segunda-feira, 14 de setembro de 2026
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Economia

Terra, dólar e segurança jurídica: por que o Uruguai entrou no radar do capital brasileiro

Fundos, compras de fazendas e novos projetos mostram que o Uruguai começa a ganhar espaço como destino do capital brasileiro ligado ao agro.

Terra, dólar e segurança jurídica: por que o Uruguai entrou no radar do capital brasileiro
Divulgação

Fundo brasileiro inicia captação de R$ 100 milhões para comprar fazendas no país vizinho e chama atenção para um movimento que combina terras mais baratas, renda dolarizada e previsibilidade econômica

Um fundo brasileiro começou a captar R$ 100 milhões com um objetivo que chama atenção: comprar terras agrícolas no Uruguai. A operação poderia ser vista apenas como mais uma alternativa de investimento no agro, mas ajuda a revelar um movimento maior. Enquanto o Brasil possui escala, produção e um mercado agropecuário muito superior ao do vizinho, o pequeno Uruguai começa a aparecer no radar de investidores brasileiros justamente por oferecer algo que ganhou valor em um ambiente global mais incerto: previsibilidade.

O Uruguay FIP Multiestratégia pretende adquirir inicialmente quatro propriedades rurais, com áreas entre 1 mil e 2 mil hectares, voltadas principalmente à produção de soja, milho e trigo. Segundo informações divulgadas pela AgFeed, o fundo trabalha com terras avaliadas entre US$ 4 mil e US$ 7 mil por hectare e expectativa de retorno combinando arrendamento das propriedades e valorização patrimonial.

O modelo é relativamente simples. O fundo compra a terra, arrenda a propriedade para produtores e recebe uma renda em dólar enquanto mantém o ativo no patrimônio. A expectativa apresentada pelos gestores é obter rendimento anual superior a 3% apenas com o arrendamento, além de eventual valorização das fazendas.

Mais interessante do que a estrutura financeira, porém, é entender por que um fundo criado no Brasil está olhando justamente para o Uruguai.

País pequeno, mas com um ambiente construído para receber capital

O Uruguai possui pouco mais de 3 milhões de habitantes e uma economia muito menor que a brasileira. Em escala agrícola, também não existe comparação. O Brasil produz mais, possui uma área agricultável muito maior, cadeias agroindustriais mais diversificadas e um mercado interno de dimensões continentais.

O diferencial uruguaio está em outro lugar.

O país oferece ao capital estrangeiro, como regra geral, o mesmo tratamento concedido ao investidor nacional. Não há uma limitação geral à participação de estrangeiros em empresas, e o ambiente regulatório permite a remessa de lucros ao exterior. Além disso, existem regimes específicos de promoção de investimentos e incentivos para determinadas atividades.

Para quem compra uma fazenda pensando em mantê-la durante sete, dez ou mais anos, essas características pesam.

O investimento em terra é diferente de uma aplicação financeira que pode ser vendida rapidamente. O investidor precisa projetar impostos, regras fundiárias, contratos, capacidade de retirar recursos do país e, principalmente, o risco de que essas condições sejam alteradas no meio do caminho.

É nesse ponto que a estabilidade institucional uruguaia se transforma em ativo econômico.

Segurança jurídica também tem preço

A percepção de risco do país ajuda a explicar o interesse. O Uruguai mantém grau de investimento nas principais agências internacionais de classificação de risco. Dados reunidos pela agência oficial Uruguay XXI mostram avaliações como BBB+ pela S&P, BBB pela Fitch e Baa1 pela Moody’s.

O país também acumulava estoque de investimento estrangeiro direto de aproximadamente US$ 36,8 bilhões em 2024, equivalente a cerca de 45% do PIB uruguaio.

Para uma economia pequena, é uma participação relevante e mostra que a presença do capital estrangeiro não é um fenômeno recente.

A estabilidade, no entanto, não significa ausência de problemas. O Uruguai enfrenta desafios fiscais, crescimento econômico moderado, custos elevados em algumas áreas e um mercado doméstico pequeno. Também não significa que todo investimento rural no país será necessariamente mais rentável do que no Brasil.

O que o país oferece é uma percepção maior de previsibilidade.

E previsibilidade, para capital de longo prazo, vale dinheiro.

Terra uruguaia ainda entra na conta

Existe ainda um componente essencial para entender o movimento: o preço da terra.

Dados oficiais do Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca do Uruguai mostram que o hectare rural negociado no país teve preço médio de US$ 4.178 em 2025. Ao longo do ano, foram realizadas 1.718 operações, envolvendo aproximadamente 259 mil hectares e mais de US$ 1,08 bilhão.

Isso não significa que qualquer fazenda uruguaia custe esse valor. Assim como no Brasil, o preço varia muito conforme localização, aptidão agrícola, qualidade do solo, infraestrutura e capacidade produtiva.

Mas, para determinados investidores brasileiros, a comparação com regiões agrícolas consolidadas do Brasil torna algumas áreas uruguaias competitivas.

O próprio fundo que está sendo estruturado trabalha com uma faixa de US$ 4 mil a US$ 7 mil por hectare.

Ao mesmo tempo, existe um mercado consolidado de arrendamento. Em 2025, mais de 900 mil hectares foram objeto de contratos de arrendamento no Uruguai, com valor médio de US$ 133 por hectare ao ano. Nas áreas destinadas à agricultura de sequeiro, os valores são significativamente maiores.

Para o investidor, portanto, existem duas possibilidades de ganho: renda durante a posse da propriedade e valorização do próprio ativo.

O dólar faz diferença

Outro elemento importante é a moeda.

Grande parte das cadeias agroexportadoras uruguaias opera com referências em dólar. Compra e venda de terras, arrendamentos e commodities têm forte ligação com a moeda americana.

Para um investidor brasileiro, isso permite construir uma exposição patrimonial fora do real.

Essa característica ganhou importância em um período marcado por volatilidade cambial, tensões geopolíticas e incertezas fiscais em diferentes economias. Uma fazenda uruguaia passa a ser vista não apenas como terra agrícola, mas como um ativo real ligado a uma economia exportadora e com receitas referenciadas em moeda forte.

É uma lógica diferente de simplesmente comparar quantas toneladas de soja são produzidas por hectare no Brasil e no Uruguai.

Agro sustenta boa parte das exportações uruguaias

Apesar do tamanho reduzido, o Uruguai possui uma economia fortemente ligada ao agro.

Em 2025, as exportações de bens do país alcançaram US$ 13,49 bilhões, maior resultado da última década. Carne bovina respondeu por aproximadamente 20% das vendas, celulose por 17% e soja por 11%.

Isso significa que boa parte da infraestrutura econômica, logística e comercial uruguaia já está adaptada a cadeias exportadoras.

Para o capital que compra terra, esse ambiente importa porque a propriedade não está isolada. Ela depende de compradores, tradings, portos, armazenagem, crédito, contratos e capacidade de transformar produção em receita.

O Uruguai construiu essa estrutura ao longo de décadas e consolidou uma reputação internacional principalmente nas cadeias de carne, grãos, florestas e celulose.

O Brasil continua oferecendo vantagens que o Uruguai não tem

A entrada de brasileiros no mercado uruguaio não significa uma fuga em massa do capital rural do Brasil e tampouco permite concluir que investir no Uruguai seja automaticamente melhor.

O Brasil possui vantagens que dificilmente poderiam ser reproduzidas pelo país vizinho.

Temos escala continental, disponibilidade de terras em diferentes regiões, possibilidade de duas ou até três safras em algumas áreas, enorme mercado consumidor, uma cadeia de fornecedores muito desenvolvida e liderança mundial em diversas commodities.

A capacidade de valorização das terras brasileiras nas últimas décadas também foi extraordinária.

O que está mudando é a régua utilizada pelo investidor.

Produtividade e potencial de valorização continuam importantes, mas passaram a dividir espaço com segurança jurídica, estabilidade das regras, tributação, câmbio e risco político.

É nesse conjunto que o Uruguai começa a competir.

O movimento levanta uma pergunta para o Brasil

O caso do fundo de R$ 100 milhões talvez seja apenas uma operação entre tantas outras do mercado financeiro. Ainda não existem elementos suficientes para afirmar que esteja ocorrendo uma migração relevante de capital brasileiro para terras uruguaias.

Mas o movimento merece ser acompanhado.

Quando investidores de um dos maiores produtores agrícolas do planeta começam a levantar dinheiro dentro do Brasil para comprar fazendas em um país muito menor, a pergunta não deve ser apenas quanto essas terras poderão render.

É preciso perguntar o que está levando esse dinheiro até lá.

Parte da resposta está no preço das propriedades. Parte está no dólar. Parte está na possibilidade de diversificação geográfica. Mas existe um componente que atravessa praticamente toda a tese de investimento: previsibilidade.

E essa comparação interessa diretamente ao Brasil.

Nos últimos anos, produtores e investidores brasileiros convivem com discussões recorrentes sobre tributação, regras ambientais, segurança fundiária, crédito, juros elevados e mudanças regulatórias. Isso não elimina as enormes vantagens competitivas do país, mas aumenta o prêmio de risco exigido por quem precisa decidir onde colocar capital durante uma década.

O Uruguai parece ter entendido que não precisa competir com o Brasil em tamanho. Precisa competir em confiança.

Esse talvez seja o principal aprendizado por trás dessa movimentação.

Capital de longo prazo procura rentabilidade, mas também procura regras que consiga enxergar alguns anos à frente. Quando um país oferece as duas coisas, até uma economia de apenas 3 milhões de habitantes pode entrar no radar de investidores de uma potência agrícola.

Por isso, a discussão vai muito além dos R$ 100 milhões que começam a ser captados para quatro fazendas. Se novos fundos e investidores brasileiros seguirem o mesmo caminho, o movimento poderá revelar algo maior sobre a disputa por capital no agro sul-americano.

Nesse caso, a pergunta deixará de ser por que brasileiros estão comprando terras no Uruguai. Será preciso perguntar o que o Brasil pode fazer para continuar sendo, além de uma potência na produção, o lugar mais atrativo para investir o dinheiro que financia essa produção.

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