Agroconsult projeta queda da margem do sistema soja e milho em Mato Grosso, enquanto CNA alerta que juros elevados ampliam o endividamento e dificultam a recuperação financeira do produtor
A soja voltou a apresentar preços mais favoráveis, mas isso não significa que a próxima safra será mais rentável para o produtor. A combinação de fertilizantes mais caros, crédito restrito e juros elevados deve manter a pressão sobre as contas dentro da porteira em 2026/27.
A Agroconsult estima que a margem Ebitda do sistema de produção de soja e milho no médio-norte de Mato Grosso pode cair de 19% na safra 2025/26 para 12% no novo ciclo. Dependendo da região e do modelo produtivo, a rentabilidade pode ficar abaixo de 10%, bem distante da média histórica apontada pela consultoria, entre 20% e 25%.
O dado ajuda a explicar um paradoxo que começa a aparecer no campo: o preço da commodity pode melhorar e, mesmo assim, sobrar menos dinheiro depois da colheita.
Fertilizante mais caro consome parte da melhora no preço
Segundo André Pessôa, CEO da Agroconsult, a expectativa é de preços um pouco melhores para algumas commodities, mas o avanço dos custos deve impedir uma recuperação equivalente da rentabilidade.
Os fertilizantes aparecem como uma das principais pressões da safra 2026/27. A alta desses insumos aumenta o desembolso antes mesmo do plantio e exige mais capital para financiar a mesma área.
O problema fica maior quando esse capital também está mais caro.
A projeção da Agroconsult é de que a relação entre dívida líquida e Ebitda nas atividades de soja, milho, algodão e trigo suba de 2,1 vezes na safra anterior para 2,8 vezes em 2026/27, segundo estimativa apresentada durante o Congresso Brasileiro de Fertilizantes.
Na prática, o produtor entra em uma nova temporada com margem menor e uma dívida proporcionalmente maior em relação à capacidade de geração de resultado.
Juro alto agrava problema do crédito no agro
A preocupação também apareceu nesta semana no discurso da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.
O presidente da CNA, João Martins, afirmou que os juros elevados estão agravando a crise de endividamento do setor e tornando o ambiente econômico mais difícil para quem precisa financiar produção e investimento. A entidade relaciona o cenário de juros altos também à situação fiscal do país e defende maior equilíbrio das contas públicas.
A avaliação sobre as causas macroeconômicas é uma posição da CNA, mas o efeito do custo financeiro aparece de forma concreta na operação rural.
O agro é intensivo em capital. O produtor precisa comprar insumos meses antes de receber pela colheita, financiar máquinas, armazenagem e investimentos e, em muitos casos, carregar dívidas de safras anteriores.
Quando o juro permanece elevado, uma parcela maior da margem deixa de remunerar a produção e passa a pagar o custo financeiro.
Além disso, a maior percepção de risco pelos bancos aumenta a seletividade. A Agroconsult relata que parte dos produtores já encontra dificuldades para acessar crédito, justamente no momento em que precisa financiar uma safra mais cara.
Soja mais cara não chegou para todo mundo
Outro cuidado está na leitura dos preços atuais.
A soja disponível chegou a aproximadamente R$ 155 por saca no porto, segundo dados apresentados durante o Congresso Brasileiro de Fertilizantes. O problema é que uma parcela significativa da produção já havia sido comercializada quando as cotações começaram a melhorar.
Segundo a Agrinvest, quando a valorização ganhou força em Mato Grosso, cerca de 80% da safra já estava vendida.
Isso significa que os produtores mais capitalizados, capazes de armazenar e esperar por uma oportunidade melhor de comercialização, conseguiram capturar uma parcela maior da alta.
Quem precisava vender para quitar custeio, fornecedores ou outras obrigações teve menos espaço para esperar.
É justamente por isso que olhar apenas para a cotação da soja pode produzir uma imagem incompleta do campo.
Preço melhor não significa necessariamente preço melhor recebido por todos.
Menos crédito pode chegar também à produtividade
A restrição financeira ainda cria outro risco.
Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil e Paraguai, afirmou que a falta de crédito pode fazer com que produtores reduzam investimentos em adubação. Nesse cenário, o efeito da dificuldade financeira não ficaria limitado à margem, poderia chegar à produtividade da própria lavoura.
Essa é uma decisão delicada.
Quando o produtor não consegue financiar o pacote tecnológico planejado, precisa escolher onde cortar. Dependendo da intensidade e das condições agronômicas, reduzir investimento pode comprometer o potencial produtivo e dificultar ainda mais a recuperação financeira.
O risco é entrar em um ciclo em que margem menor aumenta a dívida, dívida maior restringe crédito e crédito restrito reduz a capacidade de investir na próxima safra.
Safra maior não resolve uma conta que continua apertada
O momento do agro mostra por que produção e rentabilidade precisam ser analisadas separadamente.
O Brasil continua ampliando sua capacidade produtiva e algumas commodities apresentam sinais de recuperação nos preços. Mas, dentro da porteira, fertilizantes mais caros, juros elevados, endividamento acumulado e crédito mais seletivo continuam consumindo parte do resultado.
Para a safra 2026/27, a pergunta do produtor talvez não seja apenas quanto vai colher ou por quanto conseguirá vender.
Será quanto dessa receita conseguirá permanecer na propriedade depois de pagar o custo de produzir e financiar mais um ciclo.
Porque preço melhor ajuda. Mas, com custo e juros subindo juntos, a margem pode continuar sendo a parte mais apertada da safra.







