ELEIÇÕES 2026 | O AGRO NOS PLANOS DE QUEM QUER GOVERNAR O BRASIL
Esta reportagem integra a série especial Eleições 2026 do Política e Agro, que analisa, com os mesmos critérios, os planos de governo dos presidenciáveis para o agro brasileiro.
Ronaldo Ramos Caiado (PSD): O ex-governador de Goiás disputa a Presidência da República pelo PSD.
Programa propõe crédito plurianual, Seguro Rural permanente, Fundo de Catástrofe, mais armazenagem, fertilizantes e fortalecimento da Embrapa, mas não apresenta política específica para reestruturar o endividamento rural acumulado.
Transformar a política agrícola em planejamento de longo prazo, reduzir os riscos de quem produz e integrar crédito, seguro, infraestrutura, pesquisa e abertura de mercados dentro de uma estratégia nacional estão entre as principais diretrizes apresentadas por Ronaldo Caiado para o agronegócio.
O programa dedica espaço próprio ao setor e trata o agro como uma das áreas estratégicas para a atuação do Brasil em alimentos, bioenergia, biotecnologia e sustentabilidade.
Entre as propostas estão um Plano Safra com horizonte de cinco anos, fundo garantidor para estimular o crédito privado, reformulação do Seguro Rural, Fundo de Catástrofe, ampliação da armazenagem, corredores logísticos, aumento da produção nacional de fertilizantes, programa de bioinsumos, conclusão da validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e maior estabilidade de recursos para a Embrapa.
A proposta busca diminuir a dependência de decisões tomadas a cada safra e ampliar a previsibilidade para investimentos que exigem planejamento de vários anos.
Um tema relevante, entretanto, não recebe uma política específica no material analisado: o endividamento rural já acumulado.
Embora o programa apresente instrumentos para estruturar o financiamento futuro da atividade, não detalha um programa próprio de reestruturação do passivo dos produtores que chegam a 2027 pressionados por dívidas e com dificuldade de acessar novos recursos.
Quem é Ronaldo Caiado
Ronaldo Ramos Caiado nasceu em 25 de setembro de 1949, em Anápolis, Goiás. Médico, professor e produtor rural, construiu parte de sua trajetória política ligada às pautas do setor agropecuário e participou da criação da União Democrática Ruralista, a UDR.
Disputou a Presidência da República pela primeira vez em 1989. Posteriormente, exerceu cinco mandatos como deputado federal por Goiás, foi senador entre 2015 e 2018 e governador de Goiás entre 2019 e 2026.
Em março deste ano, filiou-se ao PSD. Sua candidatura à Presidência foi oficializada pela convenção nacional do partido em 26 de julho de 2026, com Gilberto Kassab como candidato a vice-presidente.
Plano Safra de cinco anos tenta ampliar previsibilidade do crédito rural
O financiamento da produção é uma das áreas em que o programa apresenta uma mudança mais estrutural.
Caiado propõe criar um Plano Safra plurianual, com horizonte de cinco anos.
A ideia é oferecer ao produtor maior previsibilidade sobre as condições de financiamento para investimentos que ultrapassam o calendário de uma única safra.
Além do crédito oficial, o programa prevê ampliar a participação do setor privado.
Entre os instrumentos previstos estão fundo garantidor para operações agrícolas, Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), Fiagro, debêntures, securitização e Cédula de Produto Rural.
A proposta é utilizar recursos públicos também como mecanismo de redução de risco e garantia, buscando atrair maior participação do capital privado no financiamento do setor.
Ao mesmo tempo, o programa estabelece que o crédito oficial continuará tendo papel relevante, sem ser substituído integralmente pelo mercado de capitais.
O que não aparece no documento são os valores.
O programa não informa o volume financeiro previsto para o Plano Safra plurianual, quais taxas seriam praticadas nem quanto de recursos equalizados pelo Tesouro estaria disponível.
Assim, a proposta define um horizonte maior para o planejamento do crédito, mas não apresenta a dimensão financeira dessa política.
Dívida rural atual não recebe política específica
O endividamento rural acumulado é um dos temas sem instrumento específico no programa.
Caiado apresenta mecanismos destinados a estruturar o financiamento futuro do produtor, mas não detalha um programa próprio de renegociação ampla das dívidas existentes.
Também não aparece uma proposta específica de alongamento do passivo atual nem um programa voltado à recuperação financeira de produtores que perderam capacidade de acessar novos recursos.
A securitização é mencionada como instrumento para ampliar as fontes privadas de financiamento, mas não aparece apresentada como política destinada diretamente à reestruturação das dívidas já acumuladas.
A diferença é relevante porque organizar o crédito para os próximos anos não resolve, necessariamente, a situação dos produtores que chegam ao próximo ciclo com capacidade financeira comprometida.
O documento, portanto, detalha como pretende estruturar parte do financiamento futuro, mas não estabelece uma política própria para o passivo atual.
Seguro Rural ganha desenho mais permanente
O Seguro Rural está entre os temas mais detalhados no programa.
Caiado propõe transformar o instrumento em uma política permanente, reduzindo sua dependência de decisões orçamentárias tomadas a cada exercício.
O plano prevê modernizar o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, ampliar a participação privada e aproximar seguro e crédito dentro de uma política integrada de gestão de risco.
Também estão previstos seguros paramétricos, baseados em índices climáticos e dados objetivos para definir indenizações, além de mecanismos de resseguro destinados a eventos de grande impacto.
Outra proposta é regulamentar e reestruturar o Fundo de Catástrofe, destinado a situações em que eventos climáticos causam perdas generalizadas.
O programa ainda menciona seguro de renda, ampliando a proteção para além da perda física da produção.
O desenho apresentado, porém, não vem acompanhado de metas financeiras.
Não há indicação do orçamento pretendido para a subvenção, percentual de área segurada ou tamanho financeiro previsto para o Fundo de Catástrofe.
Custo de produção entra pela logística, crédito e insumos
O programa não concentra a redução dos custos do produtor em uma única política.
As medidas aparecem distribuídas entre crédito, infraestrutura, fertilizantes, bioinsumos, máquinas, armazenagem e gestão de risco.
Entre os problemas identificados estão frete elevado, dependência de fertilizantes importados, custo do crédito, deficiência de armazenagem e baixa cobertura de seguro.
Para enfrentar esses gargalos, o programa propõe ampliar a infraestrutura, elevar a produção doméstica de fertilizantes, incentivar bioinsumos, modernizar máquinas e melhorar as condições de financiamento.
A lógica apresentada é reduzir custos por meio de ganhos de produtividade, logística mais eficiente e menor exposição à dependência externa.
Alguns componentes importantes da conta dentro da propriedade, entretanto, não recebem uma política própria.
O programa não apresenta medidas específicas para Funrural, diesel agrícola ou energia utilizada na produção e também não quantifica a redução pretendida no chamado custo Brasil para o produtor.
CAR e licenciamento entram na agenda de segurança jurídica
Meio ambiente e regularização fundiária recebem propostas mais específicas.
Caiado propõe concluir a validação do Cadastro Ambiental Rural, o CAR, e acelerar a análise dos Programas de Regularização Ambiental e das compensações relacionadas à Reserva Legal.
Para pequenos produtores e agricultores familiares, o programa prevê mutirões com apoio técnico e jurídico voltados à regularização.
O documento também defende estabilidade na aplicação do Código Florestal.
No licenciamento ambiental, a proposta adota uma lógica baseada no risco. Atividades consideradas de menor impacto teriam procedimentos simplificados, enquanto empreendimentos mais complexos permaneceriam sujeitos a análises técnicas mais aprofundadas.
Também aparecem rastreabilidade, pagamento por serviços ambientais e certificação brasileira para créditos de carbono.
A proposta associa a regularização ambiental não apenas ao cumprimento das normas, mas também à possibilidade de acesso a mercados e geração de renda.
O programa não detalha, porém, qual estrutura administrativa seria mobilizada para acelerar a validação dos cadastros e demais processos ambientais.
Logística ganha planejamento de dez anos
Infraestrutura é outra área em que o programa propõe ampliar o horizonte de planejamento.
Caiado defende um programa decenal para a logística do agronegócio.
A proposta é organizar rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e armazenagem dentro de corredores considerados estratégicos para a produção.
Entre os projetos citados no documento estão Ferrogrão, Ferrovia Norte-Sul, Fiol, Malha Norte e BR-163, além de hidrovias no Centro-Oeste e no Norte.
A armazenagem também aparece diretamente entre as prioridades.
O programa prevê ampliar a capacidade próxima às regiões produtoras e colocar silos entre os investimentos prioritários para crédito e garantias.
O documento, no entanto, não estabelece quantos milhões de toneladas pretende acrescentar à capacidade de armazenagem do país nem informa o volume de investimento previsto para os corredores logísticos.
Fertilizantes e bioinsumos entram na estratégia de redução da dependência externa
O programa identifica a dependência brasileira de fertilizantes importados como uma vulnerabilidade.
Caiado propõe executar o Plano Nacional de Fertilizantes, elevar a produção doméstica de potássio e nitrogenados e diversificar os fornecedores externos.
A estratégia combina aumento da produção nacional com redução da concentração das importações.
O documento também prevê um Programa Nacional de Bioinsumos, com o objetivo de ampliar alternativas produzidas dentro do país e substituir parte dos produtos importados.
Outra frente apresentada é o estímulo a novas plantas formuladoras de defensivos e à produção doméstica de ingredientes considerados estratégicos.
Apesar das medidas, o programa não estabelece meta percentual de redução da dependência externa nem um prazo específico para alcançar esse resultado.
Abertura de mercados ganha foco em diversificação
No comércio exterior, Caiado propõe ampliar a presença brasileira em regiões consideradas estratégicas.
Sudeste Asiático, Oriente Médio, África e mercados de maior valor estão entre os destinos apontados no programa.
O documento prevê fortalecer os adidos agrícolas, negociar acordos comerciais e avançar nas negociações sanitárias e fitossanitárias para produtos brasileiros.
A estratégia também inclui rastreabilidade e certificação como instrumentos para ampliar a presença da produção brasileira no mercado internacional.
O plano ainda propõe atuação diplomática baseada em ciência e dados para contestar barreiras consideradas protecionistas.
Não são apresentadas, entretanto, metas sobre número de mercados a serem abertos, cadeias prioritárias ou crescimento esperado das exportações.
Embrapa ganha promessa de estabilidade de recursos
Pesquisa e inovação aparecem com destaque no programa.
A Embrapa ocupa posição central na estratégia proposta.
Caiado defende planejamento plurianual e maior estabilidade de recursos para a empresa, buscando reduzir a dependência de decisões orçamentárias anuais e permitir continuidade a projetos de longo prazo.
O programa também propõe um Programa Nacional de Biotecnologia Tropical.
Entre as áreas mencionadas estão inteligência artificial aplicada ao agro, edição genética, novas técnicas de melhoramento, cultivares adaptadas às mudanças climáticas, microbioma e tecnologias destinadas à redução das emissões da pecuária.
Conectividade rural, agricultura de precisão, sensores, modernização de máquinas e digitalização das propriedades também aparecem na estratégia.
O documento, porém, não informa quanto pretende ampliar o orçamento da Embrapa nem estabelece uma meta financeira para pesquisa e inovação.
Agricultura familiar, cooperativismo e assistência técnica aparecem no programa
A agricultura familiar aparece em diferentes áreas do programa.
O documento inclui renda dos agricultores familiares, cooperativismo e acesso à assistência técnica entre os indicadores que pretende acompanhar.
Também estão previstas ações de regularização fundiária e ambiental, irrigação, seguro, armazenagem, assistência técnica e processamento local.
A estratégia apresentada procura aproximar pequenos produtores de agroindústrias, compras públicas e mercados externos.
As cooperativas aparecem como instrumentos para ampliar escala, processamento e comercialização.
No crédito, entretanto, o Pronaf não é citado nominalmente no material analisado.
Dessa forma, o programa contempla a agricultura familiar em diferentes políticas, mas não detalha como funcionaria um instrumento específico de financiamento desse público dentro do Plano Safra plurianual.
O que ainda não está detalhado no programa
A leitura do plano deixa algumas questões sem definição quantitativa.
O programa não informa qual será o volume financeiro do Plano Safra de cinco anos, quanto pretende destinar à subvenção do Seguro Rural nem qual seria a dimensão financeira do Fundo de Catástrofe.
Também não estabelece uma meta de expansão da capacidade nacional de armazenagem, percentual de redução da dependência de fertilizantes importados ou volume adicional de recursos destinado à Embrapa.
Outro ponto sem política específica é o endividamento rural acumulado.
O programa apresenta instrumentos para melhorar as condições futuras de financiamento, mas não detalha um mecanismo próprio de reestruturação do passivo já existente.
Na agricultura familiar, aparecem assistência técnica, regularização, seguro, armazenagem e cooperativismo, mas não há menção nominal ao Pronaf no material analisado.
O retrato do plano de Ronaldo Caiado para o agro
O programa de Ronaldo Caiado apresenta uma estratégia para o agronegócio baseada principalmente na ampliação do horizonte de planejamento das políticas agrícolas.
Entre as medidas previstas estão Plano Safra de cinco anos, fundo garantidor para ampliar as fontes de financiamento, reformulação do Seguro Rural, Fundo de Catástrofe, planejamento decenal de logística, expansão da armazenagem, produção nacional de fertilizantes, bioinsumos, conclusão da validação do CAR e maior estabilidade de recursos para a Embrapa.
O programa também apresenta diretrizes para tecnologia, rastreabilidade, comércio exterior, agricultura familiar e sustentabilidade.
Ao mesmo tempo, alguns pontos permanecem sem definição quantitativa no material analisado. Não estão informados o volume financeiro do Plano Safra plurianual, o orçamento pretendido para o Seguro Rural, a expansão esperada da capacidade de armazenagem, a redução pretendida da dependência de fertilizantes importados nem o volume adicional de recursos destinado à Embrapa.
Outro tema que não recebe uma política específica é o endividamento rural acumulado. O programa apresenta instrumentos destinados ao financiamento futuro, mas não detalha um mecanismo próprio de reestruturação do passivo dos produtores que já enfrentam dificuldades financeiras.
É justamente essa diferença entre diretrizes, instrumentos, metas quantificadas e temas que permanecem sem detalhamento que o Política e Agro acompanha nesta série.
Quem quer governar o Brasil precisa dizer, antes da eleição, o que pretende fazer com o agro.
E o Política e Agro vai abrir cada plano para descobrir.
Nota metodológica: esta reportagem integra a série especial “O agro nos planos de quem quer governar o Brasil”. Todos os presidenciáveis selecionados são analisados a partir dos mesmos eixos temáticos. O conteúdo não recomenda voto nem estabelece preferência eleitoral. A reportagem considera as propostas apresentadas no programa da candidatura e identifica medidas previstas, diretrizes gerais, metas apresentadas e questões que permanecem sem detalhamento específico.









