quinta-feira, 03 de setembro de 2026
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A gargalhada de Brasília

Maurício Refatti analisa o contraste entre a indignação fora do poder e a aparente normalidade nos corredores de Brasília.

A gargalhada de Brasília
Divulgação

Por Maurício Refatti

É verdade que poucos brasileiros ainda acreditam numa ressurreição do caráter e da honestidade na política. Ainda assim, muita gente decente carregava uma pequena fagulha de expectativa de que pudesse surgir algum freio à escalada de abusos, corrupção e autoritarismo atribuída ao STF depois das revelações de 1º de setembro.

As conversas vieram à tona. A indecência ganhou exposição pública. O rei estava nu.

Confesse: até você, que já não deposita confiança alguma nas instituições brasileiras, esperava algum pequeno abalo. Um cisco no olho, um semblante preocupado. Quem sabe, ao menos, um clima estranho nos corredores. Mesmo desconfiando de que, no fim, não daria em nada, foi quase reconfortante imaginar que, por algumas horas, o circo pudesse pegar fogo. Mas nem isso aconteceu.

Brasília acordou sorrindo. Aliás, gargalhando.

Todos nós sabemos o que produz uma gargalhada e em que circunstâncias ela costuma aparecer. Gargalhamos quando estamos entre amigos, relaxados, e alguém lembra aquela história embaraçosa e hilária sobre alguém. Gargalhamos diante de uma piada realmente boa. Não qualquer história, não qualquer piada.

Há dois ingredientes quase indispensáveis, preditores de uma boa gargalhada: graça e descontração.

Porque gargalhar é diferente de simplesmente rir. A gargalhada é uma explosão de prazer. Quase um orgasmo da conexão social. Ela dificilmente aparece quando estamos acuados, ameaçados ou preocupados. Para gargalhar de verdade, é preciso algum grau de segurança, intimidade, cumplicidade. É preciso sentir que está tudo bem.

E talvez seja justamente isso que torne aquelas imagens tão perturbadoras, porque era exatamente o oposto do que acreditávamos ver. Foi uma cena contraintuitiva. Esperávamos tensão e constrangimento, mas encontramos descontração e intimidade. Queríamos semblantes sisudos de preocupação, mas vimos prazer explícito.

Mesmo conhecendo Brasília, seus acordos, seus acobertamentos e a impressionante capacidade de transformar escândalos em rotina, havia algo naquela cena para o qual o brasileiro comum talvez não estivesse preparado.

O brasileiro que acorda cedo, trabalha, paga impostos e sustenta a própria família e que, por tabela, ajuda a bancar os charutos, os jatinhos e o Macallan que Brasília aprecia, talvez ainda guardasse a esperança de encontrar, ao menos, algum constrangimento.

Mas não. Não pareciam risos nervosos, nem parecia uma tentativa de aliviar um ambiente pesado. Era puro prazer. A gargalhada confortável de quem está entre amigos depois de ouvir uma excelente piada.

E o personagem da piada?

É esse mesmo brasileiro, que já nem sabe o que é rir.


Maurício Refatti é estrategista de influência, publicitário com 30 anos de experiência, palestrante TEDx, autor do livro “Convença-me”, professor de MBA e especialista em Neuropersuasão.

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