Na última metade de século XX a economia brasileira rumou para um caminho de uma profunda e silenciosa metamorfose em sua estrutura produtiva que condenou ao ostracismo a indústria de transformação, outrora o motor do desenvolvimento nacional e o símbolo da modernização econômica, cedendo ao agronegócio o posto de principal vetor de crescimento econômico e gerador de superávits comerciais. Esta suposta reconfiguração, frequentemente celebrada como um triunfo da eficiência do setor, esconde, no entanto, uma fragilidade estrutural, quase que ontológica, que ameaça a própria soberania do país: a crescente e perigosa dependência de insumos e fatores tecnológicos externos, notadamente fertilizantes, cuja oferta é controlada por um punhado de países geopoliticamente instáveis.
O que aqui esse pobre economista tenta descrever não é, propriamente, uma fatalidade histórica ou uma decorrência inevitável das leis de mercado. Mas sim, o resultado de opções (im)políticas deliberadas que, ao longo de diferentes governos, desprezaram a construção de uma base industrial e tecnológica autônoma, ao invés de números para campanhas eleitoreiras e preferindo o atalho da especialização regressiva em commodities agrícolas e extrativas.
Nossos estudos reconhecem e exaltam em primeiro lugar a genialidade do produtor rural e o notável trabalho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que desenvolveram tecnologias adaptadas ao clima tropical e transformaram um país continental em um dos celeiros do mundo, contudo, as práticas de outrora, hoje não são suficientes para que o nosso posto esteja preservado para as próximas décadas. Sendo assim, esta coluna, é antes de tudo, uma denúncia e propõe analisar de forma científica o padrão de desenvolvimento em voga, examinando suas causas, consequências e os riscos que ele impõe à segurança alimentar, à estabilidade macroeconômica e à soberania nacional do Brasil e sobretudo, a prosperidade do agronegócio.
É mister lembrar que o processo de desindustrialização brasileiro é um fenômeno bem documentado e amplamente reconhecido pela literatura econômica, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que mostram a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB), que atingiu patamares superiores a 20% na década de 1980, e foi reduzida a cerca de 11,3% em anos recentes, sendo o valor mais baixo da série histórica. Já na década de 1990 com a abertura comercial e financeira, esse processo cresce a níveis logarítmicos, e foram descritos pelos meus colegas de profissão como uma “desindustrialização precoce”, uma vez que ocorre em um patamar de renda per capita relativamente baixo, interrompendo o ciclo natural de desenvolvimento que países como os Estados Unidos, a Coreia do Sul e os tigres asiáticos experimentaram em estágios muito mais avançados de sua industrialização.
Paradoxalmente, enquanto a indústria definhava, o agronegócio brasileiro protagonizava uma revolução silenciosa, porém fulminante, a qual sua engrenagem motriz, a Embrapa, criada em 1973, agiu como peça fundamental nesse processo, desenvolvendo tecnologias que permitiram a adaptação de culturas aos trópicos e transformaram o Brasil em um dos maiores produtores mundiais de grãos, fazendo com que a produção agrícola crescesse de forma exponencial. E qual o resultado dessa combinação se não uma “especialização regressiva” da estrutura produtiva brasileira, caracterizada pela perda de densidade das cadeias de produção, em que a indústria extrativa, puxada pela produção de petróleo, gás natural (o qual a produção de nitrogenados é intensiva, respondendo em média por 70% do custo da ureia), minério de ferro, e a agropecuária ganharam peso relativo na economia, enquanto a indústria de transformação, que gera empregos qualificados, fomenta a inovação e agrega valor à produção nacional, perdeu espaço.
Além disso, o setor, é continuamente penalizado pelos juros altos e pela maior entrada de produtos importados, com aumento de custos em várias frentes, como o encarecimento de insumos e matérias-primas por conta da guerra no Oriente Médio e a elevação da tributação. “Os custos não param de subir e o ambiente é cheio de incertezas”, afirma o superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra.
E contrariando todas as certezas de fracasso, o agronegócio como um todo, incluindo indústrias e serviços a ele ligados, já representa cerca de 24,4% do PIB, e cálculos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indicam que, em 2025, níveis superiores a 25%, em contrapartida, a indústria como um todo, incluindo a extrativa, responde por 23,4% do PIB. Este sucesso, no entanto, esconde uma vulnerabilidade crítica, pois, se o Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes, e sua dependência externa é alarmante consumindo 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes, das quais 43,3 milhões foram importadas, uma dependência externa de 88%, os volumes adquiridos no exterior geraram um desembolso anual estimado em cerca de US$ 25 bilhões e tal dependência torna-se ainda mais aguda quando analisamos cada nutriente primário: o Brasil importa cerca de 97% do potássio que consome, 95% do nitrogênio e 75% do fósforo em contrapartida a produção doméstica de nitrogênio é de apenas 8%, de fósforo 44% e de potássio 3%.
É sabido que mercado global de fertilizantes é altamente concentrado, tendo a Rússia, a China, o Canadá e Marrocos controlando a maior parte da oferta mundial de potássio, fosfato e nitrogênio, de modo que cerca de 45% das nossas importações têm origem em regiões com maior instabilidade. A China, que em 2025 ultrapassou a Rússia como principal fornecedora do Brasil, respondendo por 25% das importações, é ao mesmo tempo um parceiro comercial e um concorrente que busca reduzir sua própria dependência de importações de soja.
Para além: o Brasil depende de rotas marítimas sensíveis, como os Estreitos de Hormuz e de Suez, por onde transitam entre 38% e 40% da ureia comercializada globalmente. O acirramento das tensões no Oriente Médio em 2025 e 2026 elevou o frete internacional e o seguro das cargas, impactando diretamente os custos de produção. A ureia granular FOB Oriente Médio atingiu pico de USD 850/t em abril de 2026, alta de praticamente 100% sobre o patamar de USD 381/t de maio de 2025.
Ao contrário de países como China, Coreia do Sul e Estados Unidos, o Brasil não possui uma política industrial consistente para o setor de fertilizantes, isso é notório desde a decisão da Petrobras de abandonar o mercado de fertilizantes desativando a unidade de Araucária (PR) na década de 2010, e persistindo sob diferentes governos, foi um retrocesso significativo, bem como a privatização e o arrendamento de ativos estratégicos para a Unigel, sem a garantia de continuidade da produção, como foi visto com a paralisação em 2023, evidenciaram a falta de visão de longo prazo. Na mesma toada vimos a saída da Ford do Brasil em 2021, encerrando suas operações em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE), é um símbolo contundente desse esvaziamento industrial, mas está longe de serem os únicos.
E ainda que se tente estancar tal ferida, como o esforço da Embrapa em desenvolver pesquisas promissoras em bioinsumos, como o projeto “Bioinsumos a partir de lignina Kraft e minerais para fertilidade, proteção e sustentabilidade do solo (LIGNONEMAINPUTS)”, com um inoculante solubilizador de fosfato capaz de aumentar a absorção de fósforo pelas plantas, esses avanços ainda são incipientes e não têm o poder de substituir, no curto e médio prazo, a imensa demanda por fertilizantes químicos importados.
Como exemplo podemos verificar que em abril de 2025, eram necessárias 2,25 sacas de café arábica para adquirir uma tonelada de fertilizante; já em maio de 2026, segundo projeção do banco holandês Rabobank, em março de 2026 eram necessárias 4,66 sacas de café arábica para obter uma tonelada de fertilizante; em abril, esse volume aumentou para 4,97 sacas, indicando uma perda no poder de troca do produtor.
Encarecimentos desse tipo aumentam a insegurança para o homem do campo que lida com fatores aos quais não vê, e leva a compressão de margens e, inevitavelmente, pressiona os preços ao consumidor final. A CNA já reporta que, em algumas regiões, o custo operacional efetivo do café por saca aumentou 33,7%, puxado principalmente por fertilizantes (15,3%) e corretivos (10,1%).
A relação de troca do café com o MAP fosfatado, que variava entre 2,5 e 3,5 sacas por tonelada em 2025, passou para 3,5 a 4,5 sacas em 2026, nesse caso, como o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza em suas lavouras, qualquer instabilidade nas rotas marítimas globais encarece o produto rapidamente. O frete internacional e o seguro das cargas subiram, elevando o custo por hectare, fato este que faz com que os produtores projetassem um aumento significativo nos custos ao longo da safra 2025/26, com altas entre 20% e 30%, impulsionadas principalmente pelo encarecimento dos insumos e da logística.
O que se vê, portanto, é um ciclo perverso: o Brasil produz mais café, a safra contudo, depende de insumos cada vez mais caros e voláteis, o que se reflete no preço final dos alimentos e na compressão das margens dos produtores.
A continuidade deste estado de vulnerabilidade é, em grande medida, fruto da ineficiência e da falta de continuidade das políticas públicas ao longo de diferentes governos, ao fazermos a análise histórica do processo de desindustrialização no Brasil mostra que, entre 1990 e 2010, período que compreende desde a abertura comercial até a consolidação da reprimarização da pauta exportadora durante o boom das commodities, não houve uma política consistente de desenvolvimento industrial.
O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), lançado em 2022, no governo de Jair Bolsonaro, e mantido pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, é o exemplo mais emblemático da dificuldade de se implementar políticas de longo prazo no Brasil, possuindo por meta reduzir a dependência externa de fertilizantes dos atuais 85% para 45% ou 50% até 2050. Além da meta principal, o plano traçou metas intermediárias que foi a de reduzir a dependência das importações para 70% até 2030. Já o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), por sua vez, que destinará até R$ 10 bilhões em subsídios ao setor entre 2027 e 2031, é considerado um avanço, mas insuficiente diante da magnitude do desafio. E ainda que a Petrobras tenha decidido reativar a Araucária Nitrogenados (Ansa) e a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3 (UFN 3), ainda que positiva, é tardia e não resolve a dependência imediata.
A estatal vem, desde 2025, retomando projetos paralisados há anos. São quatro as fábricas que, juntas, poderão atender 35% do mercado interno de ureia a partir de 2029. A primeira fábrica é a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen), de Laranjeiras, em Sergipe, cuja operação começou no fim de dezembro de 2025, produzindo amônia (insumo para a ureia). No mês seguinte, iniciou a fabricação de fertilizantes, com capacidade para 1,8 mil toneladas diárias de ureia, volume que representa 7% do mercado interno. Também em janeiro de 2026, a Fafen de Camaçari, na Bahia, começou a produzir amônia e cerca de 1,3 mil toneladas por dia de ureia. Juntas, as Fafens do Nordeste exigiram aportes de R$ 38 milhões em investimentos iniciais cada uma. No Paraná, a Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa), unidade da Petrobras que estava hibernando desde 2020, retomou a produção.
No entanto, esses projetos ainda são incipientes e primários e apenas exterioram a saída da inércia das unidades da Petrobras e esperada conclusão dos projetos em andamento, afim de que a dependência externa de nitrogenados possa cair de 97% para 59% e a de fosfatados, de 70% para 38% até 2032.
Em relação aos nossos concorrentes ao posto de celeiro do mundo é elucidativo o abandono a que o produtor rural brasileiro está submetido. Enquanto a China subvenciona 37% de seus agricultores, os Estados Unidos 15%, a Índia 14% e a União Europeia 13%, o Brasil destina apenas 3%. O suporte aos produtores (PSE) no Brasil em 2020 era de apenas 1,35% da receita bruta do agricultor, enquanto na União Europeia era de 19,3%, na China de 12,1% e nos EUA de 11%.
Em 2024, o governo chinês destinou 54,7 bilhões de yuans (cerca de U$ 7,5 bilhões apenas em subsidios para prêmios de seguros agrícolas, além de manter um vasto programa de subsidios diretos para produtores de milho, soja e arroz.
Já os Estados Unidos, por sua vez, aprovaram em 2025 o “One Big Beautiful Bill Act” (OBBB), que aumentará os gastos com programas agrícolas em U$ 65,5 bilhões nos próximos 10 anos. A aprovação da FarmBill em 2026, segundo Zippy Duvall, da American Farm Bureau Federation (AFBF), implicará em “atualizações importantes em pesquisa e conservação, bem como o aumento dos limites de crédito e maior clareza sobre o comércio interestadual, ajudarão os agricultores a enfrentar os desafios atuais”, disse em comunicado.
Em contraste, o suporte aos produtores brasileiros é ínfimo. O seguro rural cobre apenas 3% da área plantada no Brasil. Dos cerca de 82 milhões de hectares plantados no Brasil em 2025, apenas 3,2 milhões estavam segurados.
Os países entenderam que a segurança alimentar e a competitividade do agronegócio passam pela autonomia em insumos e pela proteção de seus produtores contra choques externos. O Brasil, no entanto, parece ter adotado uma postura de “laissez-faire” que, embora tenha estimulado a eficiência produtiva, criou uma dependência estrutural que é, na verdade, uma vulnerabilidade estratégica, a qual, em nossa análise sistêmica da dependência externa do agronegócio brasileiro é provada uma série de gargalos interconectados que amplificam a vulnerabilidade do setor:
E quais as consequências desses desencontros para o cidadão comum? A alta dependência de fertilizantes importados torna o Brasil refém de choques externos que se refletem diretamente no bolso do consumidor. Quando os preços dos fertilizantes disparam, o custo de produção aumenta, e esse aumento é repassado ao consumidor final, encarecendo a comida no prato do brasileiro.
O caso do café é emblemático: a guerra no Oriente Médio fez a relação de troca do grão com insumos se deteriorar drasticamente. E o Brasil, apesar de ser um dos maiores produtores mundiais de alimentos, tem uma população que paga caro por sua comida. A literatura é clara que ao buscarmos como exemplo os países asiáticos que lograram escapar da armadilha da renda média e construir economias industrializadas e autônomas é particularmente instrutivo, como Coreia do Sul e Taiwan, por exemplo, w adotaram uma “estratégia de desenvolvimento sinérgico”, na qual o Estado interveio pesadamente nas economias agrícolas, tanto por meios administrativos diretos quanto pelo estabelecimento de relações de preço muito diferentes das estabelecidas pelas forças de mercado.
Nesses países, o Estado desempenhou um papel decisivo, definindo estratégias de acumulação de capital e transferindo o excedente agrícola para a indústria. A reforma agrária, a substituição de importações e os investimentos em educação e tecnologia facilitaram a transição de sociedades agrárias para economias industriais. Em ambos os países, os governos difundiram de maneira ativa novas tecnologias e práticas agrícolas.
O sucesso desses países deve-se, em grande medida, ao fato de terem seguido uma estratégia de desenvolvimento sinérgica, que combinou políticas agrícolas e industriais de forma coordenada, em que mudaram da substituição de importações para uma estratégia de “industrialização orientada para a exportação”, mas sempre mantendo um forte componente de política industrial e tecnológica. O Brasil, ao contrário, optou por um caminho de especialização regressiva, abandonando a indústria e concentrando-se na exportação de commodities. Esta opção, embora tenha gerado superávits comerciais no curto prazo, criou uma dependência estrutural que limita o desenvolvimento futuro do país.
Por fim, nosso maior sucesso econômico, é uma espada de dois gumes, que ao mesmo tempo em que financia o superávit da balança comercial e sustenta o crescimento econômico, gera uma dependência crítica de fornecedores externos que torna a economia refém das tendências do mercado global e das decisões políticas de outras nações. O produtor e a Embrapa, grandes heróis e revolucionários da nossa economia, que se reinventaram ante as instabilidades econômicas e desenvolveram tecnologias inovadoras para o café, a soja, o milho e o algodão, e que transformaram nosso país em um dos celeiros do mundo, não são suficientes para blindar o setor da falta de autonomia em insumos básicos ! E o pior, expõem nossos talentos à possibilidade de fracasso no longo prazo.
O declínio industrial e a dependência externa do agronegócio são faces da mesma moeda: a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento, que diferentemente dos tigres asiáticos, das grandes potências e de concorrentes diretos como a China, o Brasil não priorizou a construção de uma base industrial e tecnológica autônoma para a agricultura. A decisão da Petrobras de abandonar a produção de ureia, a lentidão na implementação do Plano Nacional de Fertilizantes e a ínfima parcela de subsídios destinada aos produtores brasileiros, de apenas 3% contra 37% na China, são símbolos dessa ineficiência estatal, que perpassa diferentes governos e diferentes cores políticas.
Sem uma mudança de rota, o agronegócio, por mais eficiente que seja, será sempre um vetor de prosperidade condicionado a fatores externos e a promessa política de um desenvolvimento soberano e inclusivo, com comida barata no prato do brasileiro e produtores fortalecidos, continuará sendo um horizonte distante. Urge retomar uma agenda desenvolvimentista que fomente a indústria nacional, invista pesadamente em pesquisa e desenvolvimento para a produção de fertilizantes, amplie os subsídios aos produtores rurais para patamares comparáveis aos de nossos concorrentes, e garanta a autonomia estratégica do país.
O Brasil tem o potencial produtivo, a capacidade tecnológica, humana, criativa e os recursos naturais para se tornar não apenas o maior produtor de alimentos do mundo, mas também um país desenvolvido, com uma indústria forte e uma agricultura autônoma, segura e sustentável. O que falta é vontade política e visão de longo prazo para transformar esse potencial em realidade.
O custo da inação, no entanto, é alto: a perpetuação de um modelo de crescimento frágil, a vulnerabilidade a choques externos e a manutenção de um padrão de desenvolvimento que beneficia poucos e condena a maioria a pagar caro por sua comida, conforme um gênio da economia brasileira, de nome Furtado nos advertira.
Matheus Ferreira Andrade
Economista | Gestão Executiva do Agronegócio
Mini biografia: Economista, Atua na Gestão Executiva do Agronegócio na Chapada Diamantina, possui experiência em Controladoria, Estratégia Financeira e Fiscal.







