Com exportações recordes e presença crescente no mercado internacional de alimentos, país precisa fortalecer defesa sanitária, ciência, diplomacia e abertura de mercados para proteger sua produção
O Brasil conquistou uma posição que poucos países têm no comércio mundial de alimentos. Produz para abastecer o mercado interno, gera excedentes em escala suficiente para atender dezenas de países e ocupa posições de liderança em cadeias como soja, milho, açúcar, carnes e café. Mas esse protagonismo também aumenta a exposição do país às disputas comerciais, sanitárias e técnicas que cercam o mercado global.
O alerta foi feito pelo secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Carlos Goulart. Em entrevista à CNN Brasil, ele afirmou que, à medida que o Brasil ampliar sua liderança na produção de alimentos, também estará mais sujeito a pressões e questionamentos técnicos no comércio internacional.
A declaração ocorre em um momento em que o país enfrenta justamente uma dessas disputas com um dos seus principais compradores: a União Europeia.
Quase metade das exportações brasileiras vem do agro
O tamanho dessa exposição aparece nos números.
Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, recorde histórico e equivalente a 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior naquele ano. O superávit do setor chegou a US$ 149,07 bilhões.
A China respondeu sozinha por 32,7% das exportações agropecuárias, com US$ 55,3 bilhões. A União Europeia ficou em segundo lugar, com 14,9%, seguida pelos Estados Unidos, com 6,7%.
Em 2026, o ritmo continuou. Apenas no primeiro trimestre, as exportações do agro ultrapassaram US$ 38 bilhões, novamente com China e União Europeia entre os principais destinos.
Esse peso transforma qualquer barreira comercial relevante em uma questão que vai além da empresa exportadora. Dependendo do produto e do tamanho do mercado afetado, uma restrição pode interromper embarques, alterar preços, exigir novos protocolos e produzir efeitos que chegam até a propriedade rural.
União Europeia mostra como essa disputa acontece
O episódio recente envolvendo a União Europeia ajuda a entender o tamanho do desafio.
Desde maio, o Brasil enfrenta restrições relacionadas às novas exigências europeias sobre o uso de antimicrobianos em produtos de origem animal. O problema atingiu diferentes cadeias e abriu uma longa negociação entre autoridades brasileiras e europeias.
Uma missão da Comissão Europeia esteve no Brasil entre agosto e setembro para verificar os sistemas de controle. Nas cadeias de aves e mel, os procedimentos oficiais brasileiros foram considerados satisfatórios pelas equipes europeias.
Isso, porém, ainda não significa que as exportações estejam automaticamente liberadas.
O Brasil aguarda as próximas etapas do processo regulatório para voltar à lista de países autorizados a fornecer esses produtos ao bloco. Pelo rito ordinário informado pelo secretário, uma decisão poderá passar por reunião do comitê europeu responsável pelo tema em novembro, enquanto o governo brasileiro tenta acelerar o procedimento.
É justamente nesse intervalo entre comprovar tecnicamente a capacidade do sistema brasileiro e conseguir a autorização comercial que aparece uma das principais discussões sobre o futuro do agro exportador.
Soberania também se constrói com ciência e defesa agropecuária
Quando se fala em soberania no agro, a discussão não precisa significar fechar mercados ou entrar em confronto com outros países.
Para um dos maiores fornecedores mundiais de alimentos, soberania também significa ter capacidade de demonstrar, com dados, rastreabilidade, fiscalização e ciência, como o alimento brasileiro é produzido.
Significa manter um sistema de defesa agropecuária capaz de responder rapidamente quando surge uma exigência sanitária. Significa ter laboratórios, técnicos e sistemas de informação que sustentem a posição brasileira em uma negociação internacional.
E significa ter diplomacia comercial preparada para distinguir uma exigência sanitária legítima de uma medida que eventualmente possa ser questionada tecnicamente ou comercialmente.
Essa estrutura se torna ainda mais importante porque o Brasil continuará dependendo do mercado internacional para escoar uma parcela relevante da sua produção.
Diversificar mercados também é proteger o produtor
Existe ainda outra frente dessa soberania: não depender excessivamente de poucos compradores.
Em 2025, quase um terço das exportações do agro brasileiro foi destinado à China. Somada à União Europeia, a participação dos dois mercados chegou perto da metade das vendas externas do setor.
Isso não diminui a importância desses parceiros. Pelo contrário. Mostra por que manter esses mercados é estratégico e, ao mesmo tempo, por que o Brasil busca ampliar destinos.
O país encerrou 2025 com 525 novas aberturas de mercados acumuladas desde 2023. Segundo o Ministério da Agricultura, essas aberturas já haviam gerado aproximadamente US$ 4 bilhões em receitas cambiais adicionais.
Cada mercado adicional funciona também como uma alternativa quando algum comprador fecha temporariamente a porta.
Liderança traz oportunidade, mas também responsabilidade
Não é possível afirmar que toda nova regra sanitária ou ambiental criada por um país importador tenha como objetivo barrar o Brasil. Mercados têm o direito de estabelecer requisitos para os produtos que compram, desde que observem as regras aplicáveis ao comércio internacional.
Mas também seria insuficiente olhar para essas discussões apenas como questões burocráticas.
Alimentos movimentam centenas de bilhões de dólares, sustentam cadeias produtivas inteiras e estão diretamente ligados à segurança alimentar dos países. Nesse ambiente, interesses sanitários, econômicos, ambientais e comerciais frequentemente caminham juntos.
Quanto maior a participação brasileira nesse mercado, maior será a necessidade de estar preparado para esse cenário.
O Brasil já demonstrou capacidade para produzir em escala e conquistar mercados. O próximo desafio é garantir que o mesmo tamanho alcançado dentro da porteira seja acompanhado por uma estrutura igualmente forte fora dela, com defesa sanitária, ciência, rastreabilidade, diplomacia e diversificação comercial.
Porque, para uma potência agroalimentar, soberania não está apenas em produzir. Está também na capacidade de comprovar a qualidade do que produz, defender seus sistemas produtivos e manter abertas as portas dos mercados que ajudam a sustentar o agro brasileiro.







