Safra catarinense deve ter queda superior a 20% na produção de alho e de 21% na cebola; em Minas Gerais, crise do alho já levou quatro municípios a decretarem emergência econômica
Santa Catarina entra na nova safra de alho e cebola com uma conta que ajuda a explicar um problema cada vez mais presente no campo: produzir bem não significa necessariamente ter rentabilidade.
As duas culturas registraram produtividade recorde na última temporada catarinense, mas os preços recebidos pelos agricultores ficaram abaixo dos custos referenciais de produção. A consequência já aparece no novo ciclo, com redução da área plantada e expectativa de menor produção.
No alho, o cenário chama ainda mais atenção porque a dificuldade não está restrita a Santa Catarina. Em Minas Gerais, uma das principais regiões produtoras do país, a crise já levou quatro municípios do Alto Paranaíba a decretarem situação de emergência econômica no setor agropecuário.
Produção de alho em SC pode cair mais de 20%
Na última safra, Santa Catarina alcançou produtividade média recorde de 11.831 quilos de alho por hectare.
O resultado no campo, porém, não foi suficiente para garantir retorno econômico ao produtor.
Entre janeiro e junho de 2026, o preço médio ponderado recebido pelo agricultor catarinense foi de R$ 6,42 por quilo, enquanto o custo de produção referencial chegou a R$ 9,70 por quilo, segundo dados da Epagri/Cepa.
Na prática, uma diferença de R$ 3,28 por quilo entre o preço médio recebido e o custo referencial.
Para a nova safra, a área cultivada caiu de 747 para 623 hectares, redução próxima de 17%.
A produção também deve diminuir. A estimativa é passar de 8.838 toneladas para 7.043 toneladas, uma retração de pouco mais de 20%.
A redução da área ocorre justamente depois de uma temporada de alta produtividade, mostrando que o volume colhido, sozinho, não foi suficiente para manter a atratividade econômica da cultura.
Cebola também perde área em Santa Catarina
Na cebola, a situação é semelhante.
A safra anterior alcançou produtividade média de 32.951 quilos por hectare, a maior registrada em Santa Catarina desde pelo menos 2012.
Mesmo assim, entre novembro de 2025 e maio deste ano, o produtor recebeu em média R$ 1,08 por quilo.
O custo referencial estava em R$ 1,75 por quilo.
A elevada oferta de cebola no mercado brasileiro pressionou as cotações e comprometeu a rentabilidade.
Agora, a área plantada catarinense caiu aproximadamente 15%, passando de 19.120 para 16.322 hectares.
A produção deve recuar ainda mais, de 630.028 toneladas para cerca de 498.060 toneladas, queda estimada em 21%.
Em Minas, problema do alho já virou decreto
Enquanto Santa Catarina reduz área depois de uma safra marcada por preços abaixo dos custos, Minas Gerais enfrenta uma crise que já ultrapassou as propriedades rurais.
São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba e Serra do Salitre decretaram situação de emergência econômica no setor agropecuário.
No alho, os números ajudam a dimensionar o problema.
Em São Gotardo, o custo de produção foi estimado em R$ 13,30 por quilo. Em Ibiá, chega a R$ 16,30.
O preço médio recebido pelo produtor estava próximo de R$ 11 por quilo.
As perdas estimadas chegam a aproximadamente R$ 70 mil por hectare em São Gotardo e R$ 71,5 mil por hectare em Ibiá.
Os decretos não perdoam dívidas nem garantem renegociação automática, mas reconhecem formalmente a deterioração econômica enfrentada pelo setor e podem servir de suporte documental em negociações com instituições financeiras, cooperativas e fornecedores.
Menos área pode mudar o mercado?
A redução da produção prevista em Santa Catarina acontece em um mercado que já enfrenta forte discussão sobre preços, custos e importações.
No caso do alho, produtores brasileiros vêm cobrando medidas de defesa comercial e maior fiscalização das importações.
O Brasil mantém direito antidumping sobre o alho chinês, prorrogado em 2025 por mais cinco anos, mas entidades do setor questionam se os mecanismos atuais são suficientes para garantir condições equilibradas de concorrência.
A Argentina também entrou no centro do debate, com produtores brasileiros defendendo a abertura de uma investigação específica sobre as condições de entrada do produto no país.
A redução de área em regiões produtoras brasileiras poderá diminuir a oferta doméstica, mas isso não significa automaticamente recuperação dos preços. O comportamento do mercado dependerá também da produção em outros estados, das importações, do consumo e da qualidade da safra.
Clima entra como mais uma preocupação
Além da rentabilidade, o clima será outro fator de atenção para Santa Catarina.
Segundo a Epagri/Cepa, a previsão de excesso de chuva nos próximos meses pode afetar o manejo das lavouras e também etapas posteriores à colheita.
Na cebola, cuidados com cura, secagem e armazenamento serão especialmente importantes para evitar perdas de qualidade.
Com menos área plantada, preços ainda pressionados e risco climático no horizonte, alho e cebola começam a nova temporada com uma equação delicada.
Santa Catarina ainda é uma importante região produtora dessas culturas, mas os números da nova safra mostram um sinal que já aparece também em outras partes do país.
Quando uma temporada de produtividade recorde termina com preço abaixo do custo, a reação pode aparecer na safra seguinte.
E, neste caso, ela já apareceu em hectares que deixaram de ser plantados.







