Oferta-base de R$ 10 bilhões já supera todas as emissões de Fiagros registradas no primeiro semestre de 2026 e reforça avanço do capital privado sobre o crédito do setor
O BTG Pactual prepara uma das maiores operações já estruturadas no mercado de capitais para financiar o agronegócio brasileiro. O novo Fiagro do banco poderá captar até R$ 20 bilhões em sua primeira oferta, em um movimento que ajuda a dimensionar o avanço dos recursos privados no financiamento do setor.
Batizado de Fiagro BTG Pactual I, o fundo prevê uma captação inicial de R$ 10 bilhões, com a possibilidade de emissão de um lote adicional do mesmo tamanho. Se a oferta for integralmente colocada, o volume poderá chegar a R$ 20 bilhões. A captação está prevista para seguir até 30 de novembro.
O tamanho chama atenção especialmente quando comparado ao mercado atual. Segundo dados da Anbima citados pelo InvestNews, todos os Fiagros emitiram juntos R$ 8,3 bilhões durante o primeiro semestre de 2026. Isso significa que apenas a oferta-base do BTG, de R$ 10 bilhões, já supera o volume de emissões registrado pelo segmento nos seis primeiros meses do ano.
Dinheiro privado ganha espaço no financiamento do campo
A operação ocorre em um momento de transformação no modelo de financiamento do agronegócio.
Estudo divulgado pela FGV Agro estima que o setor demanda cerca de R$ 1,2 trilhão por ano em recursos, enquanto o crédito público direcionado cobre aproximadamente um terço dessa necessidade. A diferença ajuda a explicar o crescimento de instrumentos como CPRs, CRAs, LCAs e Fiagros para financiar empresas e produtores.
Nesse cenário, o tamanho da operação do BTG mostra que o mercado de capitais começa a ocupar um espaço cada vez mais relevante ao lado do crédito rural tradicional.
Pelo regulamento do novo fundo, pelo menos 50% do patrimônio deverá ser aplicado em direitos creditórios relacionados à cadeia do agronegócio. A carteira poderá incluir empréstimos e recebíveis de empresas do setor, CRAs, LCAs, imóveis rurais, participações em companhias do agro e cotas de outros Fiagros.
Fundo poderá financiar diferentes elos do agro
Apesar da dimensão da oferta, ainda não estão definidos quais produtores, empresas, propriedades ou safras poderão receber os recursos.
O fundo está em fase pré-operacional e possui um mandato amplo de investimentos. Pelas regras apresentadas, poderá inclusive adquirir créditos originados ou estruturados pelo próprio BTG e por empresas ligadas ao grupo.
Na prática, essa estrutura pode permitir que operações de crédito inicialmente realizadas pelo banco sejam transferidas ao fundo, liberando espaço no balanço do BTG para a realização de novos financiamentos.
O regulamento também permite investimentos em créditos vencidos, em disputa judicial ou relacionados a empresas em recuperação judicial, além de admitir concentração relevante em um mesmo devedor ou grupo econômico.
Oferta mira grandes investidores
A primeira distribuição não será destinada ao investidor comum. A oferta é exclusiva para investidores profissionais, categoria que inclui instituições financeiras, fundos e pessoas físicas ou jurídicas com mais de R$ 10 milhões aplicados e que reconheçam formalmente essa condição.
Os investidores terão cotas seniores, com retornos-alvo correspondentes a 92% ou 97% do CDI. O BTG ou empresas do próprio grupo deverão permanecer com cotas subordinadas equivalentes a pelo menos 1% do patrimônio, responsáveis por absorver inicialmente eventuais perdas da carteira.
O fundo será fechado e terá séries com vencimentos previstos para 2036 e 2037.
Operação pode ser ainda maior no futuro
Os R$ 20 bilhões representam o tamanho máximo apenas da primeira oferta.
O regulamento autoriza que o fundo realize novas emissões de cotas sem necessidade de aprovação em assembleia, até alcançar um limite de R$ 50 bilhões.
Isso não significa que todo esse dinheiro será necessariamente captado ou chegará imediatamente ao campo. A própria primeira distribuição poderá ser encerrada com apenas R$ 100 milhões, caso não haja demanda suficiente pelos investidores.
Ainda assim, o tamanho potencial da operação é um sinal relevante.
Em um setor que precisa de volumes crescentes para financiar custeio, armazenagem, expansão, tecnologia e investimentos, o movimento do BTG mostra que os Fiagros estão deixando de ser instrumentos marginais para assumir uma posição cada vez maior na estrutura de financiamento do agronegócio brasileiro.









