El Niño tem mais de 90% de chance de atingir intensidade muito forte no trimestre; excesso de chuva de um lado e calor e baixa umidade do outro aumentam riscos para a safra
Setembro começa mostrando dois extremos que podem acompanhar o produtor brasileiro nos próximos meses. Enquanto o Sul enfrenta chuva intensa, solo encharcado e risco de novos temporais, áreas do Centro-Oeste ainda convivem com calor, baixa umidade e solo seco justamente na aproximação do plantio da safra 2026/2027.
O contraste ocorre no momento em que o El Niño ganha força no Oceano Pacífico e entra em uma fase que aumenta a atenção sobre o comportamento do clima brasileiro.
Boletim divulgado nesta terça-feira (1º) pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em conjunto com Inpe, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e Censipam, aponta que há mais de 90% de probabilidade de o trimestre setembro, outubro e novembro registrar um El Niño muito forte.
A projeção não significa que setembro, isoladamente, será o ápice do fenômeno. Os modelos indicam continuidade do fortalecimento nos próximos meses. A NOAA calcula, inclusive, 69% de probabilidade de que, no trimestre outubro, novembro e dezembro, o episódio alcance intensidade superior aos eventos anteriores da série histórica iniciada em 1950.
Para o agro, isso coloca gestão de risco e acompanhamento climático novamente no centro das decisões da próxima safra.
Sul começa setembro com chuva acima de 100 milímetros
O primeiro retrato desse contraste já apareceu na virada do mês.
A previsão do Inmet para a semana entre 31 de agosto e 7 de setembro indica que os maiores volumes de chuva do país devem se concentrar na Região Sul, principalmente em Santa Catarina, norte do Rio Grande do Sul e oeste do Paraná.
Em Santa Catarina, os acumulados podem ultrapassar 100 milímetros. No norte gaúcho e em áreas do Paraná, podem superar 60 milímetros.
E o problema não termina na quantidade de água.
Chuva excessiva significa solo saturado, menor capacidade de entrada de máquinas, interrupção de aplicações, dificuldade para manejo das lavouras e maior pressão de doenças.
O prognóstico mensal do Inmet indica chuva acima da média em grande parte da Região Sul em setembro, especialmente no Rio Grande do Sul.
Para trigo e aveia, a combinação de temperaturas e elevada disponibilidade de umidade em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul pode favorecer doenças fúngicas. Entre os riscos apontados pelo próprio instituto está a giberela, doença capaz de comprometer produtividade e qualidade dos grãos.
No Paraná, o excesso de umidade também pode interferir nas culturas de inverno e restringir as operações de preparo do solo e início da nova safra de soja.
Ou seja, chuva é necessária. O problema começa quando ela deixa de ser reposição hídrica e passa a retirar dias úteis do calendário agrícola.
No Centro-Oeste, o problema começa pelo outro extremo
Enquanto o produtor do Sul espera uma janela sem chuva para entrar na lavoura, áreas do Brasil Central enfrentam o problema inverso.
A primeira semana de setembro começa com tempo predominantemente seco em grande parte do Centro-Oeste. A previsão semanal indica pouca chuva na maior parte da região, embora Mato Grosso do Sul e áreas de Goiás possam receber precipitações pontuais ao longo dos próximos dias.
O cenário mensal exige uma leitura um pouco diferente.
O Inmet prevê precipitações próximas da média histórica em grande parte do Centro-Oeste durante setembro, com volumes acima da média em partes de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul. Isso, porém, não significa chuva regular desde o primeiro dia do mês nem umidade suficiente imediatamente para todas as áreas produtoras.
Ao mesmo tempo, as temperaturas devem permanecer acima da média em boa parte da região, chegando a desvios de até 1,5 °C em áreas de Mato Grosso e Goiás.
Esse detalhe importa especialmente para a soja.
Setembro marca o avanço da preparação para o plantio da safra 2026/2027 em importantes regiões produtoras. O fim do vazio sanitário e a abertura do calendário permitem a semeadura do ponto de vista fitossanitário, mas não obrigam o produtor a plantar.
Sem umidade adequada no perfil do solo, colocar a semente na terra pode significar germinação irregular, necessidade de replantio e aumento de custos.
Por isso, a decisão depende menos da data no calendário e mais da chegada de chuva suficiente e relativamente regular.
El Niño pode ampliar o contraste nos próximos meses
É justamente nesse ponto que setembro deixa de ser apenas mais um mês de transição entre inverno e primavera.
O El Niño já está estabelecido e segue se fortalecendo.
O fenômeno ocorre quando há aquecimento persistente das águas superficiais do Pacífico Equatorial, provocando mudanças na circulação atmosférica capazes de alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
No Brasil, episódios de El Niño costumam aumentar a probabilidade de chuva acima da média no Sul e favorecer condições mais secas em partes das regiões Norte, Nordeste e Brasil Central.
O boletim divulgado em 1º de setembro reforça esse desenho para os próximos meses.
Para o trimestre setembro, outubro e novembro, o Sul, especialmente o Rio Grande do Sul, além de partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul, apresenta maior possibilidade de chuva acima da média histórica.
No sentido oposto, Norte e Nordeste tendem a enfrentar um trimestre mais seco. Partes do Brasil Central e do Sudeste, especialmente Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, também apresentam maior probabilidade de chuva abaixo do normal.
O calor será outro componente importante. As temperaturas devem permanecer acima da média em praticamente todo o país.
El Niño muito forte não significa desastre garantido
Há uma diferença importante entre previsão climática e previsão do tempo.
Dizer que existe mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte não significa afirmar que todas as regiões sofrerão eventos extremos nem que cada temporal ou período de seca será provocado exclusivamente pelo fenômeno.
Da mesma forma, chuva acima da média mensal não significa que choverá todos os dias.
Um mês pode terminar acima da média depois de poucos episódios extremamente volumosos, intercalados por vários dias secos.
É justamente a distribuição da chuva que interessa ao produtor.
Para uma lavoura, 100 milímetros distribuídos ao longo de vários dias podem produzir um efeito completamente diferente dos mesmos 100 milímetros concentrados em poucas horas.
Os próprios órgãos responsáveis pelo monitoramento ressaltam que eventos mais intensos de El Niño aumentam a probabilidade de impactos associados ao fenômeno, mas não determinam automaticamente sua ocorrência ou severidade.
O risco para a safra muda conforme o CEP
Para o agro, talvez esse seja o principal desafio dos próximos meses.
Não existe um único impacto do El Niño sobre a agricultura brasileira.
No Sul, a preocupação passa por excesso de chuva, erosão, encharcamento, doenças fúngicas, dificuldade de manejo, perda de qualidade e redução das janelas para entrada de máquinas.
No Brasil Central, principalmente se a estação chuvosa demorar a se consolidar, o risco passa pela falta de umidade no solo, temperaturas elevadas, atraso no plantio, maior pressão sobre pastagens e aumento do risco de incêndios.
O boletim nacional sobre o El Niño alerta justamente para a possibilidade de prolongamento das condições típicas da estiagem em áreas centrais e do Norte caso haja atraso no estabelecimento das chuvas.
Isso também pode mexer com o calendário da soja.
Atrasar a semeadura da oleaginosa não afeta apenas a soja. Dependendo da região e da duração do atraso, pode reduzir posteriormente a janela disponível para culturas plantadas em sucessão.
O clima, portanto, começa a interferir antes mesmo de a safra estar efetivamente no campo.
Setembro será um mês para acompanhar o céu e o calendário
A previsão climática não determina o que acontecerá em cada propriedade, mas aumenta ou diminui probabilidades e ajuda produtores, cooperativas, técnicos e seguradoras a planejarem decisões.
E setembro começa com um sinal importante.
De um lado do país, o produtor pode perder a janela de trabalho porque há água demais. Do outro, pode deixar a plantadeira parada porque ainda falta água no solo.
Com um El Niño em fortalecimento e mais de 90% de probabilidade de atingir intensidade muito forte no trimestre setembro, outubro e novembro, essa diferença regional tende a exigir acompanhamento constante.
Para o agro, o clima não cobra apenas em milímetros de chuva ou pontos de umidade.
Cobra em janela de plantio, aplicação perdida, máquina parada, doença, replantio, produtividade e custo.
E é justamente quando os extremos aparecem ao mesmo tempo que gestão de risco, seguro rural, planejamento e informação meteorológica deixam de ser assuntos acessórios e passam a fazer parte da conta da safra.







