segunda-feira, 31 de agosto de 2026
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Eleições 2026

Plano de Renan Santos para o agro aposta em fertilizantes, agroindústria e ferrovias, mas deixa dívida e Seguro Rural sem resposta

Candidato do Missão propõe mudanças no Plano Safra, expansão de fertilizantes, ferrovias, agroindustrialização e inteligência artificial, mas deixa dívida, Seguro Rural e armazenagem sem políticas específicas.

Plano de Renan Santos para o agro aposta em fertilizantes, agroindústria e ferrovias, mas deixa dívida e Seguro Rural sem resposta
Divulgação

ELEIÇÕES 2026 | O AGRO NOS PLANOS DE QUEM QUER GOVERNAR O BRASIL

Esta reportagem integra a série especial Eleições 2026 do Política e Agro, que analisa, com os mesmos critérios, os planos de governo dos presidenciáveis para o agro brasileiro.

Renan Santos (Missão): Empresário e um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), disputa a Presidência da República pelo Partido Missão e nunca exerceu mandato eletivo.

Candidato do Missão propõe o AgroBrasil 2030, mudanças no Plano Safra, expansão da produção nacional de fertilizantes, mais ferrovias, agroindustrialização e inteligência artificial no campo; programa não apresenta política específica para endividamento, Seguro Rural, armazenagem e agricultura familiar.

Segurança da propriedade, soberania em fertilizantes, agroindustrialização e tecnologia.

É sobre esses pilares que o plano de Renan Santos para o agro em 2026 constrói boa parte de suas propostas para o setor.

O programa registrado no TSE tem 51 páginas e apresenta uma agenda específica para o agronegócio, batizada de AgroBrasil 2030. O documento é uma versão condensada de um projeto mais amplo elaborado pelo partido e organiza as propostas para o campo em cinco grandes frentes: segurança da propriedade rural e combate às invasões; revisão da política de reforma agrária; redução da dependência externa de fertilizantes; agroindustrialização e verticalização das cadeias produtivas; e mudança na forma como o agronegócio é apresentado dentro da educação.

O plano também conecta o setor a uma agenda de infraestrutura e inteligência artificial, prevê mudanças no Plano Safra para estimular o processamento da produção e estabelece metas relacionadas a ferrovias e fertilizantes.

Mas alguns dos problemas mais imediatos enfrentados pelo produtor aparecem sem resposta específica.

Endividamento rural, Seguro Rural, armazenagem, Cadastro Ambiental Rural, Pronaf e agricultura familiar não recebem políticas próprias na versão do programa analisada.

Quem é Renan Santos

Renan Antônio Ferreira dos Santos nasceu em 14 de fevereiro de 1984, em São Paulo, e tem 42 anos.

É empresário e um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, o MBL. Ingressou no curso de Direito da Universidade de São Paulo, mas não concluiu a graduação. Antes de ganhar projeção política, trabalhou também com recuperação e reestruturação de empresas.

Renan tornou-se nacionalmente conhecido pela atuação no MBL durante as manifestações e o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Nunca exerceu mandato eletivo.

Em 2025, tornou-se o primeiro presidente nacional do Partido Missão, legenda criada a partir do movimento político ligado ao MBL.

Em 2026, disputa a Presidência da República. Na data de referência utilizada pelo Política e Agro para esta série, 18 de agosto de 2026, seu pedido de registro ainda aguardava julgamento da Justiça Eleitoral.

Plano Safra aparece, mas Renan Santos propõe mudar o foco do crédito

Diferentemente de programas que deixam o principal instrumento de crédito rural fora do texto, Renan Santos cita diretamente o Plano Safra.

Mas propõe mudar sua lógica.

O objetivo é direcionar parte dos incentivos para produtores e empresas que invistam em processamento e verticalização da produção.

Na prática, a candidatura quer utilizar a política de financiamento também como estímulo para que uma parcela maior da produção brasileira deixe de sair do país como matéria-prima e seja processada antes da exportação.

Soja, café, cacau e carnes estão entre as cadeias que poderiam avançar nesse processo de agregação de valor.

O programa também prevê financiamento do BNDES condicionado a metas de exportação para projetos de agroindustrialização.

A estratégia está clara: o crédito seria usado não apenas para plantar, mas também para transformar.

Mas faltam peças importantes.

O documento não informa qual seria o tamanho do Plano Safra, não apresenta taxas para custeio e investimento, não define o volume de recursos equalizados pelo Tesouro e também não explica como ficariam as linhas tradicionais destinadas ao produtor que precisa simplesmente financiar uma nova safra.

O plano apresenta uma nova direção para o crédito. O funcionamento completo da política rural ainda precisa ser explicado.

Dívida rural não recebe política específica no plano de Renan Santos

Se o programa apresenta uma ideia para direcionar o crédito futuro, o passivo atual do produtor fica sem uma resposta própria.

Endividamento rural não recebe uma política específica no documento.

Não há um programa de renegociação ampla, proposta de securitização do passivo atual ou mecanismo desenhado para recuperar produtores que perderam capacidade de acessar novos financiamentos.

Essa é uma lacuna importante porque parte do setor rural chega à eleição discutindo justamente como carregar dívidas acumuladas depois de problemas climáticos, juros elevados e redução das margens.

Uma coisa é alterar o Plano Safra para estimular a agroindustrialização. Outra é fazer esse crédito chegar a quem já está financeiramente comprometido.

Por isso, fica uma pergunta central:

qual será a proposta de Renan Santos para o produtor que chega a 2027 endividado e sem capacidade de tomar novos recursos?

Seguro Rural fica fora das propostas específicas

Outro instrumento importante da política agrícola não aparece entre as prioridades do programa condensado apresentado ao TSE.

O Seguro Rural não recebe proposta específica.

Não há definição para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Também não aparecem metas de área segurada, seguro de renda, mecanismos paramétricos ou um Fundo de Catástrofe destinado a perdas generalizadas.

A ausência chama atenção porque o risco climático passou a fazer parte permanente do planejamento do produtor.

Secas, enchentes, excesso de chuva e outros eventos podem comprometer safras inteiras. Isso afeta crédito, renda e capacidade de investimento.

O programa apresenta uma estratégia de longo prazo para transformar o agronegócio brasileiro, mas ainda precisa responder uma pergunta mais imediata:

como proteger a renda do produtor quando a safra dá errado?

Fertilizantes estão entre as propostas mais específicas de Renan Santos

Se Seguro Rural recebe pouco espaço, fertilizantes estão no centro da estratégia.

O programa trata a dependência externa brasileira como uma vulnerabilidade econômica e geopolítica.

Renan Santos propõe ampliar a execução do Plano Nacional de Fertilizantes e acelerar projetos nacionais de fosfato, potássio e nitrogênio.

Também estabelece um horizonte objetivo. A partir de 2035, segundo o plano, as colheitas brasileiras não deveriam depender de fertilizantes vindos de Rússia, Belarus ou Marrocos.

A meta, porém, precisa ser analisada com cuidado.

Ela trata da dependência de fornecedores específicos, não necessariamente da eliminação da dependência brasileira de produtos importados. O Brasil poderia substituir esses países por outros fornecedores externos sem, obrigatoriamente, alcançar autossuficiência.

O programa também defende a criação de uma legislação para permitir exploração mineral controlada em terras indígenas, proposta que dependeria de aprovação do Congresso e envolveria discussões constitucionais, ambientais e relacionadas aos direitos das populações indígenas.

Ainda assim, fertilizantes estão entre os temas em que o programa apresenta direção, instrumento e horizonte temporal mais claros.

O que falta é uma meta para a produção doméstica.

Quanto o Brasil deverá produzir? Qual será a participação nacional no consumo? Quanto as importações deverão cair?

Esses números não aparecem.

Agroindustrialização é uma das principais apostas do programa

Outro eixo bastante definido é agregar mais valor àquilo que o Brasil já produz.

O programa defende verticalizar as cadeias produtivas e aumentar a transformação de commodities dentro do país.

A lógica é fazer com que mais etapas das cadeias produtivas permaneçam no Brasil. Em vez de exportar apenas café verde, ampliar a venda de produtos processados. Em vez de embarcar somente soja ou outros grãos, estimular indústrias capazes de gerar alimentos, biocombustíveis e produtos de maior valor agregado.

Para isso, Renan propõe utilizar instrumentos como Plano Safra, BNDES, Zonas Econômicas Especiais e acordos comerciais bilaterais.

A candidatura trata a agroindustrialização como estratégia para gerar emprego, renda e arrecadação nas próprias regiões produtoras.

É uma visão de longo prazo, mas ainda faltam metas que permitam medir o tamanho da transformação proposta.

Quanto da produção agrícola brasileira deverá ser processada internamente? Quanto deverá crescer a exportação de produtos industrializados? Qual será o volume de investimentos?

O programa não detalha.

Infraestrutura ganha meta ferroviária, mas armazenagem fica de fora

A logística aparece de forma mais concreta no programa.

Dentro do chamado Missão Rondon, Renan Santos estabelece como objetivo atingir uma malha ferroviária mínima de 40 mil quilômetros.

O documento cita projetos como conclusão da Fiol, início da Ferrogrão, Ferrovia Alcântara-Açailândia e uma possível Ferrovia Transoceânica.

Também prevê expansão e modernização da estrutura portuária, especialmente no Norte e Nordeste, utilizando investimento estatal, concessões, parcerias público-privadas e autorizações privadas.

A lógica conversa diretamente com o agronegócio. Quanto maior a participação de ferrovias e portos eficientes, menor tende a ser a pressão sobre o transporte rodoviário de longa distância.

Mas há uma ausência importante nessa agenda.

Armazenagem não recebe política específica.

Não há meta para ampliação da capacidade de silos, financiamento para estruturas dentro da propriedade ou estratégia própria para reduzir o déficit de armazenagem próximo às regiões produtoras.

O programa explica melhor como pretende transportar a safra do que como pretende guardá-la.

Segurança da propriedade rural ocupa espaço central

Segurança da propriedade é o primeiro pilar do AgroBrasil 2030.

O programa promete endurecer medidas contra invasões de propriedades rurais, revisar normas do Ministério do Desenvolvimento Agrário e fortalecer a atuação das forças de segurança nos casos de esbulho possessório.

Também propõe mudanças na política de reforma agrária.

A ideia é auditar assentamentos existentes e não criar novos enquanto os atuais não alcançarem níveis de produtividade considerados adequados pelo governo. Os critérios para seleção de novos beneficiários também seriam revistos.

É uma das posições mais explícitas do documento.

No licenciamento ambiental, o plano promete implementar integralmente a Lei Geral do Licenciamento Ambiental e utilizar mecanismos especiais para acelerar projetos estratégicos.

Mas, quando a análise chega à regularização ambiental da propriedade, o detalhamento diminui.

O Cadastro Ambiental Rural, o CAR, não recebe uma política específica. Também não há uma estratégia própria para acelerar a execução do Código Florestal e os processos de regularização ambiental.

Assim, o programa é bastante claro sobre segurança física e jurídica da propriedade. A regularização ambiental recebe menos atenção.

Inteligência artificial entra diretamente na estratégia para o campo

Tecnologia é outro eixo de destaque do programa.

O plano conecta a política agrícola diretamente a uma estratégia nacional de inteligência artificial.

Uma das propostas é criar uma Base Agro-Bio Nacional, reunindo grandes volumes de dados agropecuários para desenvolvimento de aplicações tecnológicas.

A candidatura também fala em drones, robótica, datacenters e inteligência artificial aplicada à produção.

A intenção é criar tecnologias brasileiras capazes de aumentar produtividade e reduzir custos.

A Embrapa aparece no documento, mas não como centro dessa estratégia de pesquisa. A empresa é citada principalmente em uma proposta relacionada à análise técnica de materiais educacionais sobre o agronegócio.

Não há uma política institucional específica para a empresa, meta de orçamento ou compromisso definido para expansão da pesquisa pública agropecuária.

Também não aparece um programa detalhado para desenvolvimento de novas cultivares, genética ou fortalecimento dos centros de pesquisa da instituição.

A inteligência artificial ganha espaço. O papel da pesquisa agropecuária pública ainda precisa ser explicado.

Programa quer mudar a forma como o agro aparece nas escolas

Um dos cinco pilares do AgroBrasil 2030 chama atenção por não tratar diretamente da produção.

O programa pretende mudar a forma como o agronegócio é abordado nos materiais didáticos.

A proposta parte da avaliação da candidatura de que o setor é frequentemente apresentado de maneira negativa ou ideologizada.

O plano prevê auditoria técnica de materiais e participação de instituições como a Embrapa nesse processo.

É uma agenda mais ligada à forma como o setor é apresentado à sociedade do que à política agrícola tradicional.

Sua inclusão como um dos cinco pilares mostra que a candidatura considera a imagem pública do agronegócio parte da estratégia para o setor.

Agricultura familiar e Pronaf ficam sem política própria

Agricultura familiar é outra ausência relevante.

O programa condensado registrado no TSE não apresenta uma agenda específica para o segmento.

Pronaf não ganha uma proposta. Também não aparece uma estratégia própria para cooperativismo, assistência técnica, sucessão rural ou compras públicas.

O programa trata de reforma agrária, mas são temas diferentes.

Reforma agrária diz respeito, entre outras questões, ao acesso à terra e aos assentamentos. Agricultura familiar envolve milhões de estabelecimentos já produtivos e uma estrutura própria de financiamento, assistência e comercialização.

Por isso, fica uma pergunta importante:

como um eventual governo Renan Santos trataria o pequeno produtor e a agricultura familiar dentro da nova política agrícola proposta?

O que o plano de Renan Santos ainda não responde ao produtor

Depois de passar o programa pela mesma régua utilizada pelo Política e Agro com os demais presidenciáveis, algumas perguntas permanecem.

Como ficará o Plano Safra? O programa pretende direcioná-lo para a agroindustrialização, mas não detalha volume, juros ou funcionamento das linhas tradicionais.

Como será enfrentado o endividamento rural? O passivo atual dos produtores não recebe uma política específica.

Qual será a proposta para o Seguro Rural? Subvenção, cobertura e proteção para grandes catástrofes ficam fora do detalhamento.

Como será enfrentado o déficit de armazenagem? Há meta ferroviária e projetos logísticos, mas não há política específica para silos.

Como ficarão CAR e regularização ambiental? Segurança da propriedade e licenciamento aparecem com mais clareza, mas o Cadastro Ambiental Rural não recebe desenho próprio.

Qual será o papel e o orçamento da Embrapa? A empresa aparece no programa, mas não ganha uma política institucional de pesquisa.

E qual será a política para agricultura familiar, Pronaf e cooperativismo? Esses instrumentos não recebem desenho próprio.

O retrato do plano de Renan Santos para o agro

O programa de Renan Santos apresenta uma agenda específica para o agronegócio e deixa mais clara sua visão de longo prazo.

O AgroBrasil 2030 concentra propostas em segurança da propriedade, revisão da reforma agrária, fertilizantes, agroindustrialização e imagem do setor. Infraestrutura e inteligência artificial também ganham espaço relevante.

Entre as propostas mais concretas estão a meta ferroviária de 40 mil quilômetros, mudanças no Plano Safra para estimular a verticalização da produção, ampliação da produção nacional de fertilizantes e um horizonte temporal para reduzir a dependência de fornecedores como Rússia, Belarus e Marrocos.

O programa também pretende combinar BNDES, capital privado, zonas econômicas especiais e acordos internacionais para fazer o país exportar produtos de maior valor agregado.

Mas o documento apresenta um contraste.

Ele explica melhor como pretende mudar a estrutura do agronegócio brasileiro no longo prazo do que como responder a algumas dificuldades imediatas do produtor.

Endividamento rural não recebe solução específica. Seguro Rural fica de fora. Armazenagem não ganha política própria. CAR não é detalhado. Agricultura familiar e Pronaf também aparecem sem um desenho específico. E a Embrapa ainda precisa encontrar um papel mais claro dentro da agenda de tecnologia e pesquisa proposta.

O retrato é de um plano que tem posições mais definidas sobre propriedade, fertilizantes, infraestrutura, agroindústria e tecnologia, mas ainda precisa responder como pretende proteger a renda, financiar a produção tradicional e atender diferentes perfis de produtores no curto prazo.

É justamente essa diferença entre o que está escrito, o que tem mecanismo, o que possui meta e aquilo que ainda ficou sem resposta que o Política e Agro acompanha nesta série.

Porque, antes de escolher quem vai governar o Brasil, o produtor também precisa saber qual é o projeto de cada candidato para quem produz.

Quem quer governar o Brasil precisa dizer, antes da eleição, o que pretende fazer com o agro.

E o Política e Agro vai abrir cada plano para descobrir.

Nota metodológica: todos os programas desta série foram analisados pelo Política e Agro em 18 de agosto de 2026, considerando os documentos e propostas disponíveis até essa data. O programa registrado pelo Partido Missão é uma versão condensada do projeto político da legenda. Todos os presidenciáveis selecionados são submetidos aos mesmos eixos de análise. O conteúdo não recomenda voto e não estabelece preferência eleitoral.

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