Plano Safra oferece R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, mas custo do dinheiro continua elevado e parcela efetivamente equalizada é bem menor que o volume anunciado
O produtor começou a safra 2026/27 com mais dinheiro anunciado para financiar o campo, mas ainda pagando caro para acessar parte dele.
O Plano Safra reservou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, dos quais R$ 384,9 bilhões são destinados a custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões a investimentos. O número é grande, mas não conta sozinho a história do crédito rural nesta temporada.
Em artigo publicado pelo Estadão, o professor e coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, colocou os juros e o modelo de política agrícola entre as “dez pragas” que pressionam atualmente o agronegócio brasileiro. Segundo ele, a Selic chegou a 15% neste ciclo, encarecendo custeio, investimento e rolagem de dívidas. Jank também chama atenção para a ampliação do volume total do Plano Safra acompanhada de redução do crédito equalizado destinado à agricultura empresarial.
Desde a publicação do artigo, a Selic já recuou. O Banco Central reduziu a taxa básica para 14% ao ano em agosto. É uma mudança de direção, mas o patamar continua suficientemente alto para manter o custo financeiro como uma das variáveis mais importantes da safra.
R$ 525 bilhões não significam R$ 525 bilhões de crédito barato
Esse é provavelmente o principal ponto para entender o Plano Safra atual.
O governo anunciou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, mas somente uma parcela desse montante está vinculada aos mecanismos de equalização que permitem ao Tesouro Nacional subsidiar parte da diferença entre o custo do dinheiro e a taxa cobrada do produtor.
A portaria que regulamentou a equalização autorizou 26 instituições financeiras a operar essas linhas. Segundo o Ministério da Agricultura, foram destinados R$ 97,5 bilhões em recursos equalizáveis para médios e grandes produtores e outros R$ 44,3 bilhões para a agricultura familiar.
É justamente essa diferença que aparece na análise de Marcos Jank. O volume total do Plano Safra pode crescer sem que isso signifique, na mesma proporção, expansão do dinheiro subsidiado disponível ao produtor.
Na prática, uma parcela relevante do financiamento da safra depende de recursos captados no mercado e de instrumentos privados, cujo custo sente mais diretamente o ambiente de juros elevados.
Quanto o produtor está pagando?
Para o médio produtor enquadrado no Pronamp, o Plano Safra 2026/27 estabeleceu taxa de 9% ao ano para custeio e reservou R$ 72,6 bilhões em recursos controlados.
Nas linhas de investimento da agricultura empresarial, as taxas variam, de maneira geral, entre 8,5% e 12,5% ao ano, dependendo do programa e da finalidade.
Há condições menores para determinadas políticas. No Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), por exemplo, projetos de até 12 mil toneladas podem ser financiados a 8% ao ano, enquanto os demais chegam a 9,5%.
Produtores que cumprem determinados critérios ambientais e de sustentabilidade também podem obter redução de até um ponto percentual na taxa de custeio, combinando regularidade do Cadastro Ambiental Rural com práticas reconhecidas pelo Ministério da Agricultura.
Na agricultura familiar, a diferença é ainda maior. O Plano Safra reservou R$ 85,2 bilhões para operações do Pronaf, com taxas que chegam a 2% ao ano para o custeio da produção de alimentos e 1% para sistemas agroecológicos, produção orgânica e produtos da sociobiodiversidade.
O problema aparece principalmente quando o produtor precisa sair dessas linhas mais favorecidas.
Selic caiu para 14%, mas ainda mantém o dinheiro caro
O cenário começou a mudar, mas lentamente.
Em agosto, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14% ao ano. O Banco Central justificou a decisão como parte do processo de convergência da inflação, mas indicou que seguirá cauteloso diante das incertezas econômicas.
Para o campo, isso significa que a direção dos juros melhorou, mas o ponto de partida continua elevado.
A diferença é importante porque o produtor rural não olha apenas para a taxa básica. A Selic influencia o custo de captação dos bancos, as operações a taxas livres, o financiamento privado, a rolagem de passivos e até a capacidade do governo de bancar a equalização das taxas do crédito oficial.
Quanto maior a diferença entre o custo de mercado e a taxa cobrada nas linhas subsidiadas, maior tende a ser a necessidade de recursos públicos para sustentar a equalização.
É por isso que juros altos e orçamento do Plano Safra são assuntos que acabam chegando à mesma porteira.
Crédito começou a sair, mas CPR ganhou protagonismo
Os primeiros números da safra ajudam a mostrar como o financiamento rural está mudando.
Em julho, primeiro mês do ciclo 2026/27, a agricultura empresarial contratou R$ 28,2 bilhões em crédito rural. Um dado chama atenção: 66,6% das operações contratadas naquele mês estavam relacionadas à Cédula de Produto Rural, a CPR.
A participação desse instrumento reforça uma transformação que já vinha acontecendo no financiamento do agronegócio. O Plano Safra continua central, especialmente nas linhas controladas e subsidiadas, mas o setor depende cada vez mais de mecanismos privados para completar a necessidade de capital.
Isso também significa que produtores diferentes enfrentam realidades financeiras muito diferentes.
Quem consegue acessar uma linha equalizada pode financiar parte da produção a uma taxa abaixo do custo de mercado. Quem fica fora dela pode enfrentar um crédito consideravelmente mais caro.
E ainda existe a dívida antiga
O desafio desta safra não começa no plantio atual.
Parte dos produtores chega ao ciclo 2026/27 carregando passivos acumulados depois de perdas climáticas, margens menores e dificuldade para honrar financiamentos anteriores.
O governo abriu neste ano uma linha específica para composição de dívidas rurais. A regulamentação permite que determinadas operações sejam reorganizadas e estabelece que a contratação dessa linha, por si só, não impede o produtor de buscar novo crédito rural. A liberação de uma nova operação, entretanto, continua sujeita à análise e à decisão da instituição financeira.
Esse detalhe é fundamental.
Renegociar uma dívida pode reorganizar o passivo, mas não significa automaticamente ter crédito novo liberado para plantar.
O produtor precisa resolver duas contas ao mesmo tempo: o que ficou para trás e o dinheiro necessário para colocar a próxima safra no chão.
O risco é crédito existir no papel e apertar na ponta
O cenário da safra 2026/27, portanto, não é de falta absoluta de recursos.
Há R$ 525,1 bilhões programados para a agricultura empresarial, linhas subsidiadas, Pronamp, programas de investimento e instrumentos privados em expansão.
A questão é a que custo, em qual modalidade e para qual produtor esse dinheiro chegará.
A crítica apresentada por Marcos Jank ajuda a separar duas coisas que frequentemente aparecem misturadas quando o Plano Safra é anunciado: volume de crédito e condição de crédito.
O volume anunciado aumentou. Mas o ambiente financeiro continua restritivo, a Selic está em 14%, o crédito equalizado representa apenas uma parte do total e muitos produtores entram na safra precisando administrar simultaneamente custeio novo e passivos antigos.
Por isso, a queda dos juros iniciada pelo Banco Central é uma notícia relevante para o campo, mas seus efeitos não aparecem de uma hora para outra na conta da propriedade.
Para esta safra, o dinheiro existe. O desafio é saber quanto dele chegará ao produtor em condições compatíveis com a margem que a atividade consegue gerar.








