Enquanto exportações brasileiras de peixes recuam no acumulado do ano, tilápia já aparece entre os pescados mais importados pelo país; concorrência externa será tema de debate no IFC Brasil 2026
A piscicultura brasileira chega ao segundo semestre de 2026 diante de um sinal que merece atenção: enquanto o setor ainda tenta recuperar espaço no mercado internacional, a tilápia importada avança dentro do próprio Brasil. No primeiro semestre, a espécie se tornou o terceiro pescado mais importado pelo país, somando US$ 33 milhões e cerca de 8 mil toneladas.
O movimento ocorre justamente em um momento em que produtores e indústrias brasileiras discutem custos, competitividade e acesso a novos mercados. Do outro lado da balança comercial, as exportações da piscicultura brasileira alcançaram US$ 12,5 milhões no segundo trimestre deste ano, crescimento de 15% em relação aos três primeiros meses. Apesar da reação, o resultado acumulado do primeiro semestre ainda ficou 34% abaixo do registrado no mesmo período de 2025.
A combinação dos dois movimentos aumenta a pressão sobre a cadeia nacional: o Brasil precisa vender mais pescado para fora ao mesmo tempo em que enfrenta uma presença maior do produto estrangeiro dentro de casa.
Tilápia do Vietnã volta ao centro da discussão
A preocupação ganha ainda mais peso com a retomada das importações de tilápia do Vietnã.
Em abril de 2025, o Ministério da Agricultura e Pecuária revogou a suspensão cautelar da importação do pescado vietnamita, que havia sido adotada no ano anterior. Desde então, a entrada do produto voltou a alimentar discussões sobre critérios sanitários, custos de produção e, principalmente, as condições de concorrência entre a tilápia produzida no Brasil e a que chega do exterior.
Não se trata apenas de saber quanto peixe o Brasil importa. A discussão envolve as condições em que o produtor brasileiro consegue competir.
Custos de produção, escala, exigências sanitárias, tarifas e acesso aos mercados internacionais podem alterar a capacidade da cadeia nacional de disputar espaço tanto nas exportações quanto nas prateleiras brasileiras.
Esse cenário estará no centro das discussões do IFC Brasil 2026, que começa nesta quarta-feira, 2 de setembro, em Foz do Iguaçu (PR).
Mercado externo vira questão estratégica
O painel “Exportações e importações de pescado: A dança das tarifas, abertura de mercados e os desafios para a aquicultura brasileira” reunirá representantes da Embrapa Pesca e Aquicultura, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da ApexBrasil para discutir justamente esse novo ambiente de concorrência.
Participam do debate o pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura Manoel Xavier Pedroza Filho, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Augusto Billi, e o gerente de Agronegócios da ApexBrasil, Pedro Netto.
Para o presidente do IFC Brasil 2026 e professor da FGV, Altemir Gregolin, a cadeia enfrenta um cenário em que precisa avançar em duas frentes simultaneamente.
“A aquicultura brasileira está diante de um cenário complexo, precisa conquistar e diversificar mercados no exterior e, ao mesmo tempo, competir com produtos importados dentro do próprio país”, afirma.
A discussão também envolve um problema recorrente das exportações brasileiras: a dependência de poucos compradores. A abertura de novos mercados, a agregação de valor ao pescado e a capacidade de competir em preço e qualidade serão alguns dos pontos colocados em debate.
Competitividade passa também por tecnologia
A pressão do mercado internacional não será o único tema do IFC. No dia 3 de setembro, outro painel discutirá como tecnologia e novos sistemas produtivos podem ajudar a aquicultura brasileira a ganhar eficiência.
Especialistas do Chile, Equador e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) vão abordar automação, rastreabilidade, monitoramento, gestão, redução de perdas e maior controle da produção.
A relação entre os dois debates é direta. Se o pescado brasileiro precisa enfrentar uma concorrência internacional maior, produtividade, custos e eficiência passam a ter peso ainda maior na capacidade de produtores e indústrias permanecerem competitivos.
O IFC Brasil 2026 será realizado entre 2 e 4 de setembro, em Foz do Iguaçu, reunindo representantes do setor produtivo, empresas, cooperativas, pesquisadores e órgãos públicos.







