentadas aos candidatos, o agro catarinense poderá comparar quem assumiu compromissos durante a eleição e como esses compromissos se transformaram, ou não, em atuação parlamentar entre 2027 e 2031.
Para um setor que respondeu por dois terços das exportações catarinenses em 2025 e sustenta cadeias produtivas espalhadas por centenas de municípios, a mensagem é clara: o debate eleitoral de 2026 não deverá ficar restrito a declarações genéricas de apoio ao agro.
A discussão agora é sobre quais compromissos cada candidato estará disposto a assumir para enfrentar os gargalos que afetam a produção, a indústria e a competitividade de Santa Catarina.







