segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Agro Agora
Dólar PTAX · BRBrasilR$ 5,1859 +0,43%Soja · SCChapecóR$ 138,00 +1,32%Milho · GORio VerdeR$ 53,40 0,00%Milho · MTCáceresR$ 52,80 0,00%Milho · MSCampo GrandeR$ 73,80 0,00%Milho · SPAvaréR$ 61,80 0,00%

Agronegócio

Safra de trigo cai 26% e Brasil deve aumentar importações em mais de 20%

Produção deve cair para 5,8 milhões de toneladas e importações podem superar 7 milhões, enquanto moinhos acompanham custos e chegada da nova safra argentina.

Safra de trigo cai 26% e Brasil deve aumentar importações em mais de 20%
Divulgação

Produção brasileira é estimada em 5,8 milhões de toneladas, enquanto importações podem chegar a 7,1 milhões; indústria acompanha aumento dos custos e possível impacto sobre farinha, pão, massas e biscoitos

A produção brasileira de trigo deve cair 26% na safra 2026/2027 e aumentar a dependência do país das importações para atender ao consumo interno. Com uma oferta nacional estimada em 5,8 milhões de toneladas, aproximadamente 2 milhões de toneladas a menos que na temporada anterior, os moinhos precisarão recorrer com mais intensidade ao mercado externo.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta importações de 7,103 milhões de toneladas no ano-safra, crescimento superior a 20% na comparação com o ciclo anterior e o maior volume desde 2006/2007. Estimativas privadas trabalham com números ainda maiores, chegando a 8,2 milhões de toneladas.

O cenário cria uma situação particular para o mercado brasileiro. No curto prazo, a menor disponibilidade doméstica pode fortalecer a negociação dos produtores que colherem trigo dentro dos padrões de qualidade exigidos pela indústria. Para os moinhos, porém, a redução da safra significa maior necessidade de buscar matéria-prima no exterior, com exposição a câmbio, frete, tarifas e custos logísticos.

Área plantada com trigo recua ao menor nível desde 2020

A redução da produção começa pela menor área destinada à cultura.

O plantio de trigo no Brasil recuou 20,4%, para aproximadamente 1,92 milhão de hectares, menor patamar desde 2020. Margens apertadas nas últimas temporadas, custos elevados de produção, endividamento dos produtores e preocupações climáticas contribuíram para reduzir o interesse pela cultura.

O receio em relação à possibilidade de ocorrência de um El Niño mais intenso também pesou nas decisões de plantio.

Com menos área cultivada, a oferta brasileira deve cair justamente em um mercado no qual o consumo interno permanece muito superior à capacidade de produção nacional.

A demanda brasileira supera 13 milhões de toneladas por ano, o que historicamente obriga o país a complementar o abastecimento com trigo importado.

Neste ciclo, essa dependência deverá aumentar.

Brasil pode importar mais de 7 milhões de toneladas

A projeção da Conab de 7,103 milhões de toneladas importadas representa aumento superior a 20% sobre a temporada anterior.

Se confirmada, será a maior importação brasileira de trigo desde o ciclo 2006/2007.

Projeções privadas apontam uma necessidade ainda maior e estimam compras externas que podem chegar a 8,2 milhões de toneladas.

A Argentina é tradicionalmente o principal fornecedor do Brasil e possui uma vantagem importante: por integrar o Mercosul, o trigo argentino entra no mercado brasileiro sem a Tarifa Externa Comum aplicada a fornecedores de fora do bloco.

O problema, neste momento, é o intervalo entre a menor disponibilidade brasileira e a chegada da nova safra argentina.

Os moinhos precisam manter o abastecimento até dezembro, quando a entrada do novo trigo argentino deve alterar novamente a relação entre oferta e demanda no mercado regional.

Trigo argentino ainda disponível enfrenta limitações de qualidade

Além da disponibilidade, a indústria brasileira acompanha a qualidade do cereal ofertado.

Parte dos lotes remanescentes da safra argentina apresenta limitações relacionadas ao teor de proteína, característica importante para determinados tipos de farinha e produtos de panificação.

Quando o produto argentino não atende às especificações necessárias, os moinhos precisam avaliar outras origens.

É aí que o custo aumenta.

Referências apresentadas ao mercado indicam o trigo argentino da safra anterior próximo de R$ 1.463 por tonelada. O produto russo aparece em torno de R$ 1.591 por tonelada, enquanto o trigo americano chega a aproximadamente R$ 2.048.

Esses valores não são preços fixos e podem variar de acordo com qualidade, origem, câmbio, frete e condições de entrega, mas ajudam a mostrar a diferença de custo entre as alternativas disponíveis.

Quanto mais distante a origem, maior tende a ser o peso da logística. Para países de fora do Mercosul, também entra na conta a política tarifária aplicada às importações.

Menor oferta pode favorecer produtor no curto prazo

Para quem permaneceu na cultura, a redução da safra pode melhorar o poder de negociação durante os próximos meses.

Com menos trigo brasileiro disponível e necessidade de compra por parte dos moinhos, lotes que atendam às especificações da indústria podem encontrar maior disputa no mercado.

Essa condição, entretanto, não deve ser interpretada como uma mudança permanente na formação dos preços.

A janela tende a permanecer mais favorável enquanto a indústria precisar atravessar o período de menor disponibilidade doméstica e ainda não contar plenamente com a nova safra argentina.

A partir de dezembro, a entrada do cereal argentino pode aumentar novamente a oferta regional e alterar a relação de forças entre produtores e compradores.

Indústria alerta para custos de farinha, pão e massas

A maior dependência das importações também acende um alerta para os consumidores.

O Sindicato da Indústria do Trigo de São Paulo (Sindustrigo) acompanha o aumento dos custos da matéria-prima e aponta possibilidade de repasses ao longo da cadeia.

O trigo representa uma parcela importante do custo de produção da farinha. Quando o cereal fica mais caro, a pressão pode avançar para produtos como pão, massas e biscoitos.

Isso não significa que a queda da safra brasileira produzirá automaticamente um aumento na mesma proporção nas prateleiras. O preço final depende de outros componentes, como energia, mão de obra, transporte, embalagens, margens industriais e comerciais.

O câmbio também será decisivo.

Quanto maior a necessidade de importação, maior a exposição da indústria brasileira às oscilações do dólar e aos custos internacionais de transporte.

Safra argentina pode mudar cenário a partir de dezembro

Os próximos meses serão marcados por uma combinação pouco comum: produção brasileira menor, necessidade elevada dos moinhos e disponibilidade limitada de alternativas importadas competitivas antes da chegada da nova safra argentina.

Para o produtor brasileiro que conseguiu manter produtividade e qualidade, o cenário pode representar uma oportunidade de negociação.

Para a indústria, significa administrar estoques e custos enquanto aumenta a busca por matéria-prima no exterior.

E, para o consumidor, significa acompanhar uma cadeia que entra nos próximos meses mais dependente das importações e, consequentemente, mais exposta ao comportamento do câmbio, dos fretes e dos preços internacionais.

A principal mudança deve ocorrer com a entrada da nova safra argentina, esperada para dezembro.

Até lá, a menor produção brasileira coloca o trigo nacional de boa qualidade em uma posição diferente no mercado. Depois disso, a chegada de uma oferta maior do principal fornecedor externo do Brasil pode voltar a pressionar as cotações e reduzir o espaço de negociação dos produtores brasileiros.

Afinidade de tema

Continue lendo

Atualização contínua

Últimas notícias