segunda-feira, 31 de agosto de 2026
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Eleições 2026

Plano de Lula para o agro promete mais crédito e seguro, mas deixa dívidas, CAR e armazenagem em aberto

Programa destaca crédito, Seguro Rural, Embrapa, mercados e agricultura familiar, mas não apresenta política específica para dívida rural, CAR, licenciamento e armazenagem.

Plano de Lula para o agro promete mais crédito e seguro, mas deixa dívidas, CAR e armazenagem em aberto
Divulgação

ELEIÇÕES 2026 | O AGRO NOS PLANOS DE QUEM QUER GOVERNAR O BRASIL
Esta reportagem integra a série especial Eleições 2026 do Política e Agro, que analisa, com os mesmos critérios, os planos de governo dos presidenciáveis para o agronegócio brasileiro.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT): O atual presidente disputa a reeleição pela base governista.

Candidato à reeleição reconhece peso econômico do agronegócio, promete ampliar Plano Safra, seguro rural, investimentos na Embrapa, abertura de mercados e produção de fertilizantes; documento não detalha política específica para endividamento rural, CAR, licenciamento ambiental e armazenagem

O agronegócio aparece de forma explícita no programa de governo com o qual Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, busca um novo mandato na Presidência da República.

No documento de 84 páginas apresentado para a eleição de 2026, Lula afirma que o setor é fundamental para a balança comercial e para o PIB brasileiro e defende uma política que combine produtividade, sustentabilidade ambiental, inovação tecnológica e maior agregação de valor às exportações.

O reconhecimento econômico vem acompanhado de propostas para ampliar o crédito rural, fortalecer o seguro, estimular novas fontes privadas de financiamento, investir em tecnologia, abrir mercados internacionais, aumentar a produção nacional de fertilizantes e preparar a agropecuária para eventos climáticos extremos.

Mas algumas das principais dificuldades enfrentadas hoje pelo produtor aparecem sem uma resposta específica para um eventual próximo mandato. O programa não apresenta uma política estruturada para o endividamento rural empresarial, não detalha como pretende enfrentar o déficit de armazenagem e não traz propostas específicas para o Cadastro Ambiental Rural, o CAR, ou para o licenciamento ambiental.

Quem é Luiz Inácio Lula da Silva

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, em Pernambuco, e tem 80 anos. Metalúrgico de origem, fez formação profissionalizante de torneiro mecânico pelo Senai e tem escolaridade até o ensino fundamental.

A trajetória política começou no movimento sindical do ABC paulista. Lula presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, e foi eleito deputado federal constituinte em 1986. Depois de disputar a Presidência em 1989, 1994 e 1998, venceu a eleição de 2002 e foi reeleito em 2006. Voltou ao Palácio do Planalto após vencer a eleição de 2022 e atualmente exerce seu terceiro mandato presidencial.

Agora, disputa a reeleição.

Como o plano de Lula para o agro trata crédito e dívida rural

O financiamento da produção é um dos temas mais presentes na parte do programa dedicada ao agronegócio.

Lula promete ampliar os recursos do Plano Safra e buscar juros compatíveis com a rentabilidade da atividade agropecuária. Também prevê direcionar financiamento para máquinas, equipamentos, irrigação e tecnologias capazes de elevar a produtividade.

Outra frente é a tentativa de reduzir a dependência do financiamento tradicional. O programa prevê estimular o mercado de capitais e os títulos do agronegócio como novas fontes de recursos e promete simplificar o acesso ao crédito, com menos burocracia e critérios mais claros.

A proposta, no entanto, responde mais ao financiamento futuro do que ao passivo acumulado no campo.

O programa cita o Novo Desenrola Brasil e registra medidas voltadas a agricultores familiares no mandato atual, mas não apresenta uma nova política abrangente para renegociar ou reestruturar o endividamento dos produtores rurais empresariais no próximo governo. A palavra endividamento aparece no documento relacionada principalmente às famílias e empresas de maneira geral.

Também não há indicação de quanto o Plano Safra deverá crescer, qual será o volume de recursos equalizados pelo Tesouro ou que mecanismo garantiria os juros prometidos como compatíveis com a rentabilidade do campo.

A direção está colocada: ampliar crédito e diversificar financiamento. O desenho financeiro da proposta, porém, não está detalhado.

Seguro Rural está entre as propostas de Lula para 2026

Depois de sucessivos problemas com eventos climáticos, orçamento e cobertura, o seguro rural ganhou espaço no programa.

Lula promete fortalecer a política e abrir diálogo com o setor produtivo para criar um instrumento capaz de cobrir perdas sistêmicas provocadas por catástrofes e quebras severas de safra. O programa também fala em integrar seguro rural a mecanismos de comercialização e proteção financeira.

Há ainda a proposta de criar um programa nacional de resiliência climática no campo, incluindo expansão da irrigação, conservação de solos, agricultura de precisão, plantio direto, monitoramento meteorológico e sistemas de alerta precoce.

Para a agricultura familiar, o documento promete ampliar o acesso ao seguro e fortalecer o Garantia-Safra.

O programa, entretanto, não estabelece orçamento mínimo para a subvenção ao prêmio do seguro rural, meta de área coberta ou valor destinado ao instrumento para grandes catástrofes.

A promessa política existe. A garantia financeira ainda não aparece no papel.

Custos de produção aparecem de forma indireta

Juros, fertilizantes, energia, logística e tecnologia aparecem em diferentes capítulos do programa, mas não há uma política única apresentada especificamente como estratégia para reduzir o custo de produção agropecuário.

Na economia, Lula defende inflação controlada, investimentos, aumento da produtividade e manutenção do atual arcabouço fiscal. Para o agro, promete juros mais adequados, maior produção nacional de fertilizantes e investimentos em tecnologia.

Não há, porém, propostas específicas para alguns itens que pesam diretamente na planilha do produtor, como diesel, frete e outros custos operacionais dentro da porteira.

A redução da dependência externa de fertilizantes é a proposta que mais diretamente conversa com esse problema.

O programa afirma que conflitos internacionais demonstraram a vulnerabilidade brasileira e promete acelerar a produção nacional de fertilizantes em um eventual novo governo.

O que o plano de Lula diz sobre meio ambiente, CAR e licenciamento

A política ambiental ocupa um capítulo próprio.

O programa reafirma a meta de alcançar desmatamento líquido zero até 2030, promete manter ações de prevenção e controle do desmatamento e assegurar a efetividade do Código Florestal e da Lei da Mata Atlântica. Também prevê destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas ou assentamentos.

Na parte destinada ao campo, o documento reconhece a regularização fundiária, especialmente na região Norte, como instrumento de segurança jurídica para produtores e investimentos. Ao mesmo tempo, mantém a reforma agrária, o assentamento de famílias, a ampliação do crédito fundiário e a titulação de territórios quilombolas entre as prioridades.

Dois temas importantes para produtores, contudo, não recebem propostas específicas.

Uma busca no documento não encontra menção ao Cadastro Ambiental Rural nem a licenciamento ambiental.

O programa também prevê ampliar fiscalização ambiental, monitoramento por satélite, inteligência artificial e mecanismos de rastreabilidade e diligência nas cadeias produtivas.

Assim, a política ambiental apresenta metas e instrumentos de fiscalização e conservação, enquanto questões diretamente relacionadas à regularização ambiental das propriedades e ao licenciamento permanecem sem detalhamento específico no plano.

Infraestrutura entra no plano; armazenagem fica sem proposta específica

Na infraestrutura, a principal aposta continua sendo a combinação entre investimento público e concessões privadas.

O programa prevê uma nova edição do Novo PAC, manutenção do ritmo das concessões rodoviárias, intensificação das concessões ferroviárias e novos arrendamentos e concessões relacionados aos portos.

Há, portanto, uma política nacional de logística que pode repercutir diretamente sobre o escoamento da produção agropecuária.

O texto não apresenta, porém, um plano logístico exclusivo para os corredores do agronegócio nem define quais gargalos de escoamento da produção serão prioritários.

Outro ponto chama atenção: armazenagem não aparece no programa como uma política para o agro. A busca pelo termo no documento não apresenta resultados.

Não são estabelecidas metas para ampliação da capacidade de silos, financiamento de estruturas dentro das propriedades ou redução do déficit de armazenagem.

Comércio exterior: abrir mercados e agregar valor

Na política comercial, Lula propõe continuar ampliando destinos para os produtos brasileiros.

O programa afirma que, durante o atual mandato, foram abertos 656 mercados para produtos agrícolas e pecuários e promete fortalecer a diplomacia comercial, ampliar missões internacionais e reforçar a atuação dos adidos agrícolas em mercados considerados estratégicos.

Outra prioridade é aumentar o valor agregado das exportações brasileiras, reduzindo proporcionalmente o peso de produtos primários na pauta comercial.

Na pecuária, o programa prevê recuperação de pastagens degradadas, melhoramento genético, nutrição animal de precisão e apoio à implantação de rastreabilidade individual do nascimento ao abate, especialmente para atender exigências dos mercados externos.

O documento, no entanto, não estabelece uma meta numérica para abertura de novos mercados nem quantifica quanto pretende reduzir da dependência brasileira de fertilizantes importados.

Embrapa, tecnologia e inovação no plano de Lula

Pesquisa e inovação aparecem como instrumentos para elevar a produtividade.

O programa promete fortalecer a Embrapa e direcionar investimentos para biotecnologia, edição genômica e desenvolvimento de cultivares mais resistentes a pragas e períodos de seca. Também prevê ampliar a conectividade rural e incentivar agricultura de precisão.

Na transição energética, aparecem ainda etanol de milho e cana, biodiesel, combustível sustentável de aviação, biogás e aproveitamento de subprodutos da agroindústria.

É uma das frentes em que o programa identifica com mais clareza as tecnologias que pretende estimular.

Não há, entretanto, uma meta orçamentária específica para a Embrapa ou para os investimentos em pesquisa agropecuária no eventual próximo mandato.

Agricultura familiar continua com espaço próprio

A agricultura familiar permanece como uma parte central da política agrícola apresentada por Lula.

O programa prevê ampliação do Pronaf, crédito diferenciado para jovens e mulheres, apoio a cooperativas e associações, assistência técnica, mecanização de pequenas propriedades, PAA, produção agroecológica, bioinsumos e fortalecimento do Garantia-Safra.

Também entram reforma agrária, crédito fundiário, sucessão rural, cisternas, saneamento rural e acesso à energia elétrica.

O desenho mostra duas frentes dentro da política agrícola proposta: uma voltada à agricultura familiar, com maior presença de políticas públicas e programas específicos, e outra dedicada ao agronegócio empresarial, concentrada principalmente em crédito, produtividade, seguro, tecnologia, comércio exterior e competitividade.

O que o plano ainda não responde ao produtor

Depois de passar o programa pela régua definida pelo Política e Agro, algumas perguntas permanecem sem resposta específica no documento.

Como será enfrentado o endividamento acumulado pelos produtores que hoje têm dificuldade para acessar novos recursos?

Quanto haverá efetivamente de dinheiro para o seguro rural?

Que política será adotada para reduzir o custo de produção dentro da porteira?

Como o governo pretende lidar com a demora na análise do CAR e com o licenciamento ambiental?

Qual será a estratégia para ampliar a capacidade de armazenagem do Brasil?

E quanto será destinado à Embrapa e à pesquisa agropecuária?

São temas que não anulam as propostas apresentadas, mas indicam pontos em que o programa ainda não informa mecanismo, meta financeira ou desenho de execução.

O retrato do plano de Lula para o agro

O programa de 2026 coloca o agronegócio explicitamente como parte da estratégia econômica brasileira e concentra suas propostas em crédito rural, seguro, resiliência climática, tecnologia, abertura de mercados, fertilizantes, infraestrutura e sustentabilidade.

Ao mesmo tempo, problemas que hoje estão no centro das preocupações de muitos produtores, entre eles endividamento rural, armazenagem, CAR e licenciamento ambiental, não recebem políticas específicas no documento apresentado.

É justamente essa diferença entre o que está escrito, o que está detalhado e o que ficou de fora que o Política e Agro vai acompanhar nesta série.

Porque, antes de escolher quem vai governar o Brasil, o produtor também precisa saber qual é o projeto de cada candidato para quem produz.

Quem quer governar o Brasil precisa dizer, antes da eleição, o que pretende fazer com o agro.

E o Política e Agro vai abrir cada plano para descobrir.

Nota metodológica: esta reportagem integra uma série jornalística que aplicará os mesmos critérios aos programas dos presidenciáveis selecionados. O conteúdo não recomenda, classifica nem indica preferência eleitoral por candidato. A análise se limita às propostas registradas e à identificação dos temas que aparecem ou não aparecem nos documentos.

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