segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Agro Agora
Dólar PTAX · BRBrasilR$ 5,1859 +0,43%Soja · SCChapecóR$ 138,00 +1,32%Milho · GORio VerdeR$ 53,40 0,00%Milho · MTCáceresR$ 52,80 0,00%Milho · MSCampo GrandeR$ 73,80 0,00%Milho · SPAvaréR$ 61,80 0,00%

Proteína Animal

Carne brasileira entra em setembro sob pressão dos Estados Unidos e da União Europeia

Trump amplia temporariamente a cota para importação de carne bovina e pressiona grandes frigoríficos, enquanto novas regras europeias sobre antimicrobianos entram em vigor.

Carne brasileira entra em setembro sob pressão dos Estados Unidos e da União Europeia
Divulgação

Trump amplia temporariamente a cota para importação de carne bovina e aumenta pressão sobre grandes frigoríficos, enquanto novas exigências europeias sobre antimicrobianos passam a valer em 3 de setembro

A carne brasileira entra em setembro diante de duas frentes que podem mexer com uma das principais cadeias exportadoras do agronegócio nacional.

Nos Estados Unidos, o governo Donald Trump ampliou temporariamente em 300 mil toneladas a cota de importação de determinados cortes bovinos magros dentro da tarifa reduzida, numa tentativa de aumentar a oferta e conter os preços para o consumidor americano. Ao mesmo tempo, Trump elevou a pressão política sobre a concentração da indústria frigorífica, mercado em que grupos brasileiros têm presença relevante.

Do outro lado do Atlântico, o desafio é regulatório. A União Europeia passa a aplicar, em 3 de setembro, novas regras relacionadas ao uso de antimicrobianos em produtos de origem animal importados pelo bloco. Para continuar habilitado em determinadas categorias, o país exportador precisa apresentar garantias de que seus sistemas de produção e controle atendem às exigências europeias.

São movimentos diferentes, mas que colocam o Brasil diante do mesmo desafio: manter competitividade e acesso aos principais mercados internacionais de proteína animal.

Trump amplia importação para tentar reduzir preço da carne

A primeira pressão vem dos Estados Unidos.

Em 26 de agosto, Trump assinou uma proclamação aumentando temporariamente em 300 mil toneladas a quantidade de determinados cortes bovinos magros que poderão entrar no país dentro da cota tarifária.

A medida será dividida em três etapas de 100 mil toneladas. A primeira começa em 1º de setembro, a segunda em outubro e a terceira no fim de outubro. Segundo a Casa Branca, o objetivo é ampliar a oferta utilizada principalmente na produção de carne moída e tentar reduzir os preços pagos pelo consumidor americano.

O próprio governo dos Estados Unidos reconhece que o mercado enfrenta uma combinação de oferta menor e demanda elevada. A Casa Branca afirma que o rebanho americano caiu ao menor nível em 75 anos e cita uma previsão do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos de redução de aproximadamente 4% na produção de carne bovina em 2026 na comparação com o ano anterior.

Para exportadores habilitados a vender aos Estados Unidos, a abertura temporária representa espaço adicional no mercado americano. A proclamação estabelece que as 300 mil toneladas adicionais serão destinadas à categoria de “outros países ou áreas” elegíveis e administradas por ordem de chegada.

Ao mesmo tempo, Trump aumenta pressão sobre grandes frigoríficos

A tentativa de reduzir o preço da carne não está restrita às importações.

Trump também passou a pressionar a concentração da indústria americana de processamento e anunciou medidas para facilitar a atuação de produtores e empresas menores no processamento de alimentos.

O setor de carne bovina dos Estados Unidos é altamente concentrado. Tyson Foods, Cargill, JBS USA e National Beef estão entre as quatro maiores companhias do segmento.

É justamente aí que a discussão americana alcança diretamente empresas de origem brasileira.

A JBS USA integra o grupo JBS, enquanto a National Beef está ligada à MBRF.

A situação cria duas frentes simultâneas para o Brasil. Enquanto a ampliação temporária da cota pode representar oportunidade adicional para exportadores de carne, a pressão política sobre a concentração do processamento coloca grupos brasileiros que atuam nos Estados Unidos no centro de um debate sobre concorrência.

Para a cadeia brasileira, portanto, acompanhar a política americana passa a significar observar não apenas quanto os Estados Unidos pretendem importar, mas também como Washington tratará as empresas que já operam dentro do país.

Europa aumenta exigências sobre antimicrobianos

Enquanto os Estados Unidos discutem oferta, preço e concorrência, a União Europeia aumenta as exigências relacionadas à sanidade e à rastreabilidade.

A partir de 3 de setembro de 2026, passa a ser aplicado o Regulamento de Execução 2024/2598, que estabelece a lista de países autorizados a enviar determinados animais e produtos de origem animal ao mercado europeu de acordo com as regras do bloco sobre o uso de antimicrobianos.

A legislação europeia proíbe o uso de determinados medicamentos antimicrobianos para promoção de crescimento ou aumento de rendimento dos animais e estabelece restrições relacionadas a substâncias reservadas ao tratamento de determinadas infecções humanas.

Para exportar os produtos alcançados pela regulamentação, os países precisam demonstrar que seus sistemas de controle atendem às exigências europeias.

Não se trata apenas de uma análise do produto quando ele chega ao porto.

A Comissão Europeia estabelece que países exportadores de produtos de origem animal precisam manter sistemas oficiais de controle, garantir rastreabilidade ao longo da cadeia e possuir procedimentos confiáveis de certificação das cargas destinadas ao bloco.

Rastreabilidade passa a ser decisiva

É nesse ponto que a nova exigência europeia pode representar um desafio especialmente relevante para algumas cadeias brasileiras.

Para comprovar que um produto atende às regras relacionadas aos antimicrobianos, não basta controlar apenas a etapa final dentro do frigorífico.

É necessário conseguir demonstrar o histórico da produção.

Na pecuária bovina, esse processo tende a ser mais complexo porque um mesmo animal pode passar pelas etapas de cria, recria e engorda em propriedades diferentes antes de chegar ao abate.

Isso exige que informações sobre manejo e utilização de medicamentos acompanhem o animal ao longo da cadeia.

Em setores mais verticalizados ou com ciclos produtivos menores, como a avicultura, a estrutura de integração pode facilitar a implementação de controles, embora a adequação continue dependendo da capacidade de comprovar o cumprimento das regras exigidas pelo mercado europeu.

A questão central passa a ser documental.

Produzir dentro das exigências é apenas uma parte do processo. O exportador também precisa conseguir demonstrar, por meio de sistemas auditáveis, que essas regras foram cumpridas.

Estados Unidos e Europa pressionam por razões diferentes

As duas frentes não devem ser confundidas.

Nos Estados Unidos, o problema imediato é econômico.

A oferta de carne bovina está pressionada, os preços permanecem elevados e o governo busca aumentar as importações ao mesmo tempo em que questiona a concentração da indústria frigorífica.

Na União Europeia, a discussão é sanitária e regulatória.

O bloco exige garantias relacionadas ao uso de antimicrobianos, rastreabilidade e funcionamento dos sistemas oficiais de controle dos países exportadores.

Para o Brasil, porém, as duas situações convergem para um mesmo ponto: acesso a mercado deixou de depender apenas de preço e capacidade de produção.

É preciso também atender regras sanitárias, comprovar processos, responder rapidamente a mudanças regulatórias e acompanhar decisões políticas tomadas pelos principais parceiros comerciais.

O desafio brasileiro vai além de produzir mais carne

O Brasil construiu uma das maiores cadeias de proteína animal do mundo apoiado em escala, produtividade, sanidade e capacidade de exportação.

Agora, o ambiente internacional exige uma camada adicional de competitividade.

Rastreabilidade, certificação, sistemas digitais de controle, defesa agropecuária e diplomacia sanitária ganham importância à medida que os mercados importadores estabelecem novas condições de acesso.

Ao mesmo tempo, movimentos políticos dentro dos países compradores podem alterar rapidamente as oportunidades comerciais.

A decisão americana de aumentar temporariamente a cota de importação mostra isso. Uma pressão inflacionária doméstica pode abrir espaço adicional para fornecedores estrangeiros.

A discussão europeia mostra o movimento contrário. Uma mudança regulatória pode restringir o acesso caso o país exportador não consiga demonstrar conformidade.

É por isso que setembro começa com a carne brasileira sendo observada em dois dos mercados mais importantes do mundo por razões completamente diferentes.

Nos Estados Unidos, o Brasil pode encontrar uma oportunidade comercial em meio à tentativa de reduzir o preço da carne, enquanto grupos brasileiros que operam naquele mercado enfrentam maior pressão política sobre a concentração do processamento.

Na União Europeia, o desafio é demonstrar que as cadeias brasileiras conseguem atender e comprovar as novas exigências relacionadas aos antimicrobianos.

O Brasil já mostrou que sabe produzir proteína animal em escala global.

A próxima disputa será também pela capacidade de provar como produz, adaptar-se às regras e negociar para manter os mercados abertos.

Afinidade de tema

Continue lendo

Atualização contínua

Últimas notícias