Com margens da soja próximas dos menores níveis dos últimos anos, expansão do etanol muda a lógica do milho e abre espaço para uma cadeia que combina grãos, energia, DDG e proteína animal
Durante duas décadas, boa parte da expansão agrícola brasileira teve uma direção bastante conhecida: mais área, mais soja e mais exportação, principalmente para atender ao crescimento da demanda chinesa. Esse modelo não desapareceu, mas começa a dar sinais claros de maturidade.
A avaliação da Cogo Inteligência em Agronegócio é de que o chamado “boom da soja” chegou ao fim. Isso não significa que o Brasil produzirá menos soja ou perderá sua posição no mercado mundial. Significa que repetir o ritmo de expansão observado nas últimas duas décadas pode se tornar economicamente insustentável diante de uma demanda global que cresce mais devagar e de margens cada vez mais estreitas.
Ao mesmo tempo, outra transformação ocorre dentro do país. O milho, especialmente o de segunda safra, deixa de depender apenas das exportações e da alimentação animal e passa a contar com uma demanda industrial crescente. Etanol, DDG, óleo e outros produtos das biorrefinarias começam a redesenhar a economia do cereal.
O resultado pode ser uma mudança importante na matriz de crescimento do agronegócio brasileiro.
Da margem de 55% para menos de 3%
Os números ajudam a dimensionar a mudança na soja.
Segundo dados apresentados pelo analista Carlos Cogo, a margem líquida da produção sobre o custo total no médio-norte de Mato Grosso chegou a 55,6% na safra 2020/21. Em 2021/22, ainda estava em 43,4%.
Depois disso, a curva mudou rapidamente.
A margem caiu para 8,8% em 2022/23, passou para 9,4% em 2023/24, recuou para 5,4% em 2024/25 e ficou estimada em 3,3% em 2025/26. Para a safra 2026/27, a projeção da Cogo aponta apenas 2,8%.
A soja continua no campo positivo, mas com uma rentabilidade muito diferente daquela que sustentou o forte ciclo de expansão da cultura.
A pressão não vem apenas dos custos. Há uma mudança estrutural do outro lado da equação: a demanda mundial continua crescendo, porém em ritmo menor.
Segundo Cogo, o consumo global de soja chegou a avançar mais de 4% ao ano durante o ciclo de expansão, mas a tendência daqui para frente é de crescimento próximo de 3,2% ao ano.
O movimento é ainda mais relevante na China. As importações chinesas chegaram a crescer 16% ao ano durante o período de forte expansão do consumo de proteína. Agora, a projeção é de crescimento entre 2% e 2,4% ao ano.
A China não deve deixar de comprar soja brasileira. A questão é que dificilmente continuará ampliando suas compras no mesmo ritmo que ajudou a transformar a agricultura brasileira nas últimas décadas.
Menos espaço para expandir soja no mesmo ritmo
Essa mudança coloca um limite econômico para a expansão da área.
Nos últimos 20 anos, segundo a Cogo, a área brasileira de soja cresceu em média 4,4% ao ano. A avaliação da consultoria é de que esse ritmo não combina mais com o crescimento esperado para a demanda.
Uma trajetória considerada mais sustentável seria acrescentar aproximadamente 8,8 milhões de hectares de soja ao longo dos próximos dez anos, crescimento médio próximo de 1,8% ao ano.
Ou seja, não se trata necessariamente de uma retração absoluta da soja. O que tende a diminuir é a velocidade da expansão.
Se a oferta continuar crescendo muito acima da demanda, o ajuste provavelmente aparecerá nos preços e, consequentemente, nas margens do produtor.
É justamente nesse ponto que o milho começa a ganhar outra dimensão.
O milho deixa de ser apenas uma segunda cultura
O Brasil construiu uma vantagem particular na produção de milho: a possibilidade de colher duas grandes culturas na mesma área dentro do mesmo ano agrícola.
Depois da soja de verão, milhões de hectares podem receber milho de segunda safra. Isso dilui o custo da terra e permite ao país ampliar a produção sem necessariamente abrir uma nova fronteira agrícola na mesma proporção.
Agora, essa vantagem agronômica encontra uma nova demanda industrial.
A expansão do etanol de milho vem criando um grande consumidor permanente do cereal dentro das próprias regiões produtoras. Em vez de o milho percorrer milhares de quilômetros até um porto para encontrar demanda, uma parcela crescente pode ser processada próxima das lavouras.
Dados divulgados pela Cogo mostram a dimensão dessa transformação. Em levantamento apresentado em 2025, havia 47 usinas de etanol de milho em operação ou construção no Brasil, principalmente no Centro-Oeste.
Essas unidades já consumiam aproximadamente 22% do milho de segunda safra e produziam 8,2 bilhões de litros de etanol.
A projeção apresentada por Cogo indicava que a expansão dessa indústria poderia ajudar a levar a produção brasileira de milho a 200 milhões de toneladas em um horizonte de dez anos.
Etanol muda também o preço do milho
A transformação não ocorre apenas no volume consumido.
Historicamente, o milho produzido em regiões do Centro-Oeste sofria descontos importantes em relação aos preços praticados próximos aos portos e aos grandes centros consumidores. A distância e o custo do frete pesavam sobre a remuneração do produtor.
A instalação das usinas modifica essa relação.
As biorrefinarias precisam comprar grandes volumes de milho continuamente. Isso cria uma demanda regional mais previsível e reduz a dependência exclusiva da exportação para absorver os excedentes.
A Cogo aponta que esse movimento já ajuda a diminuir os diferenciais de preços entre regiões produtoras e consumidoras, sustentando as cotações no interior.
Para o agricultor, portanto, o etanol representa mais do que um novo comprador. Ele pode alterar estruturalmente a formação do preço do milho.
Uma tonelada de milho passa a gerar vários mercados
Há outra diferença importante entre simplesmente exportar milho e transformá-lo industrialmente.
A biorrefinaria não vende apenas etanol.
Do processamento surgem também DDG e DDGS, ingredientes ricos em proteína utilizados na alimentação animal, além de óleo de milho e outros produtos. Assim, o mesmo grão passa a abastecer diferentes mercados.
Na indústria brasileira analisada pela Cogo, entre janeiro de 2020 e junho de 2026, o etanol respondeu, em média, por 68,1% da receita das operações simuladas. O DDG representou outros 25,9%, enquanto o óleo respondeu por aproximadamente 6%.
Isso ajuda a explicar por que o DDG deixou de ser visto simplesmente como resíduo da fabricação de etanol.
Ele passou a ser um coproduto estratégico.
Durante o processamento, o amido do milho é utilizado na fermentação para produzir o álcool. Parte dos demais componentes do cereal, incluindo proteínas, fibras e lipídios, permanece concentrada no DDG.
O resultado é um ingrediente que pode ser utilizado na formulação de dietas para bovinos, aves e suínos, criando uma ligação direta entre a indústria de biocombustíveis e a produção brasileira de proteína animal.
DDG pode virar uma nova frente de exportação
O mercado doméstico não é o único destino.
Projeções reproduzidas pela Cogo indicam que o consumo brasileiro de DDG pode passar de cerca de 3,9 milhões de toneladas em 2026 para 5,7 milhões em 2031, crescimento médio anual de 7,9%.
Nas exportações, o avanço projetado é ainda maior.
Os embarques podem saltar de 1,2 milhão de toneladas em 2026 para 4,6 milhões em 2031, uma expansão média próxima de 24% ao ano.
Isso cria uma dinâmica diferente daquela construída durante o boom da soja. O Brasil deixa de depender apenas da venda do grão e passa a agregar valor antes de parte dessa produção chegar ao mercado internacional.
E há ainda um efeito dentro da porteira.
Quanto maior a disponibilidade de DDG nas regiões produtoras, maior a possibilidade de integração com confinamentos, granjas, suinocultura e outras cadeias de proteína animal. A expansão da indústria de milho pode, portanto, ajudar a ampliar a competitividade da própria pecuária brasileira.
O novo mapa do agro pode ser mais industrial
O que está acontecendo com soja e milho ajuda a revelar uma transformação maior.
Durante muitos anos, o crescimento brasileiro esteve fortemente associado ao aumento da produção e da exportação de commodities agrícolas. Esse modelo continuará importante, mas a próxima fase pode depender cada vez mais da capacidade de transformar a produção dentro do país.
Na soja, essa lógica passa pelo crescimento do esmagamento, do biodiesel e do farelo. No milho, envolve etanol, DDG, óleo e integração com a proteína animal.
A mudança é relevante porque cria diferentes fontes de demanda para uma mesma produção agrícola.
Em vez de depender apenas do comprador internacional de grãos, o produtor passa a estar conectado também ao mercado de combustíveis, às biorrefinarias e à indústria de alimentação animal.
A soja continuará sendo protagonista da agricultura brasileira e a China continuará sendo um mercado essencial. O que os números da Cogo mostram é que a fase em que simplesmente ampliar a área de soja garantia a continuidade do crescimento está ficando para trás.
O próximo ciclo pode ser mais complexo. O Brasil continuará produzindo grãos, mas uma parcela cada vez maior deles poderá deixar a fazenda com destino não apenas aos portos, mas às indústrias instaladas no próprio interior.
Se o boom das últimas décadas foi marcado pela soja brasileira abastecendo o mundo, a nova fronteira pode estar na capacidade de transformar milho e soja em energia, proteína, coprodutos e valor agregado antes mesmo de chegar ao mercado externo.










