sábado, 12 de setembro de 2026
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Agronegócio

Falta de mão de obra já faz produtor de frutas e hortaliças reduzir área e mudar forma de produzir

Escassez de trabalhadores já afeta custos, produtividade e área cultivada de frutas e hortaliças no país.

Falta de mão de obra já faz produtor de frutas e hortaliças reduzir área e mudar forma de produzir
Divulgação

A escassez de trabalhadores deixou de ser apenas uma dificuldade de contratação no campo e já começa a alterar decisões dentro das propriedades de frutas e hortaliças. Pesquisa da Hortifruti Brasil, do Cepea/Esalq-USP, mostra que 93,3% dos produtores e agentes da cadeia entrevistados perceberam redução na disponibilidade de mão de obra nos últimos cinco anos.

O levantamento ouviu 105 participantes do setor e mostra que o problema já interfere no ritmo das operações, nos custos e até no tamanho das áreas cultivadas. Em uma escala de zero a dez, a preocupação média com mão de obra ficou em 7,8.

No hortifrúti, a pressão ganha peso porque muitas culturas continuam dependendo de trabalho humano em etapas como plantio, manejo e, principalmente, colheita. A própria Hortifruti Brasil aponta que essas operações estão entre as mais afetadas pela menor oferta de trabalhadores.

Falta de trabalhador já chega ao bolso

Os impactos relatados pelos produtores mostram que o problema não termina na vaga que fica aberta.

Segundo a pesquisa, 61% dos entrevistados apontaram atrasos nas operações. Outros 58,1% relataram aumento dos custos, 43,8% perceberam perda de qualidade e 42,9%, redução de produtividade. Para 39%, a consequência já foi a diminuição da área produzida.

Esse último dado chama atenção porque mostra uma mudança estrutural. Quando a disponibilidade de trabalhadores passa a definir quanto o produtor consegue plantar, a mão de obra deixa de ser apenas um item da gestão e passa a funcionar como limite para a expansão da atividade.

Em culturas altamente dependentes de colheita manual ou de operações frequentes ao longo do ciclo, não encontrar trabalhadores no momento certo pode signific atraso, perda de qualidade do produto e menor volume comercializado.

Produtor começa a trocar trabalho por tecnologia

A resposta mais comum tem sido buscar formas de produzir com menos dependência de mão de obra.

Mecanização e adoção de técnicas de manejo mais eficientes foram citadas por 21,9% dos participantes, cada uma, entre as estratégias utilizadas para enfrentar o problema. Terceirização e melhoria das condições de trabalho apareceram com 13,3%, enquanto 12,4% mencionaram bonificações.

O movimento inclui desde máquinas para etapas antes realizadas manualmente até fertirrigação, drones e mudanças no planejamento das operações. A tendência é concentrar o trabalho humano nas atividades em que ele continua indispensável e elevar a produtividade de cada trabalhador disponível.

Mas mecanizar não é uma solução igual para todas as culturas.

Em determinadas atividades, características da planta, do terreno ou da própria colheita ainda limitam a substituição do trabalhador por máquinas. Além disso, tecnologia exige capital, escala e capacidade de investimento, o que pode ampliar a diferença entre produtores com maior estrutura financeira e propriedades menores.

Disputa por trabalhador também mudou

A horticultura não concorre apenas com outras propriedades rurais.

A migração para atividades urbanas e a oferta de empregos em outros setores ajudam a reduzir o número de trabalhadores disponíveis para o campo. Esse movimento já era identificado pela própria Hortifruti Brasil em levantamentos anteriores e aparece novamente como parte de um problema que se tornou mais amplo nos últimos anos.

Por isso, parte das estratégias passa pela tentativa de tornar a atividade rural mais atrativa.

Produtores ouvidos pela Hortifruti Brasil relataram adoção de gratificações por desempenho, participação nos lucros, benefícios e melhoria das condições de trabalho. Também aparecem iniciativas de capacitação de jovens e busca por trabalhadores de outros países.

O problema pode decidir quem continuará produzindo

A pesquisa da Hortifruti Brasil mostra que o desafio da mão de obra já está mudando a forma de organizar propriedades de frutas e hortaliças no país.

O caminho apontado pelo levantamento combina quatro frentes: tecnologia, gestão, organização da produção e valorização das pessoas. Experiências analisadas em países como Espanha, Holanda, Estados Unidos e Chile indicam que não existe uma solução única.

Para o produtor brasileiro, a conta tende a ficar cada vez mais clara. Onde for possível, será necessário mecanizar. Onde a mão de obra continuar essencial, será preciso aumentar produtividade, melhorar condições de trabalho e planejar melhor as operações.

A pergunta feita pela edição de agosto da Hortifruti Brasil resume o tamanho do desafio: quem vai colher o futuro?

Os dados indicam que, para parte do setor, essa resposta já começa a definir não apenas como produzir, mas quanto será possível produzir nos próximos anos.

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