segunda-feira, 31 de agosto de 2026
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Eleições 2026

Plano de Augusto Cury para o agro aposta em agroindustrialização, tecnologia e cooperativismo, mas deixa dívida rural e fertilizantes sem resposta específica

Candidato do Avante propõe dobrar a produção de alimentos, estimular 10 mil agroindústrias e ampliar Seguro Rural, armazenagem e cooperativismo, mas deixa dívida rural, Plano Safra, fertilizantes e Embrapa sem respostas específicas.

Plano de Augusto Cury para o agro aposta em agroindustrialização, tecnologia e cooperativismo, mas deixa dívida rural e fertilizantes sem resposta específica
Divulgação

ELEIÇÕES 2026 | O AGRO NOS PLANOS DE QUEM QUER GOVERNAR O BRASIL

Esta reportagem integra a série especial Eleições 2026 do Política e Agro, que analisa, com os mesmos critérios, os planos de governo dos presidenciáveis para o agro brasileiro.

Augusto Cury (Avante): Escritor, médico e psiquiatra, disputa a Presidência da República pelo Avante em sua primeira candidatura a um cargo eletivo.

Candidato do Avante propõe dobrar a produção de alimentos, estimular 10 mil agroindústrias, ampliar Seguro Rural, armazenagem e cooperativismo; programa não detalha solução para o endividamento atual, Plano Safra, fertilizantes e papel da Embrapa.

Produzir mais não basta. Para Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República, o Brasil também precisa processar mais dentro do país e transformar sua força agrícola em uma potência agroindustrial.

É nessa direção que o plano de Augusto Cury para o agro em 2026 organiza algumas de suas principais propostas para o setor.

Em um documento de cerca de 200 páginas, o agro ganha espaço próprio no capítulo chamado “Agricultura 4.0” e aparece também em projetos dedicados à agroindustrialização, agricultura familiar, Semiárido, cooperativismo, infraestrutura e exportações.

A ambição apresentada é ampla. Cury propõe dobrar a produção brasileira de alimentos em um horizonte de oito a dez anos, criar condições para instalação ou modernização de 10 mil agroindústrias, estimular 100 usinas de etanol de milho e multiplicar por dez a receita brasileira com exportação de frutas.

A lógica é reduzir a dependência da exportação de matérias-primas e agregar mais valor dentro do próprio país. Em vez de vender apenas grãos, ampliar o processamento de carnes, alimentos, energia, biocombustíveis e ingredientes industriais.

O programa também apresenta propostas para crédito de longo prazo, Seguro Rural, armazenagem, irrigação, cooperativismo, tecnologia e abertura de mercados.

Mas algumas das principais dificuldades enfrentadas hoje pelo produtor ficam sem respostas específicas. O documento não apresenta uma política estruturada para o endividamento rural acumulado, não define claramente o futuro do Plano Safra, não detalha uma estratégia para fertilizantes e não estabelece uma política institucional ou orçamentária própria para a Embrapa.

Quem é Augusto Cury

Augusto Jorge Cury nasceu em 2 de outubro de 1958, em Colina, no interior de São Paulo, e tem 67 anos.

É médico, escritor, professor e palestrante. Tornou-se conhecido nacionalmente principalmente por livros relacionados à psicologia, comportamento, educação e desenvolvimento emocional.

Ao contrário de outros candidatos analisados nesta série, Cury não construiu sua trajetória em cargos eletivos. A eleição de 2026 marca sua primeira disputa eleitoral.

O programa apresentado pela candidatura carrega características ligadas à trajetória profissional de Cury, com grande espaço para educação, saúde mental, inovação e desenvolvimento humano. O agronegócio, entretanto, também recebe um conjunto próprio de propostas.

Como o plano de Augusto Cury trata crédito rural e Plano Safra

O financiamento da produção está presente no programa, mas aparece fora da estrutura tradicional do Plano Safra.

Cury propõe ampliar o crédito rural de longo prazo, criar fundo garantidor, reduzir spreads bancários e fortalecer cooperativas de crédito.

Para cadeias exportadoras, o programa prevê inclusive linhas indexadas ao dólar.

A ideia é criar condições para financiar tanto a agricultura empresarial quanto pequenos produtores e investimentos de longo prazo em tecnologia, irrigação, armazenagem e agroindustrialização.

Na agricultura familiar, o programa também promete ampliar acesso ao crédito, mecanização, assistência técnica e mercado.

Existe, portanto, uma proposta para financiamento rural. Mas uma pergunta permanece: qual será o futuro do Plano Safra?

O programa não detalha se pretende manter o modelo atual, qual seria o volume de recursos disponibilizado anualmente, quanto haveria de equalização de juros ou quais taxas seriam praticadas.

O plano apresenta novos instrumentos. A arquitetura completa da política de crédito rural ainda precisa ser explicada.

Dívida rural atual fica sem solução específica no plano de Cury

O programa dedica bastante espaço a como melhorar o financiamento daqui para frente, mas pouco ao passivo que o produtor já carrega.

Não aparece uma política específica para renegociação ampla do endividamento rural. Também não há um programa estruturado de securitização ou alongamento das dívidas acumuladas por produtores que enfrentaram perdas climáticas, juros elevados e queda de margem.

O Seguro Rural aparece como uma ferramenta importante justamente para evitar novos ciclos de endividamento no futuro. Mas essa prevenção não resolve o problema que já está instalado.

É uma diferença importante. Uma coisa é melhorar as condições para a próxima safra. Outra é recuperar quem já chega a ela sem capacidade financeira para acessar novo crédito.

Por isso, uma das perguntas que permanecem para a candidatura é direta: qual será a política para quem já está endividado?

Seguro Rural está entre as prioridades de Augusto Cury

O Seguro Rural aparece de maneira direta no programa.

Cury propõe ampliar significativamente o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural e fortalecer o instrumento como proteção contra eventos climáticos e também como apoio ao acesso ao crédito.

Em outras partes do documento, a candidatura fala em um seguro rural robusto e no estímulo a cooperativas de seguros, inclusive para o setor agrícola.

É uma resposta a um problema que ganhou importância nos últimos anos. Seca, excesso de chuva, enchentes, granizo e quebras regionais de safra aumentaram a necessidade de mecanismos permanentes de proteção.

Mas novamente faltam números.

O programa não informa quanto dinheiro pretende destinar à subvenção, qual será a meta de área segurada ou qual percentual dos produtores deverá estar protegido.

Também não apresenta um Fundo de Catástrofe rural com desenho próprio.

A proposta de ampliar o Seguro Rural está clara. O tamanho financeiro da política ainda não.

Custos do agro entram pela competitividade e pela industrialização

A estratégia para reduzir custos está distribuída por diferentes partes do programa.

Cury aposta em equilíbrio fiscal, maior concorrência bancária, redução de custos financeiros, infraestrutura, armazenagem, tecnologia e industrialização.

Para empresas exportadoras, propõe um regime tributário mais competitivo e redução de tributos incidentes sobre insumos utilizados na produção destinada à exportação.

No agro, a lógica é elevar produtividade e agregar valor. Quanto mais tecnologia, melhor logística e maior capacidade de processar a produção, maior seria a possibilidade de ampliar a margem do produtor e da cadeia.

Mas alguns componentes importantes do custo rural ficam sem uma estratégia própria.

Diesel agrícola não recebe política específica. E um dos principais insumos da agricultura brasileira praticamente fica fora do programa.

Fertilizantes não aparecem dentro de uma estratégia estruturada para o setor.

Não há meta de produção nacional, redução da dependência externa ou diversificação de fornecedores. Para um país fortemente dependente das importações, essa é uma ausência relevante.

Licenciamento aparece no plano de Cury; CAR fica sem detalhamento

Na agenda ambiental, o programa apresenta propostas mais específicas para licenciamento.

Cury defende prazos máximos legais para processos ambientais, sanitários e outorgas de água.

A ideia é digitalizar e integrar os procedimentos entre União, estados e municípios e fazer com que as exigências sejam proporcionais ao risco da atividade. Empreendimentos de menor impacto teriam processos mais simples.

O programa também prevê mercado de carbono, pagamento por serviços ambientais, recuperação de áreas degradadas, agricultura regenerativa e remuneração ao produtor que conserva vegetação nativa.

Existe, portanto, uma tentativa de combinar sustentabilidade e geração de renda.

Mas alguns instrumentos importantes da política ambiental rural recebem menos atenção.

O Cadastro Ambiental Rural, o CAR, não ganha uma proposta específica para validação. Também falta um plano mais detalhado sobre execução do Código Florestal e regularização ambiental das propriedades.

Assim, o licenciamento recebe uma direção mais clara. CAR e regularização ambiental ainda precisam de maior definição.

Infraestrutura e armazenagem entram no plano para o agro

Infraestrutura é um dos pilares da proposta de aumentar o valor agregado da produção.

Cury defende um programa integrado para rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos, com objetivo explícito de reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade das exportações.

O programa propõe ainda cinco Corredores Estratégicos de Exportação, conectando infraestrutura de transporte, armazenagem e regiões produtoras.

Armazéns também aparecem diretamente. A candidatura prevê incentivos fiscais e parcerias para construir e ampliar estruturas de armazenagem.

A justificativa é conhecida dentro do campo. Quem consegue armazenar tem mais liberdade para escolher o momento da venda. Quem não consegue, muitas vezes é obrigado a comercializar justamente na colheita, quando a oferta está maior.

A proposta reconhece o problema, mas falta transformar a intenção em meta.

Quanto a capacidade brasileira de armazenagem deverá crescer? Quantos bilhões serão investidos? Quantos silos serão construídos?

O programa não estabelece esses números.

Agroindustrialização é um dos eixos centrais do plano de Augusto Cury

Talvez este seja o ponto mais característico do programa de Cury para o campo.

A candidatura quer mudar o perfil da produção brasileira. A ideia é continuar sendo uma potência agrícola, mas reduzir a dependência da exportação de commodities e aumentar o processamento dentro do país.

O programa Agroindústria Brasil prevê criar condições para instalação ou modernização de 10 mil agroindústrias.

Outra proposta é estimular 100 usinas de etanol de milho.

A produção de grãos seria integrada a cadeias de aves, suínos e bovinos, utilizando coprodutos como DDGS e aumentando o valor gerado dentro das regiões produtoras.

O objetivo é gerar emprego, renda e arrecadação antes que a produção deixe o país.

É uma estratégia que tenta responder a uma questão histórica do agronegócio brasileiro: o Brasil produz muito, mas quanto do valor final dos produtos fica aqui?

A candidatura coloca a agroindustrialização no centro dessa resposta.

O desafio está no financiamento. Instalar ou modernizar 10 mil agroindústrias exige crédito, energia, infraestrutura, mão de obra, licenciamento e capital.

O programa estabelece a meta. Ainda precisa detalhar a conta.

Exportações e agregação de valor ganham metas no plano

O comércio exterior também integra a estratégia.

Cury propõe transformar embaixadas brasileiras em plataformas de inteligência comercial, com unidades voltadas especificamente para o agronegócio.

A candidatura fala em “agrointeligência exportadora” para identificar oportunidades e apoiar empresas brasileiras em mercados internacionais.

Também estabelece uma meta ambiciosa para frutas: multiplicar por dez a receita brasileira com exportações do setor.

Outra proposta é criar Zonas Francas de Exportação, incluindo uma unidade no Rio Grande do Sul voltada à agroindústria e máquinas agrícolas.

A direção é aumentar a exportação de produtos com maior valor agregado.

Mas, em contraste com o detalhamento da agroindústria e das frutas, fertilizantes seguem sem uma estratégia própria.

Tecnologia está no centro da Agricultura 4.0, mas Embrapa fica sem política própria

O próprio nome do capítulo deixa clara a aposta tecnológica.

“Agricultura 4.0” reúne propostas relacionadas a inteligência artificial, drones, sensores, robótica, agricultura de precisão, melhoramento genético, rastreabilidade, bioinsumos e gestão inteligente da água.

Para o Semiárido, o programa pretende ampliar irrigação, fertirrigação, automação e uso de energia solar.

Também prevê atração de tecnologia e investimento estrangeiro.

O objetivo é elevar produtividade sem depender exclusivamente da expansão da área plantada.

É uma agenda tecnológica ampla. Mas existe uma pergunta importante: qual será o papel da Embrapa?

A empresa aparece no documento como referência técnica em alguns pontos, mas não recebe uma política institucional própria.

Não há meta de orçamento, compromisso específico de crescimento dos recursos para pesquisa pública ou definição clara de como a Embrapa se encaixaria no projeto de Agricultura 4.0.

O programa aposta fortemente em tecnologia. O papel da principal instituição pública de pesquisa agropecuária do país ainda precisa ser explicado.

Agricultura familiar e cooperativismo ganham espaço próprio

Aqui o programa apresenta algumas de suas propostas mais detalhadas.

O projeto Raízes do Brasil pretende alcançar cerca de 3,9 milhões de estabelecimentos da agricultura familiar.

Entre as propostas estão crédito, assistência técnica, irrigação, cultivo protegido, mecanização, cooperativismo e acesso a mercados.

O objetivo declarado é transformar pequenos produtores em empreendedores rurais e aproximá-los da agroindústria e de cadeias exportadoras.

O cooperativismo também recebe um programa próprio.

O Brasil Cooperativismo estabelece a meta de levar o país a mais de 10 mil cooperativas e 54 milhões de cooperados em dez anos.

A proposta envolve cooperativas agroindustriais, de crédito, seguros, bioenergia, proteína animal e tecnologia. Também prevê a criação de uma Autoridade Nacional do Cooperativismo.

É uma das áreas em que o programa apresenta metas mais claras.

Mas existe novamente uma ausência em um instrumento tradicional. O Pronaf não aparece nominalmente.

Isso deixa uma pergunta sobre como os novos instrumentos de crédito propostos para a agricultura familiar se relacionariam com a estrutura atual de financiamento.

O que o plano de Augusto Cury ainda não responde ao produtor

Depois de passar o documento pelos mesmos critérios utilizados pelo Política e Agro com os demais presidenciáveis, algumas perguntas permanecem.

Qual será o futuro do Plano Safra? Existe proposta para crédito rural de longo prazo, mas falta definir volume, taxas e funcionamento do modelo anual de financiamento.

Como será enfrentado o endividamento rural atual? O programa trabalha para reduzir riscos futuros, mas não apresenta uma solução específica para o passivo existente.

Quanto dinheiro haverá para o Seguro Rural? A ampliação do PSR é prometida, mas orçamento e meta de cobertura não são apresentados.

Qual será a política para fertilizantes? Um dos principais insumos da produção brasileira não ganha estratégia específica.

Como ficarão CAR e execução do Código Florestal? Licenciamento tem proposta mais clara, mas regularização ambiental recebe menos detalhamento.

Quanto deverá crescer a armazenagem e como serão financiadas as 10 mil agroindústrias? As metas de industrialização são ambiciosas, mas faltam valores e estrutura financeira.

Qual será o papel da Embrapa? Tecnologia é uma das bases do programa, mas a principal instituição pública de pesquisa agropecuária não recebe uma política própria.

São perguntas que não anulam as propostas apresentadas. Elas mostram onde o programa ainda precisa avançar da meta ou da intenção para o mecanismo de execução.

O retrato do plano de Augusto Cury para o agro

O programa de Augusto Cury apresenta uma visão ambiciosa para transformar o Brasil de potência agrícola em potência agroindustrial.

A candidatura propõe dobrar a produção de alimentos em oito a dez anos, criar condições para 10 mil agroindústrias, estimular 100 usinas de etanol de milho, ampliar Seguro Rural, armazenagem, irrigação, tecnologia, exportações, agricultura familiar e cooperativismo.

Em algumas áreas, o documento chega a apresentar metas claras e de longo prazo. Agroindustrialização, cooperativismo, frutas, tecnologia e agricultura familiar recebem destaque.

Mas algumas questões centrais da política agrícola tradicional ficam menos definidas.

O Plano Safra não ganha um desenho próprio. O endividamento atual não recebe solução específica. Fertilizantes ficam sem uma estratégia estruturada. CAR aparece sem política própria de validação. E a Embrapa não ganha uma definição institucional ou orçamentária dentro da proposta de Agricultura 4.0.

O retrato, portanto, é de um programa que tem uma visão clara sobre onde pretende levar o agronegócio, produzindo mais, industrializando mais e exportando produtos de maior valor, mas ainda precisa explicar como financiar essa transformação e como resolver problemas que já pressionam o produtor hoje.

É justamente essa diferença entre o que está escrito, o que tem mecanismo, o que possui meta e aquilo que ainda ficou sem resposta que o Política e Agro acompanha nesta série.

Porque, antes de escolher quem vai governar o Brasil, o produtor também precisa saber qual é o projeto de cada candidato para quem produz.

Quem quer governar o Brasil precisa dizer, antes da eleição, o que pretende fazer com o agro.

E o Política e Agro vai abrir cada plano para descobrir.

Nota metodológica: todos os programas desta série foram analisados pelo Política e Agro em 18 de agosto de 2026, considerando as propostas e documentos disponíveis até essa data. Todos os presidenciáveis selecionados são submetidos aos mesmos eixos de análise. O conteúdo não recomenda voto, não estabelece preferência eleitoral e se limita a identificar propostas, metas, mecanismos e questões que permanecem sem resposta específica.

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