ELEIÇÕES 2026 | O AGRO NOS PLANOS DE QUEM QUER GOVERNAR O BRASIL
Esta reportagem integra a série especial Eleições 2026 do Política e Agro, que analisa, com os mesmos critérios, os planos de governo dos presidenciáveis para o agro brasileiro.
Flávio Bolsonaro (PL): Senador pelo Rio de Janeiro e candidato à Presidência da República pelo PL.
Candidato do PL coloca o agronegócio em capítulo próprio e apresenta propostas para reorganização das dívidas rurais, Seguro Rural, armazenagem, infraestrutura e redução da burocracia; programa não detalha política específica para Plano Safra, Embrapa e agricultura familiar.
Previsibilidade para produzir, menos burocracia, reorganização das dívidas e redução dos custos que pesam sobre quem está no campo.
É nessa direção que o plano de Flávio Bolsonaro para o agro em 2026 apresenta suas principais propostas para o setor.
O documento dedica um capítulo específico ao “Agronegócio e Campo” e coloca entre as prioridades a ampliação do Seguro Rural, a criação de ferramentas para securitização e reorganização das dívidas dos produtores, o aumento da capacidade de armazenagem, a expansão da irrigação, a regularização fundiária e o fortalecimento da produção nacional de fertilizantes.
Outras propostas com impacto direto sobre o setor aparecem em diferentes partes do plano. Flávio Bolsonaro promete reduzir impostos sobre energia e combustíveis, rever a reforma tributária, ampliar investimentos em infraestrutura e logística e acelerar processos de licenciamento ambiental. O programa estabelece uma meta global de R$ 900 bilhões em investimentos em infraestrutura durante quatro anos.
Mas o documento também deixa perguntas importantes para quem produz. Embora trate diretamente do endividamento rural, não apresenta uma política detalhada de crédito rural, não define o tamanho de um eventual Plano Safra e não estabelece orçamento para a ampliação do Seguro Rural.
Pesquisa agropecuária, Embrapa e agricultura familiar também não recebem programas específicos equivalentes aos apresentados para outras áreas do campo.
É a partir dessas propostas, e também das lacunas, que o Política e Agro passa o programa de Flávio Bolsonaro pela mesma régua utilizada na análise dos demais presidenciáveis.
Quem é Flávio Bolsonaro
Flávio Nantes Bolsonaro nasceu em 30 de abril de 1981, em Resende, no Rio de Janeiro, e tem 45 anos. É bacharel em Direito pela Universidade Cândido Mendes, possui especializações em políticas públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, o Iuperj, e em empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas. Também é empresário.
Sua trajetória eleitoral começou no Rio de Janeiro. Flávio exerceu quatro mandatos como deputado estadual antes de ser eleito senador em 2018. Assumiu o mandato no Senado em 2019, com período previsto até 2027.
Em 2026, disputa a Presidência da República pelo PL.
Como o plano de Flávio Bolsonaro para o agro trata crédito e dívida rural
O endividamento rural aparece de forma direta entre as preocupações apresentadas pelo programa.
Flávio Bolsonaro promete ampliar ferramentas de securitização e reorganização das dívidas dos produtores rurais, com o objetivo de permitir que o planejamento financeiro do campo tenha horizonte superior a uma safra.
É uma resposta a um problema que ganhou peso no campo depois de sucessivas safras marcadas por eventos climáticos, juros altos, redução de margens e dificuldade para renegociar operações.
Mas há uma diferença importante entre resolver o passivo e financiar o futuro.
O programa não detalha qual será a política de crédito rural para um eventual governo Flávio Bolsonaro. Não estabelece volume para o Plano Safra, não apresenta uma meta de juros para custeio e investimento e não esclarece como pretende estruturar a equalização das linhas destinadas à produção.
Esse ponto ganha importância porque, no capítulo fiscal, o plano defende maior controle dos gastos públicos e limitação do crédito subsidiado pelo Tesouro como parte da estratégia para reorganizar as contas públicas e reduzir juros.
A pergunta que fica para o produtor é direta: como essa política de menor subsídio público será conciliada com um sistema de crédito rural que historicamente utiliza recursos equalizados para oferecer taxas abaixo das praticadas livremente no mercado?
O programa dá uma resposta mais objetiva para a dívida passada do que para o financiamento da próxima safra.
Seguro Rural está entre as propostas de Flávio Bolsonaro
O Seguro Rural aparece entre as prioridades apresentadas para dar mais previsibilidade à produção.
O candidato promete ampliar o instrumento como forma de proteger o produtor contra perdas e reduzir os efeitos das quebras de safra. O seguro também aparece dentro da estratégia do programa para reduzir oscilações na oferta de alimentos.
A proposta conversa diretamente com uma das maiores cobranças do setor nos últimos anos: transformar o Seguro Rural em política permanente e previsível, em vez de depender de sucessivas disputas orçamentárias.
O problema é que o programa ainda não informa quanto pretende investir.
Não há meta financeira para a subvenção ao prêmio do seguro, percentual de crescimento da área segurada ou desenho de um mecanismo específico para grandes catástrofes.
Assim, a intenção de ampliar o Seguro Rural está registrada, mas o tamanho dessa ampliação e a fonte dos recursos continuam em aberto.
Custos do agro: plano aposta em impostos menores e menos burocracia
O custo de produzir aparece no plano principalmente por meio de políticas econômicas mais amplas.
Flávio Bolsonaro promete revisar e redimensionar a reforma tributária, reduzir impostos sobre energia elétrica e combustíveis e diminuir encargos que pesam sobre a conta de luz. O programa também propõe redução gradual da Conta de Desenvolvimento Energético, a CDE.
A estratégia econômica parte da ideia de que equilíbrio fiscal, redução da dívida pública e inflação controlada criariam condições para juros mais baixos.
No campo, a redução de custos também passa pela burocracia.
O programa propõe simplificar outorgas para irrigação, acelerar a regularização fundiária e reduzir entraves regulatórios. Há ainda uma proposta mais ampla de revisão de normas consideradas excessivas ou ultrapassadas.
No agro, a combinação seria de menos impostos, energia mais barata, melhor logística, aumento da armazenagem, produção nacional de fertilizantes e redução de obstáculos burocráticos.
Há, porém, questões ainda sem detalhamento. O plano não apresenta estimativa de quanto essas mudanças poderiam efetivamente reduzir o custo dentro da porteira nem esclarece quais tratamentos tributários específicos do agronegócio seriam mantidos ou alterados em uma eventual revisão da reforma tributária.
CAR e licenciamento no plano de Flávio Bolsonaro
Meio ambiente e segurança jurídica recebem atenção específica no programa.
O plano propõe um licenciamento ambiental que define como mais ágil, moderno e juridicamente seguro. Também prevê maior previsibilidade regulatória para investimentos.
Na área rural, a proposta inclui consolidar o Cadastro Ambiental Rural, integrar informações fundiárias e ambientais e ampliar mecanismos de rastreabilidade.
Outra frente é o pagamento por serviços ambientais a produtores e comunidades que conservem vegetação e recursos naturais. O programa também prevê estímulos à bioeconomia e ao mercado de carbono.
Regularização e titulação de pequenas propriedades rurais aparecem associadas à segurança jurídica e à possibilidade de o proprietário utilizar a documentação da terra para acessar crédito e realizar investimentos.
No licenciamento, o programa propõe estabelecer prazos para manifestação dos órgãos responsáveis e mecanismos destinados a evitar que empreendimentos fiquem indefinidamente aguardando uma decisão administrativa.
Esse é um dos pontos que exigiria detalhamento jurídico em um eventual governo, especialmente para definir como os novos procedimentos seriam compatibilizados com a legislação ambiental e com as competências dos diferentes órgãos públicos.
Ainda assim, diferentemente de outros temas que permanecem apenas no campo conceitual, CAR, regularização fundiária e licenciamento aparecem associados a propostas específicas de desburocratização e segurança jurídica.
Infraestrutura e armazenagem ganham espaço no plano para o agro
Infraestrutura é uma das áreas em que o programa apresenta uma das maiores metas financeiras.
Flávio Bolsonaro promete mobilizar R$ 900 bilhões em quatro anos para rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos. A estratégia prevê participação da iniciativa privada, concessões, parcerias público-privadas e financiamento do BNDES para projetos executados no Brasil.
Para o agronegócio, uma das principais propostas é a criação dos chamados Corredores Logísticos Inteligentes, destinados a integrar áreas produtoras aos portos e reduzir o custo de transporte das safras.
O plano cita projetos específicos, entre eles o destravamento da Ferrogrão, a conclusão e ampliação da Transnordestina, a Hidrovia do Tapajós e uma ligação ferroviária de cargas entre Mato Grosso, o oeste do Paraná e Santa Catarina.
Armazenagem também aparece diretamente.
O programa promete ampliar a capacidade nacional de armazenamento das safras para permitir que o produtor tenha maior liberdade para escolher o momento da comercialização e diminuir a necessidade de vender imediatamente depois da colheita.
A proposta reconhece um gargalo importante. O que falta é transformar a intenção em meta.
O programa não informa em quanto pretende aumentar a capacidade brasileira de armazenagem, quantos recursos seriam destinados a silos e armazéns ou como seria estruturado o financiamento para novas unidades dentro das propriedades.
Também não informa qual parcela dos R$ 900 bilhões previstos para infraestrutura seria efetivamente direcionada aos corredores utilizados pelo agronegócio.
Fertilizantes e comércio exterior entram na estratégia para o agro
Diminuir a vulnerabilidade brasileira na compra de fertilizantes é outra proposta do programa.
Flávio Bolsonaro defende estimular a produção nacional aproveitando reservas brasileiras de potássio e fosfato e ampliar alternativas de fabricação de fertilizantes no país. A meta política é reduzir a exposição do produtor brasileiro às importações e às oscilações do mercado internacional.
Apesar da prioridade, o programa não estabelece percentual de redução da dependência externa nem prazo para aumentar a participação nacional no abastecimento.
No comércio exterior, o programa apresenta uma política externa mais voltada à abertura comercial e à busca de soluções diplomáticas para barreiras que afetem produtos brasileiros.
China, Estados Unidos, União Europeia e mercados asiáticos aparecem entre parceiros considerados relevantes dentro da estratégia internacional.
O plano também promete buscar respostas diplomáticas a restrições comerciais que atinjam produtos brasileiros.
O desafio, novamente, está nas metas. Não há indicação de quantos novos mercados a candidatura pretende abrir nem quais cadeias agropecuárias seriam prioritárias.
Tecnologia aparece no plano, mas Embrapa fica sem política específica
Tecnologia e inovação ocupam espaço importante na estratégia econômica geral de Flávio Bolsonaro.
O programa prevê uma Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, apoio a empresas inovadoras, conectividade e modernização tecnológica, com aplicação também no agronegócio e na logística.
No campo, tecnologias digitais aparecem ainda associadas à rastreabilidade e à integração de bases de dados.
Mas a pesquisa agropecuária não recebe o mesmo grau de detalhamento de infraestrutura, armazenagem ou fertilizantes.
Na leitura do programa, não há uma política específica apresentada para a Embrapa, nem definição de orçamento ou metas próprias para a pesquisa agropecuária federal.
Também não aparece uma estratégia estruturada para áreas que ganharam importância no campo, como desenvolvimento de bioinsumos, novas cultivares ou fortalecimento de centros públicos de pesquisa agropecuária.
É uma lacuna importante porque tecnologia aplicada ao agro depende não apenas de empresas privadas e inteligência artificial, mas também de pesquisa de longo prazo em genética, solos, sanidade, manejo e adaptação às condições brasileiras.
A inovação está no plano. O papel da pesquisa agropecuária pública ainda precisa ser explicado.
Agricultura familiar aparece sem política própria no plano
O programa dedica propostas aos pequenos proprietários rurais, principalmente nas áreas de regularização fundiária, titulação, irrigação, crédito e redução de burocracia.
A ideia é acelerar a documentação das propriedades para aumentar a segurança jurídica e facilitar investimentos. O plano também prevê ampliar áreas irrigadas e simplificar as outorgas necessárias para utilização da água.
Mas existe uma diferença entre tratar do pequeno proprietário e estabelecer uma política específica para agricultura familiar.
Na leitura do programa apresentado pela candidatura, não há um conjunto estruturado de propostas para instrumentos como Pronaf, assistência técnica e extensão rural, compras públicas ou políticas específicas de comercialização da agricultura familiar.
Isso deixa uma pergunta importante.
Qual seria o desenho da política agrícola destinada aos agricultores familiares em um eventual governo Flávio Bolsonaro?
O pequeno produtor está presente no documento. A agricultura familiar como categoria de política pública precisa de maior detalhamento.
O que o plano de Flávio Bolsonaro ainda não responde ao produtor
Depois de passar o programa pelos mesmos critérios utilizados pelo Política e Agro para analisar os demais presidenciáveis, algumas perguntas permanecem.
Qual será a política de crédito rural? O programa apresenta uma proposta para reorganizar dívidas, mas não informa o tamanho do Plano Safra, as taxas pretendidas ou como funcionará a equalização dos juros.
Como a redução do crédito subsidiado será conciliada com o financiamento do agro? A candidatura defende menor participação do Tesouro na concessão de crédito subsidiado, mas não detalha o impacto dessa diretriz nas linhas rurais.
Quanto haverá para o Seguro Rural? A ampliação está prometida, mas sem orçamento ou meta de área coberta.
Quanto a armazenagem deverá crescer? O problema é reconhecido, mas falta uma meta concreta de expansão e uma política de financiamento para estruturas dentro das propriedades.
Qual será o papel da Embrapa? Tecnologia aparece como prioridade, mas pesquisa agropecuária pública não recebe uma política própria no programa.
Como ficará a agricultura familiar? Há propostas para pequenos proprietários, mas faltam instrumentos específicos para esse segmento.
São perguntas que não anulam as propostas apresentadas. Elas mostram onde o programa ainda precisa avançar do compromisso político para o mecanismo de execução.
O retrato do plano de Flávio Bolsonaro para o agro
O programa de Flávio Bolsonaro dá ao agronegócio um capítulo próprio e coloca entre suas principais apostas reorganização das dívidas rurais, ampliação do Seguro Rural, armazenagem, redução de burocracia, regularização fundiária, segurança jurídica, irrigação, fertilizantes e infraestrutura logística.
Há propostas que dialogam diretamente com problemas atuais do campo. A securitização das dívidas responde ao passivo financeiro. A armazenagem aparece como instrumento para melhorar a capacidade de negociação do produtor. CAR e licenciamento entram na agenda de segurança jurídica. E a logística recebe uma meta global de R$ 900 bilhões em investimentos.
Ao mesmo tempo, áreas essenciais para a política agrícola ficam menos definidas.
O documento não apresenta o tamanho de um eventual Plano Safra, não estabelece orçamento para o Seguro Rural, não quantifica a expansão da armazenagem nem a redução da dependência externa de fertilizantes.
Também falta detalhar qual será a política para Embrapa, pesquisa agropecuária e agricultura familiar.
O retrato, portanto, é de um programa que detalha mais algumas mudanças estruturais e regulatórias para o campo, mas ainda precisa explicar como pretende financiar parte importante da política agrícola.
É justamente essa diferença entre o que está escrito, o que tem meta, o que possui mecanismo e aquilo que ficou de fora que o Política e Agro vai acompanhar nesta série.
Porque, antes de escolher quem vai governar o Brasil, o produtor também precisa saber qual é o projeto de cada candidato para quem produz.
Quem quer governar o Brasil precisa dizer, antes da eleição, o que pretende fazer com o agro.
E o Política e Agro vai abrir cada plano para descobrir.
Nota metodológica: esta reportagem integra a série especial “O agro nos planos de quem quer governar o Brasil”. Todos os presidenciáveis selecionados são submetidos aos mesmos eixos de análise. O conteúdo não recomenda voto, não classifica candidatos e não estabelece preferência eleitoral. A análise considera as propostas apresentadas nos programas de governo e identifica pontos detalhados, diretrizes gerais e questões que permanecem sem resposta específica.







