O Pará é o protagonista absoluto da cadeia do açaí. Em 2024, segundo o IBGE, por meio da Produção Agrícola Municipal (PAM), o estado produziu cerca de 1,61 milhão de toneladas do fruto, respondendo por aproximadamente 89,5% da produção nacional, de acordo com o Estudo Técnico da Fapespa (Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas), e consolidando-se como base de um mercado que cresce há décadas.
Importância econômica e social
Mais do que um símbolo cultural, o açaí é um dos principais ativos econômicos do Pará. Em 2024, a cadeia movimentou cerca de R$ 8,8 bilhões, o que representa 93,8% do valor total da produção brasileira do fruto.
O impacto social é igualmente expressivo: a atividade envolve mais de 300 mil pessoas entre extrativistas, agricultores familiares, cooperativas e trabalhadores de beneficiamento, transporte e comércio. Em diversas comunidades ribeirinhas, o açaí responde por mais de 60% da renda familiar, funcionando simultaneamente como base alimentar e principal fonte de renda.
Mas e o caroço do açaí?
O grande volume de produção gera, proporcionalmente, um enorme passivo de biomassa residual. Cerca de 83% a 85% do fruto vira caroço após o beneficiamento. Com a produção estadual na faixa de 1,61 a 1,74 milhão de toneladas, isso significa mais de 1,34 a 1,48 milhão de toneladas de caroço por ano apenas no Pará.
Grande parte desse resíduo é descartada em áreas próximas às unidades de beneficiamento, gerando acúmulo, risco de contaminação do solo e da água e emissões de metano em decomposição anaeróbia.
Solução: transformar o caroço do açaí em biochar
A carbonização do caroço de açaí por pirólise gera biochar, um condicionador de solo que aumenta a retenção de água e nutrientes e a eficiência da adubação. Com rendimento típico de 28% a 32%, o Pará tem potencial para produzir de 0,40 a 0,44 milhão de toneladas de biochar por ano a partir do caroço.
Para o produtor, isso significa redução de custos agrícolas, ao longo do tempo, de aproximadamente 20%, ganhos de produtividade entre 10% e 20% e maior resiliência climática, elevando a margem líquida e a sustentabilidade da atividade rural.
Solução: transformar o caroço do açaí em créditos de carbono
O biochar de caroço de açaí é também um ativo ambiental mensurável. Cada tonelada aplicada ao solo gera créditos de remoção de carbono (CDR) comercializáveis no mercado voluntário.
Usando fatores do IBI (International Biochar Initiative), uma tonelada de biochar estocada no solo gera entre 1,45 e 2,20 tCO₂eq (tonelada de dióxido de carbono equivalente), conforme a temperatura de pirólise e o rendimento de 30% sobre o caroço.
Estima-se que o Pará poderia gerar de 0,61 a 0,92 milhão de tCO₂eq por ano em créditos. Com preços de mercado em US$ 150/tCO₂eq, isso representa de US$ 91 milhões a US$ 185 milhões por ano em receita potencial.
Conclusão
O biochar de caroço de açaí é mais do que uma solução: é uma oportunidade de negócio em escala, com impacto local imediato. O Pará tem o resíduo, o produtor precisa de alternativas para aumentar sua receita, as empresas possuem tecnologia e o mercado tem demanda por ativos ambientais.
O que falta? Investidores e stakeholders visionários dispostos a assumir o risco de investimento para destravar essa cadeia agora. Quem chegar primeiro lidera a bioeconomia de baixo carbono da Amazônia e transforma resíduo em lucro, emprego e legado climático.
Referências
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Sobre o autor
Guilherme Fioresi Marques é médico-veterinário, pós-graduado em produção e reprodução de bovinos e possui mais de 25 anos de experiência no agronegócio, com atuação em projetos agropecuários voltados à produção de carne de qualidade em diferentes regiões do Brasil.
Nos últimos dez anos, trabalha com desenvolvimento de inovação e tecnologia, apoiando startups do agro na criação, validação e implementação de soluções focadas na experiência do produtor rural. Também atuou durante 12 anos como produtor rural nas atividades de pecuária e agricultura.
Desde 2019, estuda o biochar como solução para valorização de biomassas residuais da agroindústria, avaliando sua viabilidade técnica e econômica e desenvolvendo modelos de negócio para aplicações na agricultura e pecuária regenerativa, com foco em descarbonização e geração de valor nas cadeias de alimentos.
Seu propósito é conectar pessoas, alinhando expectativas e demandas para criar negócios de impacto social, ambiental e econômico por meio da inovação, ciência e tecnologia.







