sexta-feira, 11 de setembro de 2026
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Agronegócio

O boom da soja acabou? Milho e biocombustíveis abrem uma nova fronteira para o agro brasileiro

Margens apertadas na soja e avanço do etanol de milho redesenham a expansão do agro brasileiro.

O boom da soja acabou? Milho e biocombustíveis abrem uma nova fronteira para o agro brasileiro
Divulgação

Com margens da soja próximas dos menores níveis dos últimos anos, expansão do etanol muda a lógica do milho e abre espaço para uma cadeia que combina grãos, energia, DDG e proteína animal

Durante duas décadas, boa parte da expansão agrícola brasileira teve uma direção bastante conhecida: mais área, mais soja e mais exportação, principalmente para atender ao crescimento da demanda chinesa. Esse modelo não desapareceu, mas começa a dar sinais claros de maturidade.

A avaliação da Cogo Inteligência em Agronegócio é de que o chamado “boom da soja” chegou ao fim. Isso não significa que o Brasil produzirá menos soja ou perderá sua posição no mercado mundial. Significa que repetir o ritmo de expansão observado nas últimas duas décadas pode se tornar economicamente insustentável diante de uma demanda global que cresce mais devagar e de margens cada vez mais estreitas.

Ao mesmo tempo, outra transformação ocorre dentro do país. O milho, especialmente o de segunda safra, deixa de depender apenas das exportações e da alimentação animal e passa a contar com uma demanda industrial crescente. Etanol, DDG, óleo e outros produtos das biorrefinarias começam a redesenhar a economia do cereal.

O resultado pode ser uma mudança importante na matriz de crescimento do agronegócio brasileiro.

Da margem de 55% para menos de 3%

Os números ajudam a dimensionar a mudança na soja.

Segundo dados apresentados pelo analista Carlos Cogo, a margem líquida da produção sobre o custo total no médio-norte de Mato Grosso chegou a 55,6% na safra 2020/21. Em 2021/22, ainda estava em 43,4%.

Depois disso, a curva mudou rapidamente.

A margem caiu para 8,8% em 2022/23, passou para 9,4% em 2023/24, recuou para 5,4% em 2024/25 e ficou estimada em 3,3% em 2025/26. Para a safra 2026/27, a projeção da Cogo aponta apenas 2,8%.

A soja continua no campo positivo, mas com uma rentabilidade muito diferente daquela que sustentou o forte ciclo de expansão da cultura.

A pressão não vem apenas dos custos. Há uma mudança estrutural do outro lado da equação: a demanda mundial continua crescendo, porém em ritmo menor.

Segundo Cogo, o consumo global de soja chegou a avançar mais de 4% ao ano durante o ciclo de expansão, mas a tendência daqui para frente é de crescimento próximo de 3,2% ao ano.

O movimento é ainda mais relevante na China. As importações chinesas chegaram a crescer 16% ao ano durante o período de forte expansão do consumo de proteína. Agora, a projeção é de crescimento entre 2% e 2,4% ao ano.

A China não deve deixar de comprar soja brasileira. A questão é que dificilmente continuará ampliando suas compras no mesmo ritmo que ajudou a transformar a agricultura brasileira nas últimas décadas.

Menos espaço para expandir soja no mesmo ritmo

Essa mudança coloca um limite econômico para a expansão da área.

Nos últimos 20 anos, segundo a Cogo, a área brasileira de soja cresceu em média 4,4% ao ano. A avaliação da consultoria é de que esse ritmo não combina mais com o crescimento esperado para a demanda.

Uma trajetória considerada mais sustentável seria acrescentar aproximadamente 8,8 milhões de hectares de soja ao longo dos próximos dez anos, crescimento médio próximo de 1,8% ao ano.

Ou seja, não se trata necessariamente de uma retração absoluta da soja. O que tende a diminuir é a velocidade da expansão.

Se a oferta continuar crescendo muito acima da demanda, o ajuste provavelmente aparecerá nos preços e, consequentemente, nas margens do produtor.

É justamente nesse ponto que o milho começa a ganhar outra dimensão.

O milho deixa de ser apenas uma segunda cultura

O Brasil construiu uma vantagem particular na produção de milho: a possibilidade de colher duas grandes culturas na mesma área dentro do mesmo ano agrícola.

Depois da soja de verão, milhões de hectares podem receber milho de segunda safra. Isso dilui o custo da terra e permite ao país ampliar a produção sem necessariamente abrir uma nova fronteira agrícola na mesma proporção.

Agora, essa vantagem agronômica encontra uma nova demanda industrial.

A expansão do etanol de milho vem criando um grande consumidor permanente do cereal dentro das próprias regiões produtoras. Em vez de o milho percorrer milhares de quilômetros até um porto para encontrar demanda, uma parcela crescente pode ser processada próxima das lavouras.

Dados divulgados pela Cogo mostram a dimensão dessa transformação. Em levantamento apresentado em 2025, havia 47 usinas de etanol de milho em operação ou construção no Brasil, principalmente no Centro-Oeste.

Essas unidades já consumiam aproximadamente 22% do milho de segunda safra e produziam 8,2 bilhões de litros de etanol.

A projeção apresentada por Cogo indicava que a expansão dessa indústria poderia ajudar a levar a produção brasileira de milho a 200 milhões de toneladas em um horizonte de dez anos.

Etanol muda também o preço do milho

A transformação não ocorre apenas no volume consumido.

Historicamente, o milho produzido em regiões do Centro-Oeste sofria descontos importantes em relação aos preços praticados próximos aos portos e aos grandes centros consumidores. A distância e o custo do frete pesavam sobre a remuneração do produtor.

A instalação das usinas modifica essa relação.

As biorrefinarias precisam comprar grandes volumes de milho continuamente. Isso cria uma demanda regional mais previsível e reduz a dependência exclusiva da exportação para absorver os excedentes.

A Cogo aponta que esse movimento já ajuda a diminuir os diferenciais de preços entre regiões produtoras e consumidoras, sustentando as cotações no interior.

Para o agricultor, portanto, o etanol representa mais do que um novo comprador. Ele pode alterar estruturalmente a formação do preço do milho.

Uma tonelada de milho passa a gerar vários mercados

Há outra diferença importante entre simplesmente exportar milho e transformá-lo industrialmente.

A biorrefinaria não vende apenas etanol.

Do processamento surgem também DDG e DDGS, ingredientes ricos em proteína utilizados na alimentação animal, além de óleo de milho e outros produtos. Assim, o mesmo grão passa a abastecer diferentes mercados.

Na indústria brasileira analisada pela Cogo, entre janeiro de 2020 e junho de 2026, o etanol respondeu, em média, por 68,1% da receita das operações simuladas. O DDG representou outros 25,9%, enquanto o óleo respondeu por aproximadamente 6%.

Isso ajuda a explicar por que o DDG deixou de ser visto simplesmente como resíduo da fabricação de etanol.

Ele passou a ser um coproduto estratégico.

Durante o processamento, o amido do milho é utilizado na fermentação para produzir o álcool. Parte dos demais componentes do cereal, incluindo proteínas, fibras e lipídios, permanece concentrada no DDG.

O resultado é um ingrediente que pode ser utilizado na formulação de dietas para bovinos, aves e suínos, criando uma ligação direta entre a indústria de biocombustíveis e a produção brasileira de proteína animal.

DDG pode virar uma nova frente de exportação

O mercado doméstico não é o único destino.

Projeções reproduzidas pela Cogo indicam que o consumo brasileiro de DDG pode passar de cerca de 3,9 milhões de toneladas em 2026 para 5,7 milhões em 2031, crescimento médio anual de 7,9%.

Nas exportações, o avanço projetado é ainda maior.

Os embarques podem saltar de 1,2 milhão de toneladas em 2026 para 4,6 milhões em 2031, uma expansão média próxima de 24% ao ano.

Isso cria uma dinâmica diferente daquela construída durante o boom da soja. O Brasil deixa de depender apenas da venda do grão e passa a agregar valor antes de parte dessa produção chegar ao mercado internacional.

E há ainda um efeito dentro da porteira.

Quanto maior a disponibilidade de DDG nas regiões produtoras, maior a possibilidade de integração com confinamentos, granjas, suinocultura e outras cadeias de proteína animal. A expansão da indústria de milho pode, portanto, ajudar a ampliar a competitividade da própria pecuária brasileira.

O novo mapa do agro pode ser mais industrial

O que está acontecendo com soja e milho ajuda a revelar uma transformação maior.

Durante muitos anos, o crescimento brasileiro esteve fortemente associado ao aumento da produção e da exportação de commodities agrícolas. Esse modelo continuará importante, mas a próxima fase pode depender cada vez mais da capacidade de transformar a produção dentro do país.

Na soja, essa lógica passa pelo crescimento do esmagamento, do biodiesel e do farelo. No milho, envolve etanol, DDG, óleo e integração com a proteína animal.

A mudança é relevante porque cria diferentes fontes de demanda para uma mesma produção agrícola.

Em vez de depender apenas do comprador internacional de grãos, o produtor passa a estar conectado também ao mercado de combustíveis, às biorrefinarias e à indústria de alimentação animal.

A soja continuará sendo protagonista da agricultura brasileira e a China continuará sendo um mercado essencial. O que os números da Cogo mostram é que a fase em que simplesmente ampliar a área de soja garantia a continuidade do crescimento está ficando para trás.

O próximo ciclo pode ser mais complexo. O Brasil continuará produzindo grãos, mas uma parcela cada vez maior deles poderá deixar a fazenda com destino não apenas aos portos, mas às indústrias instaladas no próprio interior.

Se o boom das últimas décadas foi marcado pela soja brasileira abastecendo o mundo, a nova fronteira pode estar na capacidade de transformar milho e soja em energia, proteína, coprodutos e valor agregado antes mesmo de chegar ao mercado externo.

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