quinta-feira, 03 de setembro de 2026
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Política

Seguro rural recebe metade do necessário no Orçamento de 2027 e mantém produtor exposto ao clima

PLOA prevê R$ 1,2 bilhão para o PSR, mas apenas R$ 318,5 milhões estão livres para execução.

Seguro rural recebe metade do necessário no Orçamento de 2027 e mantém produtor exposto ao clima
Divulgação

PLOA prevê R$ 1,2 bilhão para o programa, mas apenas R$ 318,5 milhões estão livres; FGV Agro estima necessidade mínima de R$ 2,37 bilhões para recuperar a cobertura de 2021

O governo colocou R$ 1,2 bilhão para o seguro rural na proposta de Orçamento de 2027. O valor representa um reforço, mas ainda cobre apenas cerca de metade do necessário para devolver ao programa a escala de proteção que já ofereceu ao produtor brasileiro.

Segundo o Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro, seriam necessários pelo menos R$ 2,37 bilhões para recuperar o nível alcançado em 2021, quando o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, o PSR, apoiou aproximadamente 209 mil apólices e protegeu 13,45 milhões de hectares.

O problema fica ainda maior quando se olha para a composição do orçamento.

Dos R$ 1,2 bilhão previstos no Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027, apenas R$ 318,5 milhões estão em recursos livres. Outros R$ 881,5 milhões aparecem como recursos condicionados e dependem de autorização para execução.

Na prática, o valor total previsto cobre 50,6% da necessidade estimada pela FGV Agro. A parcela efetivamente livre corresponde a apenas 13,4%.

Seguro precisa chegar antes da lavoura

No seguro rural, não basta que o dinheiro apareça no orçamento. Ele precisa estar disponível no momento certo.

As contratações acompanham o calendário agrícola e precisam ocorrer antes que o risco se materialize. Se os recursos forem liberados depois da janela de contratação, o produtor já terá plantado sem proteção.

Esse é um dos principais problemas apontados pela FGV Agro, que vem alertando para a perda de previsibilidade do PSR. Em 2025, a área coberta pelo programa caiu para cerca de 3,2 milhões de hectares, muito abaixo dos 13,45 milhões registrados em 2021.

A situação ganha peso adicional em uma safra marcada por maior risco climático. Com o El Niño em fortalecimento, atrasos, bloqueios ou liberações fora da janela podem deixar justamente as culturas mais expostas sem cobertura.

Orçamento aprovado não significa dinheiro executado

O histórico recente mostra que nem mesmo os valores aprovados garantem que o recurso chegará integralmente ao produtor.

Em 2026, aproximadamente R$ 461,7 milhões do orçamento do PSR foram bloqueados. A FGV Agro estima que, somando 2025 e 2026, cerca de R$ 907 milhões deixaram de integrar a execução potencial do programa.

Essa instabilidade afeta não apenas quem contrata o seguro.

Seguradoras, resseguradoras, cooperativas e bancos também precisam conhecer com antecedência o tamanho do programa para organizar capacidade, precificação e oferta.

Quando o orçamento chega tarde ou é contingenciado, o mercado perde escala e a cobertura encolhe.

Brasil ainda prioriza o socorro depois da perda

O debate sobre o orçamento também expõe uma diferença de tratamento entre prevenção e resposta ao prejuízo.

Enquanto o PSR recebe R$ 1,2 bilhão na proposta para 2027, boa parte desse valor ainda condicionada, o sistema brasileiro continua mobilizando volumes muito maiores para programas de cobertura posterior de perdas e para renegociação de dívidas rurais.

Os mecanismos não são equivalentes e cumprem funções diferentes. Mas o contraste ajuda a mostrar uma escolha recorrente da política agrícola brasileira: disponibilizar mais recursos depois que a perda aconteceu do que antes, quando o risco ainda poderia ser parcialmente transferido para o mercado segurador.

A própria FGV Agro estimou recentemente que R$ 3,6 bilhões em subvenção poderiam, em um exercício indicativo, proteger aproximadamente 20,5 milhões de hectares, apoiar cerca de 398 mil apólices e gerar mais de R$ 112 bilhões em importância segurada.

Não significa que o seguro elimine todo o risco da atividade rural.

Ele não cobre erro de gestão, oscilação de preço ou qualquer tipo de dificuldade financeira. Mas, diante de uma perda climática coberta, a indenização pode preservar caixa, reduzir inadimplência e diminuir a necessidade de renegociações posteriores.

Congresso ainda pode mudar o valor

O PLOA de 2027 ainda precisa passar pelo Congresso Nacional.

Durante a tramitação, deputados e senadores poderão apresentar emendas e tentar ampliar os recursos destinados ao PSR.

Para alcançar a recomendação mínima de R$ 2,37 bilhões calculada pela FGV Agro, ainda seria necessário acrescentar aproximadamente R$ 1,17 bilhão ao valor atualmente previsto.

O debate, portanto, ainda não terminou.

Mas para o produtor existe uma diferença entre ter dinheiro autorizado e ter seguro disponível.

O clima não espera a tramitação do Orçamento.

Ou a proteção chega antes do plantio, ou o socorro tende a chegar depois da quebra.

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