quinta-feira, 03 de setembro de 2026
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Expointer 2026: uma feira de desafios, surpresas e confiança na força do agro

Mesmo com dívidas, juros altos e crédito restrito, Expointer reúne grande público e mantém expectativa de crescimento nos negócios.

Expointer 2026: uma feira de desafios, surpresas e confiança na força do agro
Divulgação

Mesmo diante do endividamento rural, dos juros elevados e das restrições de crédito, a 49ª Expointer começa com grande presença de público, recorde na agricultura familiar e expectativa de crescimento nas vendas.

A Expointer de 2026 pode ser definida como a feira dos desafios e das surpresas. Os desafios são conhecidos: produtores endividados, crédito mais seletivo, juros ainda elevados, perdas provocadas por sucessivos eventos climáticos e incertezas nos mercados nacional e internacional. A surpresa positiva vem da capacidade de reação do setor, demonstrada pelo grande movimento de público, pela diversidade dos expositores e pela expectativa de retomada dos negócios.

Realizada de 29 de agosto a 6 de setembro, no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio, a 49ª Expointer reúne aproximadamente dois mil expositores. O parque possui 141 hectares, 45,3 mil metros quadrados de pavilhões cobertos, 70 mil metros quadrados destinados às exposições, 19 locais para julgamentos e nove espaços para leilões e auditórios. Durante os períodos de montagem, realização e desmontagem, são gerados aproximadamente 30 mil empregos diretos. O tema desta edição, “Nosso futuro tem raízes fortes”, traduz bem a intenção de associar tradição, inovação e capacidade de reconstrução.

Os primeiros números confirmam a força popular da feira. Nos três primeiros dias, a Expointer recebeu 239.374 visitantes: 80.915 no sábado, 92.773 no domingo e 65.686 na segunda-feira. O movimento nos dias úteis é naturalmente menor, mas o resultado inicial demonstra que a sociedade continua reconhecendo a feira como um dos principais acontecimentos econômicos, culturais e sociais do Rio Grande do Sul. Em 2025, a Expointer alcançou o recorde de 1.010.020 visitantes, marca que serve como referência para a atual edição.

A expectativa de vendas

No campo econômico, a projeção é de crescimento de aproximadamente 10% sobre o volume comercializado em 2025, previsão esta feita a quatro dias do início da feira, portanto ainda restando quatro dias intensos da exposição. No ano passado, a feira movimentou oficialmente R$ 4,418 bilhões. Confirmada a expansão prevista, a Expointer 2026 poderá alcançar aproximadamente R$ 4,86 bilhões em negócios.

É uma estimativa prudente, especialmente quando comparada aos R$ 8,1 bilhões registrados em 2024. A redução verificada em 2025 ocorreu principalmente nas vendas de máquinas e implementos agrícolas, que caíram de R$ 7,39 bilhões, em 2024, para R$ 3,77 bilhões. Portanto, crescer 10% em 2026 representará uma retomada importante, ainda que distante dos melhores resultados históricos.

A indústria de máquinas chega à feira com expectativa positiva, porém consciente das dificuldades. Aproximadamente 90% das aquisições realizadas por determinadas empresas do setor dependem de financiamento. Isso significa que o interesse do produtor somente será transformado em venda se os recursos do Plano Safra estiverem disponíveis, se as instituições financeiras conseguirem operar as linhas de crédito e se as condições forem compatíveis com a capacidade de pagamento do setor rural.

O BRDE, por exemplo, espera repetir aproximadamente R$ 500 milhões em financiamentos, depois de ter encerrado a Expointer de 2025 com R$ 523 milhões em novos negócios. É uma meta expressiva diante do endividamento dos produtores e das incertezas climáticas, mas demonstra que ainda existe disposição para investir quando há crédito adequado e projetos de médio e longo prazo.

A feira, portanto, será um verdadeiro termômetro do novo Plano Safra. Mais do que medir a intenção de compra, mostrará se o crédito anunciado está efetivamente chegando ao produtor.

Agricultura familiar se fortalece na feira, demonstrando seu avanço na pequena agroindustrialização

Uma das principais surpresas positivas é a dimensão alcançada pela agricultura familiar. O pavilhão do setor reúne 509 expositores, representando 218 municípios gaúchos. São 400 agroindústrias familiares, 74 empreendimentos de artesanato e 28 participantes ligados à produção de plantas, mudas e flores. Também estão presentes empreendimentos indígenas e quilombolas.

Esse crescimento demonstra que a Expointer não é apenas uma feira de grandes máquinas, animais premiados e empresas de alcance nacional. Ela também é uma vitrine para que pequenas propriedades apresentem alimentos, bebidas, artesanato, conhecimentos tradicionais e produtos vinculados à identidade de seus territórios.

Em 2025, as vendas da agroindústria familiar chegaram a R$ 13,63 milhões, contra R$ 10,88 milhões em 2024. A expectativa para 2026 é de novo crescimento. Mais importante do que o valor comercializado durante os nove dias é a abertura de mercados, a divulgação das marcas e a criação de relações permanentes com consumidores e compradores.

Pecuária, genética e inovação

A Expointer 2026 registra 7.926 animais de argola e rústicos inscritos, reafirmando a importância da pecuária e do melhoramento genético. Julgamentos, provas, exposições e leilões mostram o trabalho acumulado por gerações de criadores de bovinos, ovinos, equinos e pequenos animais.

Ao mesmo tempo, a feira amplia sua agenda de inovação. Máquinas conectadas, agricultura digital, inteligência artificial, aplicativos, equipamentos a bateria, bioinsumos, pesquisa genética e tecnologias para aumentar a produtividade convivem com as atividades tradicionais. É justamente essa convivência entre tradição e modernidade que diferencia a Expointer.

A agricultura familiar representa uma importante fronteira para a mecanização. Segundo informação apresentada pela direção da Stihl durante a feira, apenas 18% desse segmento estaria mecanizado no Brasil. Isso revela uma grande oportunidade para equipamentos menores, mais acessíveis e adaptados às condições das pequenas propriedades.

Uma feira cada vez mais internacional

A internacionalização é outra dimensão relevante. O Pavilhão Internacional reúne representantes de Uruguai, Paraguai, Estados Unidos, Alemanha, Equador e Peru. Mais do que uma presença simbólica, essas participações aproximam empresas, produtores, governos e instituições, criando oportunidades de cooperação, investimentos e acesso a novos mercados.

A Expointer precisa aprofundar essa vocação. Por sua localização geográfica, pelo conhecimento acumulado e pela qualidade da produção gaúcha, a feira tem condições de se consolidar como um dos principais pontos de encontro agropecuário da América Latina e do Caribe, fortalecendo especialmente a integração com o Mercosul.

A agenda internacional também traz desafios. Barreiras sanitárias, exigências ambientais, rastreabilidade, certificações e medidas comerciais adotadas por outros países afetam diretamente a competitividade do agronegócio brasileiro. Por isso, a Expointer não deve ser somente uma feira de vendas, mas um espaço permanente de diplomacia agropecuária e discussão sobre a inserção internacional do Brasil.

Sustentabilidade e inclusão

Pela primeira vez, a Expointer está sendo realizada com neutralização de carbono. A iniciativa prevê a elaboração de um inventário das principais fontes de emissão e a compensação correspondente com créditos certificados, seguindo metodologia internacional.

A edição também amplia as ações de acessibilidade e inclusão. O espaço Querência Inclusiva oferece acolhimento para pessoas autistas, neurodivergentes e seus familiares, incluindo ambiente de convivência, área infantil e sala de regulação sensorial.

Essas iniciativas mostram que uma feira agropecuária moderna não pode ser avaliada apenas pelo valor das vendas. Ela também precisa incorporar compromissos sociais, ambientais, científicos e culturais.

O principal desafio continua sendo a renda do produtor

A Expointer 2026 poderá alcançar bons resultados, mas não pode esconder a realidade econômica enfrentada no campo. Muitos produtores gaúchos acumulam dívidas decorrentes de secas, enchentes, perda de safras, redução de margens e aumento dos custos de produção.

Por isso, a renegociação das dívidas rurais permanece como uma das principais reivindicações das entidades representativas. Sem uma solução estruturada, parte dos produtores continuará impedida de acessar novos financiamentos, mesmo quando houver interesse em investir.

A feira revela, assim, uma aparente contradição: o parque está cheio, as empresas apresentam novidades e o produtor demonstra vontade de investir, mas a concretização dos negócios depende da recuperação de sua capacidade financeira. A esperança de renegociar tem sido tema das conversas e opiniões na feira.

A Expointer como símbolo de reconstrução

A Expointer de 2026 não deve ser analisada apenas pelos números finais. Ela representa a capacidade de resistência e reconstrução da agropecuária gaúcha. O grande público inicial, o recorde de participação da agricultura familiar, a presença internacional, a inovação tecnológica e a expectativa de crescimento das vendas demonstram que o setor não perdeu a confiança no futuro.

A surpresa está justamente nessa reação. Mesmo depois de anos difíceis, o produtor continua buscando tecnologia, conhecimento, crédito e novos mercados.

A Expointer é, ao mesmo tempo, uma feira de negócios, um espaço de reivindicação política, este ano com forte participação daqueles que disputam eleições proporcionais e majoritárias, uma exposição de genética, uma vitrine da agricultura familiar e um ponto de conexão do Rio Grande do Sul com o Brasil e o mundo, com a participação de diversos países.

Os desafios são grandes, mas as raízes da agropecuária são muito fortes.

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