quinta-feira, 03 de setembro de 2026
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Política

Profert prevê até R$ 10 bilhões em incentivos, mas não resolve sozinho a falta de investimento em fertilizantes

Programa sancionado reduz custos de novos projetos, mas não substitui bilhões necessários para ampliar a produção nacional.

Profert prevê até R$ 10 bilhões em incentivos, mas não resolve sozinho a falta de investimento em fertilizantes
Divulgação

Programa sancionado pelo presidente Lula pode reduzir custos tributários e estimular novas plantas, mas projetos bilionários ainda dependem de capital privado, financiamento e execução

O Brasil sancionou o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes, o Profert, uma das principais apostas para tentar reduzir a dependência brasileira de insumos importados.

O programa prevê até R$ 10 bilhões em benefícios entre 2027 e 2031, limitados a R$ 2 bilhões por ano, para estimular investimentos na produção nacional de fertilizantes.

Mas há uma diferença importante entre reduzir a conta tributária e ter dinheiro suficiente para construir uma fábrica ou colocar uma mina em operação.

O Profert melhora a viabilidade dos projetos. Não substitui o capital necessário para tirá-los do papel.

Incentivo pode chegar a 20% dos gastos

As empresas poderão obter créditos fiscais sobre parte dos investimentos considerados elegíveis, respeitados os limites estabelecidos pelo programa.

A habilitação deverá ocorrer por processo concorrencial e o benefício poderá ser utilizado para compensar tributos ou solicitar ressarcimento.

Na prática, isso significa que o incentivo ajuda a reduzir o custo total do empreendimento, mas não funciona como um cheque antecipado capaz de financiar sozinho uma nova planta industrial.

Projeto de potássio mostra o tamanho da diferença

O Projeto Autazes, no Amazonas, ajuda a dimensionar essa distância.

A Brazil Potash estima investimento de aproximadamente US$ 2,5 bilhões para colocar a operação em funcionamento.

Segundo a companhia, a combinação dos benefícios do Profert com os incentivos da Zona Franca de Manaus pode gerar economia tributária de até US$ 190 milhões.

É um valor relevante, mas ainda distante do capital necessário para concluir o empreendimento.

A empresa ainda precisa captar entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões em equity, dinheiro colocado por investidores em troca de participação no negócio.

Sem esse capital, não há obra. E sem obra, a produção comercial prevista para o fim de 2030 continua sendo apenas uma projeção.

Produção futura já tem comprador

O projeto trabalha com capacidade inicial de aproximadamente 2,2 milhões de toneladas de potássio por ano, volume equivalente a cerca de 17% do consumo brasileiro.

Antes mesmo do início da operação, 91% da produção futura já está comprometida em contratos de longo prazo com Amaggi, Keytrade e Kimia.

Os acordos ajudam a dar previsibilidade de receita e facilitam a negociação de financiamento.

Mas há outro ponto importante para o produtor.

A produção nacional não significa necessariamente potássio mais barato.

Os contratos utilizam referências de mercado, e a própria companhia reconhece que o principal ganho do projeto está na segurança de abastecimento e na redução da exposição a riscos internacionais.

Produzir no Brasil não significa necessariamente pagar menos

Hoje, o Brasil depende fortemente do fertilizante importado e fica exposto a guerras, sanções econômicas, problemas logísticos, câmbio e decisões tomadas por grandes fornecedores internacionais.

Produzir mais dentro do país pode reduzir essa vulnerabilidade.

Isso não significa, porém, que o preço do potássio brasileiro ficará automaticamente abaixo das referências internacionais.

O ganho estratégico está em depender menos de um navio, de uma sanção ou da disponibilidade de um fornecedor localizado do outro lado do mundo.

O Profert pode ajudar a tornar esses projetos mais competitivos.

Mas incentivo fiscal não cava mina.

O governo pode reduzir a conta tributária. Para transformar projeto em fertilizante, ainda serão necessários investidores, financiamento, obras e execução.

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