Expansão das usinas cria uma demanda permanente pelo cereal perto das regiões produtoras, reduz dependência dos portos e fortalece mercado de coprodutos como DDG e DDGS, mas também aumenta a disputa pelo milho utilizado na alimentação animal
Durante décadas, boa parte da conta do produtor de milho brasileiro esteve ligada a uma pergunta conhecida: quanto custa levar o grão até o consumidor ou até o porto? A expansão do etanol de milho começa a mudar essa lógica ao criar um comprador de grande escala dentro das próprias regiões produtoras.
A indústria brasileira de etanol de milho entrou em uma fase de expansão que aumenta o consumo doméstico do cereal e começa a alterar o fluxo de parte da produção. Em vez de percorrer centenas ou milhares de quilômetros até os portos, o milho pode seguir para uma biorrefinaria instalada próxima às áreas de cultivo, onde é transformado em combustível e também em coprodutos destinados, entre outros mercados, à alimentação animal.
O tamanho desse novo consumidor já aparece nas projeções oficiais. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Brasil produzirá 11,91 bilhões de litros de etanol de milho na safra 2026/2027, crescimento de 17% em relação à temporada anterior. Com a expansão, o etanol produzido a partir do cereal deverá representar uma parcela cada vez mais relevante dos 41,88 bilhões de litros de etanol previstos para o país nesta safra.
Brasil já tem 29 unidades de etanol de milho
Dados consolidados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que o Brasil possuía 29 unidades de etanol de milho em operação no levantamento referente a 2024, sendo 18 unidades dedicadas ao cereal e 11 plantas flexíveis.
Naquele momento, a capacidade instalada permitia processar aproximadamente 20,9 milhões de toneladas de milho por ano e produzir 10,6 bilhões de litros de etanol.
A diferença entre aquela capacidade instalada e a projeção atual da Conab, de 11,91 bilhões de litros produzidos em 2026/2027, ajuda a mostrar a velocidade da expansão da atividade. Levantamentos setoriais divulgados em 2026 apontam ainda outros 27 projetos em desenvolvimento.
O movimento começou principalmente no Centro-Oeste. No levantamento da EPE, 55% das unidades estavam em Mato Grosso, 24% em Goiás e 10% em Mato Grosso do Sul.
Essa concentração tem uma explicação econômica. São regiões que produzem grandes volumes de milho, especialmente de segunda safra, mas estão distantes dos principais portos brasileiros. Transformar o cereal em etanol perto de onde ele é produzido cria uma alternativa de comercialização e reduz o peso do transporte de grãos por longas distâncias.
De etanol de milho para etanol de cereais
A própria expansão da indústria começa a mudar a terminologia utilizada pelo setor.
Em vez de falar exclusivamente em etanol de milho, novas plantas e projetos começam a trabalhar com o conceito de etanol de cereais. Isso ocorre porque uma biorrefinaria pode ser estruturada para processar diferentes matérias-primas ricas em amido.
Milho continua sendo a principal delas, mas sorgo e outros cereais podem entrar na equação conforme disponibilidade regional, preço, qualidade e características técnicas de cada unidade.
A expansão para novas fronteiras agrícolas, incluindo áreas do Matopiba, pode reforçar esse modelo. Em regiões nas quais o sorgo possui vantagens agronômicas ou econômicas, por exemplo, a possibilidade de utilização industrial abre uma nova alternativa de mercado para o produtor.
O que muda para quem produz milho?
Para o agricultor, uma das principais mudanças está na formação da demanda.
Exportações dependem de câmbio, mercado internacional, disponibilidade portuária, frete e competitividade do produto brasileiro no exterior. Uma usina instalada em uma região produtora cria uma demanda industrial local e recorrente.
Isso não significa que o etanol substituirá a exportação. O que muda é o número de compradores disputando o mesmo milho.
O cereal brasileiro passa a ter três grandes destinos que precisam conviver: exportação, alimentação animal e processamento industrial.
Quanto maior a capacidade instalada das biorrefinarias, maior tende a ser a necessidade de matéria-prima para manter as plantas funcionando.
A expansão também pode estimular a produção de milho em regiões próximas às novas unidades, justamente porque a existência de um comprador local altera a conta do frete e pode melhorar as condições de comercialização.
Etanol também aumenta disputa pelo milho da ração
Se existe uma oportunidade para o produtor de grãos, a expansão também merece atenção de outro grupo importante do agronegócio.
Frangos, suínos, bovinos confinados e outras cadeias pecuárias utilizam milho como uma das principais fontes energéticas das dietas. Essas atividades passam a dividir o cereal com uma indústria de biocombustíveis em crescimento.
Em períodos de oferta confortável, os mercados podem avançar simultaneamente. O ponto de atenção aparece quando produção e estoques não acompanham o aumento do consumo.
Nesse cenário, uma disputa maior pela matéria-prima pode exercer pressão sobre o preço do milho e, consequentemente, sobre o custo da alimentação animal.
Por isso, o avanço do etanol também aumenta a importância de produtividade, expansão sustentável da oferta, logística e planejamento da produção brasileira de grãos.
Parte do milho volta ao cocho como DDG e DDGS
Mas a relação entre etanol e pecuária não termina quando o milho entra na usina.
Depois da fermentação e da retirada do amido utilizado na produção do combustível, permanecem componentes nutricionais que podem ser aproveitados. É daí que surgem coprodutos como DDG e DDGS.
Esses ingredientes podem retornar às cadeias de proteína animal e serem incorporados à alimentação de bovinos, aves e suínos, respeitando as características nutricionais e as formulações adequadas para cada espécie.
Esse mercado ganhou importância à medida que as biorrefinarias brasileiras cresceram. Em vez de uma planta produzir apenas combustível, o modelo econômico passa a depender do aproveitamento de diferentes produtos gerados durante o processamento do cereal.
O resultado é uma integração cada vez maior entre produção de grãos, energia e proteína animal.
📺 Quer entender melhor como o DDG está evoluindo e ganhando espaço na alimentação animal?
O Política e Agro já mostrou em vídeo como esse coproduto das usinas de etanol pode voltar para o cocho e se integrar às cadeias de proteína animal.
DDG reduz a disputa pelo milho?
A resposta não é tão simples.
O crescimento da oferta de DDG e DDGS permite que uma parcela dos nutrientes originalmente presentes no milho volte para a alimentação animal, criando uma conexão importante entre as duas cadeias.
Isso, porém, não significa que cada tonelada de milho utilizada pela indústria de etanol seja automaticamente compensada pela produção de coprodutos.
O aproveitamento depende da composição nutricional do DDG ou DDGS, da espécie animal, da formulação da dieta, do preço e também da logística. Para uma granja ou confinamento distante da biorrefinaria, por exemplo, o frete pode mudar completamente a viabilidade econômica do ingrediente.
Por outro lado, propriedades e indústrias de proteína animal instaladas próximas às usinas podem encontrar nesses coprodutos uma alternativa para composição das dietas.
Etanol de milho deve produzir 11,91 bilhões de litros
A projeção da Conab ajuda a dimensionar a velocidade dessa transformação.
Para a safra 2026/2027, a estatal estima crescimento de 17% na produção de etanol de milho, chegando a 11,91 bilhões de litros.
Ao mesmo tempo, a produção de etanol de cana-de-açúcar é estimada em 29,98 bilhões de litros. Somadas as diferentes matérias-primas, a produção brasileira deve atingir 41,88 bilhões de litros, aumento de 11,7%.
Outro fator pode favorecer o consumo do biocombustível. A mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina passou de 30% para 32% no fim de julho, segundo a Conab, ampliando a demanda doméstica pelo produto.
Para o milho brasileiro, portanto, o crescimento das biorrefinarias representa mais do que a abertura de um novo mercado.
O país passa a transformar uma parcela maior do cereal perto das regiões produtoras, agregando valor antes que o produto percorra grandes distâncias. Ao mesmo tempo, surgem novos fluxos de DDG e DDGS para a produção animal e aumenta a competição pela matéria-prima.
O desafio daqui para frente será equilibrar essa expansão. O Brasil precisará produzir milho suficiente para atender uma demanda que cresce em várias direções ao mesmo tempo: o tanque, o cocho e os navios.









